Paco Souto gaña o premio Johán Carballeira

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O noso amigo Paco Souto, poeta augamariño, labrador costeiro e gastasolas compostelán, ademais de notábel espírito herculino, gaña o premio Johán Carballeira co seu libro As horas de María. Parabéns.

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A vida extrema, de Mário Herrero

Desde o texto inicial, de grande fôlego e em prosa poética, reconhecemos a expressão de uma voz enjaulada no mesmo corpo que a suporta. Como se o próprio corpo fosse moldado como jaula para ocultar a sua verdadeira função aos olhos do indivíduo, por arte de um lendário encantamento. Criaram para ele o engano de que a casca do fruto é cárcere e não o fruto mesmo, a couraça que protege o que de valioso possui no interior. Aquilo que deve ser libertado no justo momento em que está pronto a germinar. Perdem-se assim, inevitavelmente os referentes ao positivo, o luminoso, e o bom recebe inexoravelmente a mácula do demoníaco: “cruzando o inferno, que é um jardim, que é um gesto autoritário, que é o esquecimento, que é a poesia”. Até a poesia, símbolo libertário por excelência, cai no caixote do lixo nesta visão, por falta de referentes para o crescimento humano.

A falsidade, os fantasmas, as sombras, a desvalorização do eu como objectivo de um Sistema que visa a fácil manipulação através da insatisfação dos homens, estão presentes neste livro como nos anteriores do autor, embora a perspectiva política não ser tão evidente como em, por exemplo, No limiar do silêncio. Tudo neste mundo descrito se perde, tudo se estraga. O tempo parece ser aquilo que se debulha no caminho inevitável ao inferno. Nesta perspectiva, surgem as doenças, as profundas doenças crónicas que convertem o doente em um tipo social; a mediocridade, a corrupção, que são inoculadas constantemente na rede social; o veneno que expectoram as instituições religiosas, ainda que já a poucos produzam dependência. Drogas de outra época, talvez esta última, drogas de sempre, as outras.

Neste sentido, em alguns poemas se deixa ver o protesto explícito, como no poema oito da segunda parte:

“Desejo a pureza que se me negou”

“Não, não, os satisfeitos não sabem.

Os satisfeitos são.

Comem e fodem.

Este é o tempo dos cabrões.

Sei-o desde esta dor tão real.

Um nada de sangue

que entra na água

e lhe dá cor.”

Noutros textos, o pensamento atinge outras profundezas e uma reflexão sobre a natureza do facto poético surge em poucos versos, com um estilo quase oriental:

“Beberei do teu corpo

comerei da tua alma

e serei da materia que forma

a estrutura maldita do poema”

Assim o poeta participa da substância do poema. Ora o poema é carne da sua carne, ora o poeta deve transmutar-se em poema para oferecer parte de si próprio no processo criativo. Poderíamos dizer que a criação poética se leva a termo como o acto feminino universal.

O materialismo absoluto é o veneno da humanidade. Constitui o primeiro prato de todas as ementas. E significa não a impossibilidade da alma, de resto algo demasiado inexplicável para ser tido em conta, mas a impossibilidade das ideias, do uso básico da inteligência. Como alternativa a este mundo de sombras que sofremos, torna-se preciso descobrir a origem da cegueira. Daí virá a consciência do que o mundo é, agora ocultado trás o véu das falsas verdades. Por enquanto, se não fazermos o que for preciso para impedi-lo, o estômago continuará a crescer, os olhos permanecerão impedidos, e nada servirá para afirmar-nos na queda infinita a que nos querem condenar.

A vida extrema foi publicado na editora virtual portuguesa Arcosonline (http://www.arcosonline.com/) em junho de 2005 com um desenho extremamente luminoso, como precisa um poemário que requer a máxima atenção e o suporte mais digno.

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Gabriel Nascente

O poeta Poeta Gabriel Nascente e seu periquito Loló, por Sinesio Dioliveira

Poeta Gabriel Nascente e seu periquito Loló, por Sinesio Dioliveira

O Gabriel Nascente é sem dúvida um homem generoso. Certo dia recebi um pacote com um livro dele e uma carta em que dizia que um amigo seu lhe tinha falado de mim, poeta galego, e que gostava assim de estabelecer contacto comigo. Assim, apresentando-se presenteando. Fiquei agradecido e contente, a imediatamente lhe enviei o livro colectivo de poetas corunheses de que dispunha naquele momento.

Então mais: recebi outros livros, e um trecho de cultural de jornal em que louvava os poemas do nosso grupo poético publicamente. Na Goiânia, um lugar que tive de procurar no mapa pela minha grande ignorância, e que já nunca mais esquecerei.

Reparem: há gente no interior do Brasil, esse continente, que conhece e fala dum pequeno grupo de poetas da Corunha. Se o afã de comunicação não tem limites, evidentemente os corações verdadeiramente abertos à arte, e à vida portanto, já nem concebem o próprio conceito de limite.

Há algum tempo já que este amigo me enviou estes poemas sobre o conflito do Iraque. Hoje ainda, infelizmente, não deixam de ser plenamente actuais.

A CANÇÃO DO VISIONÁRIO
(A propósito da guerra do Iraque)

Quando os homens acionarem a
ignição de suas máquinas de guerra,
guardarei unha semente de trigo
na cabeceira dos brejos – (lá onde
a terra se mistura com o soluço das águas).

E levarei hosanas
aos presidiários.
Os meninos pressentirão nos dedos
a pólvora
das explosões sanguinárias.

A poeira do estupor
correrá o mundo.
A luz lamberá a chusma das feridas.
E enormes cogumelos de nuvens atômicas
assustarão as janelas (num espectáculo
de aviltar a frieza dos mármores).

E imperceptivelmente um tordo, triste,
cantará sobre os escombros.
A água ficará enferma
em suas nascentes.
E será moda lambuzar os nossos pratos
com molho de vísceras cadavéricas.

E as ovelhas, meu Deus, as ovelhas…
do árido território dos desertos,
para onde vão buscar abrigo,
entre os vales de pedras,
há milênios?

As hortaliças. O pão.
Mãos à obra de quem?
Nem os rios terão tempo de prantear
a caveira de suas faunas.
Choraremos a solidão dos nossos ossos.

(Sala Albert Camus, Goiânia, 16 de Fevereiro de 2003)

UMA PROFECIA DE MAL GOSTO
(A propósito da guerra do Iraque)

I

Tempos ruins virão (abrindo
crateras no rosto dos homens).

As ovelhas e os meninos
na mira dos aviões,
(despejando bombas do ventre
atroz de suas missões).

O sol lá dos insípidos desertos…
que dó: O Eufrates.
Minas de larvas brotarão
da raiz dos nossos olhos.

Não haverá tempo para
o último uivo do lobo.
Ó raça de povos erradios, com
sangue de camelo nas veias:
Orientais fanáticos, bebei
postos de petróleo:

II

Tempos ruins virão (abrindo
crateras nos abismos do céu).
Loucos e histéricos, os homens
já se estraçalham uns aos outros,
feito ventanía de moscas, na carniça.

Os homens e seus trágicos
instrumentos de cortes e fogo.
(Espalhando cadáveres pelas
cidades e pelos campos).

III

E eu já ouço,
daqui dos subúrbios desta América,
o grito de pavor das crianças
buscando abrigo no colo das mães.

Viver é uma dor.
Guitarras vão às ruas
pedir paz.

O mundo é um tambor
de povos
na mira dos massacres.

Tempos ruins virão.
(Tomara que isto seja apenas
uma película de cow-boy americano).

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