Recordando a Jacob Burckhardt

Jacob BurckhardtO outro dia prometi trazer ao blog uns pensamentos do historiador e crítico de arte Jacob Burckhardt com o propósito de esclarecer a ideia de cultura ou, polo menos, de reflectir sobre os condicionantes que delimitam o sentido desta palavra. Foi uma pequena casualidade o que me levou a trazê-lo a colação. Passeava polos cantões corunheses há pouco quando deparei no chão, à beira dum quiosque, um volumoso livro intitulado Historia de la cultura griega, de Jakob Burckhardt. Estranha ironia, pensei, a que nos oferece a sociedade contemporânea: os clássicos jazem aos pés de nós, ociosos citadinos, polo módico preço de 18 euros mas, quem dos que por aqui passam (e poderia ficar durante horas ali) conhece quem é Jacob Burckhardt, o admirado catedrático da universidade de Basileia? Para não desiludir-me, quiçá ,seria preferível continuar na ignorância. Senti, confesso-o, uma súbita emoção ao recordar a sua amizade com Nietzsche e como este sempre o considerou um grande mestre, sem variar nunca a sua opinião sobre ele (como sim acontecera, por certo, com Richard Wagner).

Burckhardt (1818-1897) entendeu a actividade do historiador fora das concepções mais academicistas do idealismo hegeliano assim como do historicismo. Defendeu a história como uma tarefa que tinha como objectivo o próprio aperfeiçoamento da pessoa, tentando-a compreender desde categorias que a percebiam como uma forma de modelação estranha ao conceito de progresso. Em certo sentido, e contra o historicismo, Burckhardt entende a função idiográfica, singular, da ciência histórica: percebe-a como a construcção de uma narração em que o próprio historiador se realiza como artista e, sobretudo, como a história não é uma questão do passado mas do presente, misteriosamente presente. Há toda uma raiz ética implicada que não pode substentar-se numa suposta objectividade baseada em simples “factos”. Suspeitamos que se decantaria em favor de Samuel Butler contra o determinismo de Henry Festin Jones. Diz Jones: “Nem Deus pode cambiar a história”. Responde Butler: “ Não, Jones, só os históriadores podem fazê-lo” .

Viu na própria sociedade industrial e na modernidade (e aqui com ambiguidades e paradoxos) um princípio de dissolução e destruição que não parecia resolver-se numa superação, como pretendiam todos os “optimistas” hegelianos, positivistas e , em geral, a ideologia decimonónica. Era duramente criticado polo facto de que não estava ao dia das últimas descobertas e discussões académicas da sua disciplina. Mas a sua obra A cultura do Renascimento na Itália é um modelo de estudo duma época, mantendo-se perfeitamente actual. Mas o que o traz aqui são algumas frases sobre o contexto no que se joga a compreensão da “nossa época”e a maneira de opor o nacionalismo alemão (e outros) ao sentido antigo da cultura. No contexto está também o problema do filisteísmo e o seu compromiso com o êxito fácil ao serviço de uma identidade nacional, que não precissa compreensão apurada e profunda mas consignas que elevem o orgulho e a auto-estima. Para um suiço como ele quando todos estavam de acordo em algo era o momento de apanhar distância e ver que se passava aí propriamente. Nunca viu como um bem para a cultura alemã a unificação forçada pelas necessidades modernas do Estado, nem um bem a vitória alemã contra França . E esta visão influirá decisivamente em Nietzsche, como veremos num futuro post.

Temos aqui algumas das suas reflexões.

Depois de se dedicar à política uns quatro anos, Burckhardt diz:

Sobre a gente da minha índole não se podem construir os Estados. De aqui em diante, enquanto dure a minha vida, desejo ser um homem de bem, solícito para os semelhantes e boa pessoa privada… Não podo mudar o meu destino, e antes de que irrompa a barbárie universal (que me parece iminente), continuarei o meu aristocrático e deleitoso trabalho de cultura, para servir polo menos de algo o dia da inevitável restauração… Fora dos deveres inapeláveis, não quero mais experiências com o meu tempo, se não é o de salvaguardar quanto me seja dável o património da velha cultura europeia.”

O anti-estatalismo será também uma constante no pensamento de Nietzsche e a ideia de barbárie que maneja Burckhardt foi já utilizada por Goethe para referir-se aos alemães. A cultura prusiana, o Reich, quixo promocionar a Burckhardt a catedrático em Berlim, mas este declinou o convite. Preferiu a sua Suiça natal, um ambiente familiar e cívico onde um homem como ele podia dedicar-se a contemplar com distância o que considerava o início do “desastre” alemão:

Desengane-se a triste nação alemã se sonha que asinha poderá arrimar o mosquete e dedicar-se às artes da paz e à felicidade. Os dous povos mais civilizados do Continente condenaram-se a abdicar da cultura. Muito do que interesava e deleitava aos homens em Julho de 1870 resultará indiferente em 1871” (no contexto da guerra franco-prusiana).

Em vez da cultura, volta a estar sobre a mesa a simples existência. Por muitos anos, ao simples capricho do que se chamam melhoras responderá-se com a referência às imensas dores e perdas sofridas. O Estado voltará a assumir em grande parte a alta tutela sobre a cultura e mesmo a orientá-la novamente, em muitos aspectos, segundo os seus próprios gostos. E não está descartada a possibilidade de que ela mesma lhe pergunte ao Estado cómo quere que se oriente. Perante tudo, haverá que recordar à indústria e ao comércio, do modo mais cru e constante, que não são o fundamental na vida do homem. Talvez morrerá uma boa parte de toda essa folhagem luxuriosa da investigação e as publicações científicas, e também das artes; e o que sobreviva terá que impor-se um duplo esforço… Adjudicará-se ao Estado entre os seus deveres sem cessar crescentes, tudo aquilo que se crê ou se suspeita que não o fará por si só a sociedade. Tenho uma premonição que, ainda que pareça insensatez, não podo afastar da minha mente, e é que o Estado militar que se avizinha vai convertir-se numa grande fábrica. Essas hordas humanas dos grandes centros industriais não podem ficar abandonadas indefinidamente à sua fome e à sua codícia. Por força sobrevirá, se há lógica na história, um regime organizado para graduar a miséria, com uniformes e ascensos, em que cada dia comece e acabe ao toque do tambor”.

O dito acima foi exprimido 50 anos antes de Hitler e o III Reich. Quiçá para algo pode valer a história. E ainda:

Há tempo que estou convencido de que mui pronto o mundo terá que escolher entre a democracia total ou um despotismo absoluto e violatório de todos os direitos. Tal despotismo não será exercido polas dinastias, excessivamente sensíveis e humanas ainda para esse extremo, mas polas chefias militares de pretendido cariz republicano. Verdade é que custa muito imaginar um mundo cujos directores prescindam totalmente do direito, o bem-estar, a ganhança lícita, o trabalho, a industria, o crédito, etc., e apliquem um regime alicerçado exclusivamente na força. Mas esta ralé de gente terá de vir parar ao poder, por efeito do actual sistema de concorrências e participações da massa na deliberação política” (13 de Abril de 1882).

Democratas e proletários vão ficar submetidos a um terrível e crescente despotismo, ainda que se defendam com tremendos esforços, pois o nosso século não está chamado a realizar a verdadeira democracia”.

É necessário fazer comentários? Não é uma preclara visão do que foi o s. XX? Felizmente os homens melhoramos, não é?

Como curiosidade (mas provavelmente não casualidade) dizer que Titus Burckhardt, o estudoso da filosofia perene e tradicional, era o seu sobrinho-neto.

Bom , amigos, sabe-me a pouco mas vamos deixá-lo por aqui.

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De livros e fantasias contáveis V/V

Esto es más necesario en Galicia, porque se ignoran sus anales, los pocos libros que acerca de su historia se conocen son incompletísimos, y lo atrasados que se hallan entre nosotros los estudios históricos, hacen imprescindibles aquellas noticias, sin las cuales seria incompleta la idea que se diese del estado intelectual de este país en sus diversas épocas.

Manuel Murguía, 1862.

Que é que podemos fazer? Que é que queremos logo? Realmente queremos algo?

Sem explicar e reconhecer a doença, difícil remédio há. Também há crônicos que nestas crônicas de desalento moram felizes e se contemplam heróicos nos espelhos. O que podemos fazer dependerá do que queiramos fazer.

Que não queremos nada, não sonhamos nada, pois não movimentamos nada, continuamos a conversar nas tabernas e nos blogues e nada. A aguardar, lendo Omar Khayam, engatando os belos olhares dos leitores do outro sexo, e bebendo de vinho, pola morte lenta.

interrogante.jpgQue queremos ganhar dinheiros autores e editoras com o mercado actual, sem passarmos para o sistema castelhano ou luso, haverá que eliminar autores e editoras para repartir de jeito equilibrado o pastel, que é pequeno e não cresce. Apenas com que o estado deixe de destragar dinheiros em livros, filmes e teatro e invista em bibliotecas, bibliobuses, internet gratuito, campanhas de alfabetização de adultos… era boa.

Que somos patriotas e não nos importa o dinheiro? Então o melhor é fazermos cooperativas literárias, pôr umas quotas e receber cada mês ou trimestre uma listagem de bem editados e belos livros, escrever nós e intercambiar com os amigos. Que somos mais arriscados e tecnológicos, pois abrimos blogues e, de quando em quando, nos agasalhamos PDFs gratuitos e ceives.

Que queremos escrever boa literatura, fazer progredir a língua e criar um sistema literário, necessitaremos menos, mais sérias ou mais profissionais editoras e autores em competição permanente (o que se lograria, penso com eliminar toda ajuda pública). Mas, ainda teremos que dar tempo aos autores, não pretender tirar uma obra por ano, e exigir das editoras que cumpram o seu trabalho de escolha, assessoramento, correição e edição como dos críticos que sejam profissionais (quanto amáveis).

Mas, de qualquer jeito, e ainda no sistema, muito se podia fazer ainda. Primeiro, porém, há que deixar de contar e crermos as mentiras de sempre.

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De livros e fantasias contáveis IV/V

Non se desafivela ningún segredo espallando a anécdota do Ánxel Casal, que voltou da emigración para afleitar a nao da Editorial “Nós” e facer un cruceiro de cen tomos, ao termo dos coales estaba a ruína, tan lenta, segura e sabida, coma pode estar un baixío ben sinalado de antemán. Emporiso, il tamén pensou que o que importaba era navegar…

G. Álvarez Gallego, 24-10-1934.

Mas sem movimentação que os obrigue, os autores também não competem. Ninguém nas editoras lhes exige, pois se não pensa na qualidade ou nas vendas, ou se atrapalham as duas idéias em discursos ideais e supostamente patrióticos.

O sistema é dependente da relação e amizades, e dado que uma obra de valor vale igual que uma sem ele, a quantidade das entradas, a movimentação, os saraus, a participação em tudo o que se coze é o único que no sistema cultural galego, permite apanhar um espaço ou ganhar algo de dinheiros.

CegueiraMas isto obriga a estar a bem com todo o mundo, a escrever o que se pensa que a gente quer ouvir, a não dizer o que se pensa e a perseguir incansável e maçadores gentes (editores e coordenadores de publicações) para publicar. Neste ambiente qualquer possibilidade de ver nascer uma crítica séria é como aguardar por uma nova revolta irmandinha.

Os autores com um produto que vender e vontade de estilo ou ganhas de profissionalização, pouco cuidado recebem, pois figuram nas mesmas listagens e tratos que os que passavam por lá, ou fazem currículo para os correspondentes triênios, selênios, marcianos ou plutônios que enchem de constelações de fantasia pseudo-sisuda as bibliotecas de Galiza. Isto empobrece a escrita dos primeiros e rebaixa a qualidade dos fundos das editoras.

Realmente, em prosa e ensaio é muito difícil enxergar algum título bom, salvo por uma recomendação de amizade, dado que a qualidade dos produtos, em ausência de controlo editor e de verdadeira crítica, também não pode ser avaliada rapidamente pelos consumidores.

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Cadáver naceu, e agora crece

En febreiro deste ano Igor Lugris, que non sabíamos que estaba así preñado, un cadáver pariu que agora crece. O cadaverciño naceu pequeno, dun verso de comprimento e sete palabras de peso. A medida exacta que foi anotada na primeira hora é a do seguinte verso:

Há umha certa luz incomprensível na distáncia

Pai e fillo atópanse ben. Nas últimas semanas o menino multiplicouse por sesenta e continúa a medrar, nun ambiente en que tantos e tantas tentamos amamentalo e até apadriñalo (do último non se deixa, cun sorriso por resposta). Será ao final un fillo da comunidade, e anunciará simplemente coa súa existencia que algunhas utopías sempre son posíbeis. Ten que ser a arte quen reclame a necesaria asunción desta verdade. Da Verdade.

No post «Cadáver #12» de Ovnis e isoglossas ofrécese unha das moitas fotografías feitas á crianza:

Cadáver 12-Ovnis e isoglossas«Há umha certa luz incompreensível na distáncia
como umha porta de cristal fechada
uma palavra no abismo da língua
tócate, sen sabelo, esvara
o conto é decidir cando acabar
un home do sur preguntoulle se quería viaxar
e ela considerou pasos cegos e desertos
Avanzou en círculos, até os límites da súa propia sombra
onde ofereceu a todos a maçã vermelha do seu peito

Igor Lugris
Eugénio Outeiro
Oscar Mourave
lara do ar
María do Cebreiro
Xiana Arias
Eduardo Estévez
Tati Mancebo
Alfredo Ferreiro

Mais um cadáver para a nossa colecçom de cadáveres, mais um cadáver para a Expo Cadáver, a exposiçom internacional de cadáveres esquísitos que celebraremos em Ponferrada, e na que aguardo ver a todas/os, ou a muitos/as, das/os participantes, para que recitemos entre todos os, por agora, 60 cadáveres! que já temos.
Há um cadáver a caminhar pola rede!

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Nº 200 do suplemento “Faro da cultura”

faro-da-cultura.JPG

Hoxe saíu, con ar de festa e unha boa “man de pintura”, o Faro da cultura, suplemento que cada semana ofrece o xornal Faro de Vigo. Un lindo fariño que cada xoves ten a decencia de promover unha normalidade cultural en galego, e de manifestar implicitamente o desexo, Xosé Ramón Pena á frente, dunha divulgación día a día mellor lograda da creatividade dos nosos tempos.

Moitos vultos da cultura actual tiveron oportunidade de opinar sobre este suplemento e os problemas deste tipo de publicacións nun polido artigo de Natalia Álvarez (non todas son, felizmente, críticas negativas ao traballo xornalístico neste blogue). Entre eles, Moisés Barcia tocou a pedra da crítica literaria, que el atopa inhibida coas opinións pexorativas e á que reclama máis audacia: “Sería bo que se vise aos críticos non como inimigos, senón como todo o contrario, xa que ocultando defectos non se lle fai ningún favor ao sistema, aos libros e mais aos lectores”.

Por outra parte, o blogocompañeiro Jaureguizar calcou as tintas sobre unha insuficiente atención aos produtos culturais galegos: “Habería que dar un segundo paso, que sería transmitir de xeito máis atractivo toda a potencia cultural que ten o país”. Palabras estas cargadas de positividade, que non podo senón adherir.

Como “creador do blogue de crítica literaria O levantador de minas” tamén foi entrevistado quen isto escribe, e que non deixou de recomendar que incluísen a cor no deseño da publicación, facto que neste número foi unha realidade. Supoño que era unha necesidade evidente adiada desde non se sabe cando.

Entre outras, unha cualidade positiva que tiven oportunidade de defender, como xa avancei acima, foi o uso exclusivo do galego neste suplemento, “coherencia que non todos son capaces de manter”. E isto lévame agora ás últimas consideracións antes de que a cama me regale o soporífero abrazo: se de todos os membros da comunidade galega calculamos os que son lectores habituais, e deles os que o son de libro galego, e de cada un destes restamos a parte que posúen de lectores en castelán, e se no que fica temos que localizar a nómina total de escritores, críticos literarios, xornalistas, deseñadores editoriais, blogueiros etc. en galego… desde logo somos ben creativos!

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No día mundial da poesía, un poema de John Ashbery

John AshberyJohn Ashbery naceu en Rochester, Nova York, en 1927. Pertence ao grupo coñecido como New York Poets. Posuidor de todos os recoñecementos reservados para os grandes poetas, agás o Premio Nobel, que se lle resiste ano tras ano. Ten publicado arredor de vintecinco libros de poemas. As súas influencias máis directas encóntranse nos textos de W. H. Auden, Wallace Stevens, Boris Pasternak e os surrealistas franceses. Ten sido comparado por Harold Bloom con Yeats e con Stevens. Os seus poemas son como unha xanela aberta ao fluxo dos seus pensamentos, de aí as constantes mudanzas de ritmo, de rexistros, de ánimo e de temas. En ocasións o tempo contráese e multitude de palabras sobreveñen para narrar unha milésima de segundo; noutros momentos concédenos a graza de comprender como fulmina unha era cunhas poucas palabras escollidas coa precisión dun ourive.

Traducimos Chinese Whispers, que dá nome tamén ao libro en que está inserido. O título fai referencia aos rumores e a ese xogo en que unha frase circula de boca en boca, e de oído en oído, entre un grupo de persoas sentadas en círculo, de modo que irremediabelmente acaba deturpándose, logo de pasar por todos os elos da cadea comunicativa.

TELÉFONO AVARIADO

E de alí a un bocado cedemos á presión:

Supuracións ad nauseam, o querer sermos máis altos,

malia que só sexa por sermos máis misteriosos, isto é, non máis altos,

como calquera árbore en calquera bosque.

Muda, a filloa descríbete.

Levaba pequenos números romanos incrustados polo borde.

Era un reloxo filloa. Facíanse naqueles tempos,

cada vez máis pequenos, por iso acabaron extinguidos.

Foi cen anos antes de que alguén se decatase.

O governador xeral

chamábao “sinuoso”. Mais nós, nós tiñamos outros nomes para el,

sabiamos que duraría moito tempo,

aínda que se extinguise. E tan certo como que as porras caen das árbores

sobre as entradas conxeladas, voltou de novo

cando toda lembanza fora expurgada

da mente común.

Todo o mundo quere probar un deses novos reloxos filloa.

Un noivo da vila do lado tiña un

mais atinadamente esquecía traelo sempre que o convidabamos.

Ao final os rumores viraron máis fabulosos que a realidade:

Seica levan incrustacións de madeixas de carpaza,

tan densas

que nin un príncipe na procura da Bela Adormecida podería entrar.

E aínda máis, hai moitos máis que cando estaban extinguidos,

Pero os prezos seguen a subir. Hainos nas Hespérides

e nas aldeas de chabolas nos límites do mundo coñecido,

azuis polo frío. Habíaos en todos os centros urbanos.

As cámaras escuras

tamén tiveron o seu momento aquel ano. Mais por que con tanta xente

a querer saber de que vai a historia ninguén dá atopado a receita orixinal?

Ao momento, a ninguén lle importa. Volvemos a ter detalles os uns cos outros,

a formar unha pequena vía para o tren a forza de pegar selo tras selo,

e outras cousas menos apreciábeis. O pasado fica esquecido até a próxima.

Como describir os anos? Algúns foron como bloques do máis pálido halva,

alleos a que os tocasen. Algúns deitaban o lixo dos outros,

tirábanse os ollos. Tirábanse moitos

antes de que ninguén se decatase, era como un claroscuro

de nubes a caeren.

Como eu devecía por volverte visitar naquela casa vella! Mais ti estabas xorda,

ou morta. As nosas cartas cruzáronse. Unha motora levábame alén

do baixío, as persoas na beira semellaban bonecos a manosearen cousas.

Aínda hai máis

que me vén á cabeza sobre os cans. Certo que unha sinxela aperta

dun peixe itinerante tería sido desprezada en certos tempos. Non agora.

Hai unha fame de anos na terra, as mulleres son lindas,

mais tamén vellas prematuras e gastas. Non mellora. Rochas semienterradas

en bandas de area, e maldicións espontáneas.

Bérrolle á porta principal do barco,

querendo ser máis alto, e nalgún punto no medio todo isto se perde.

Fun fantasma por un día. Os meus amigos leváronme con eles.

Sempre se acaba vendo que hai moito que salvar.

Os galiñeiros

non saíron flotando na inundación. As bordadoras volveron ao labor

con ganas. Todos os cerralleiros marcharan da vila á noite.

Acabou sendo unha bonita estación, primavera ou outono,

o ar era dixeríbel, os peixes anoados polo amor

nas súas padiolas. Si, e as viaxes

tamén eran palpábeis: alguén falara de gardar as aparencias

e as paredes eran unha miga demasiado azuis a media mañá.

Houbo algunha vez un tempo tal? Gustaríame tocarte como a froita

mazarte a beixos por iso, mais sempre hai algo que me detén:

a conciencia de que isto non é historia,

Independentemente das veces

que a sigamos tomando polo presente, que os titulares

anuncian a toque de trompeta todos e cada un dos días.

Mais detrás deste antiestético colexio, agora unha tenda

de encurtidos, coñécese e non se ignora a verdadeira natureza das cousas:

o teu é un voto como calquera outro. E hai fraude nas urnas,

cheas de encaixes de San Valentín e vaticinios de básculas automáticas,

dispensados con nobre caridade, como se isto puidese importarnos,

estas melodías

traídas polo vento

desde un realexo a varias millas de distancia. Non, non é o momento

de nos revelares o teu engano. Agarda a que a chuvia e a idade

nos teñan amolecido un bocado máis.

Entón veremos como de extintas

se volveron algunhas castes, como se erguen os anos

perante as súas descricións, por moi errados que estean,

e durante canto tempo fican no lugar os exércitos disoltos. Debo darche os parabéns

polo traballo de detective, como experto que son

en tupidos bordados, malia que non teña un título que mostrar.

As árbores, as estériles árbores, teñen sido descritas en máis dunha ocasión.

Sempre son máis altas, parece, e o río pasa a rentes delas

sen se decatar. Nós tamén somos máis altos,

máis altos os nosos teitos, máis pintadas as nosas paredes

con elocuentes frescos, as nosas eiras máis arexadas e borrosas,

segundo o tempo pasa e tece os seus breves enganos de modo intermitente,

un fío secreto.

A paz é un punto final.

E aínda que tivemos algunha oportunidade de saír do cerco,

agora só o tempo aceptará ter algo a ver connosco,

sen sabermos con que fin.

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De livros e fantasias contáveis III/V

Trailer de GalizaTerra querida, que sempre chegas tarde
ou chegas antes ou despois da História
e andamos foscos no correr do tempo.
Hai que romper, romper agora!

Avilés (Última fuxida a Harar)

Os autores, quanto a maior parte das editoras galegas chegadas a um número de títulos ou de cifras, ou simplesmente com produtos, que se demonstraram vendíveis, normalmente para cativos ou de turismo, consideram a possibilidade de se achegarem (apenas uma provinha, disse o diabético, não faz mal) ao mercado castelhano.

A tentativa, quando resulta, traz sempre o mesmo resultado: mais ingressos (mas nem tantos que na literatura em castelhano também não há tanto profissional) quanto mais dependência e entrampamento dos autores, as editoras e do sistema inteiro no castelhano, do que se supõe nos defendemos. É-che como a heroína, presta no cérebro mas nos obriga a dependência e finalmente mata o corpo.

A vista das contas, o lógico seria, entanto haja ainda forças,considerarmos a solução final e se passarmo-nos suicidas para o castelhano, e como Valle ou Torrente tratar de o invadir com as nossas metáforas e ritmos inauditos ou fenecer na tentativa.

Outra possibilidade seria ousar de uma vez aventurar a via lusitana, que também é comercial, ainda que, seica, culturalmente difícil quanto politicamente incorreta.

De qualquer jeito, duvido que nenhuma destas duas vias se tome a sério. O pessoal tem decidido deixar apodrecer os cascos em porto, que é o seguro.

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Finalistas dos premios AELG 2007

AELGLITERATURA INFANTIL E XUVENIL (AELG-GALIX): A cova das vacas mortas, Jaureguizar; A sombra descalza, An Alfaya; Abracadabras, Marica Campo; Cartas de amor, Fran Alonso; Corredores de sombra, Agustín Fernández Paz; Lóbez, Antonio Yáñez Casal; Poetízate, Fran Alonso.

POESÍA: A esmeralda branca, Manuel Vilanova; As complexas mareas da noite, María do Carme Kruckenberg; Éxodo, Daniel Salgado; O pan da tarde, Xavier Rodríguez Baixeras; Os hemisferios, María do Cebreiro; Para unha luz ausente, Xavier Seoane.

TEATRO: Binomio de Newton/García, Cándido Pazó; Medidas preventivas, Gustavo Pernas.

ENSAIO: A terra cantada, Camilo Nogueira Román; Diálogos na néboa: Álvaro Cunqueiro e Ramón Piñeiro na xénese da literatura galega de posguerra, Manuel Forcadela; Memoria de poeta, Xosé María Álvarez Cáccamo; O suxeito postmoderno. Entre a estética e o consumo, Rebeca Baceiredo.

TRADUCIÓN: Brooklyn Follies, Eva María Almazán; Molloy, Anxo A. Rei Ballesteros; Soños nos cantís, Tareixa Roca.

NARRATIVA: dz ou o libro do esperma, Samuel Solleiro; Licor de abelá con xeo, Xurxo Sierra Veloso; O club da calceta, María Reimóndez; Os libros arden mal, Manuel Rivas.

MELLOR TRAXECTORIA XORNALÍSTICA (AELG-COLEXIO DE XORNALISTAS): Antón Lopo, Alfredo Conde, Bieito Iglesias, Gustavo Luca de Tena, Manuel Rivas, Rosa Aneiros, Xan Carballa, Xesús Fraga, Xosé Luís Méndez Ferrín.

  • Novidades de 2007: o Premio de literatura infantil e xuvenil (en colaboración con Gálix e cuxos socios/as tamén votarán nesta segunda rolda) e o Premio á mellor traxectoria xornalística do ano (en colaboración co Colexio de Xornalistas, cuxos colexiados/as votarán igualmente nesta segunda rolda).

  • Entrega de premios: a cerimonia de entrega terá lugar na Cea das letras, que será o sábado 5 de maio.

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De livros e fantasias contáveis II/V

Un bello libro no es obra de una sola persona, sino el fruto del esfuerzo de todos aquellos que trabajan en su elaboración. Son varios los artesanos que intervienen en la elaboración del libro y el esfuerzo es siempre de carácter colectivo. Cada libro tiene una historia, independiente del autor y del tema que trata. Una historia referida a su edición. Aquel libro que nació rico, que produjo seguramente un déficit en la contabilidad de la editorial, ahí está en una librería de última categoría, vendiéndose en lote con otros más modestos que corrieron igual suerte.

Luis Seoane, 1957

 

Característica mui significativa da literatura galega atual dos últimos 20 anos é que contando com uma aparência de normalidade nunca vista, havendo mais editoras, muitos mais livros, melhores leitores e mais preparados escritores, a qualidade da produção e dos textos não é proporcionalmente superior a tradição da que parte.

AlfarrabistasNo entanto o público, que não cresce nem se normaliza, está desbordado por uma oferta saturada e repetitiva, sem nenhum controlo e também sem uma crítica em que fiar. Motivos?

Vários. Eliminemos a ingente e absurda produção institucional que dorme em armazéns (universidades, concelhos, deputações, Xunta…). Quitemos Galáxia que vive da sua história e do conto de vender-nos os clássicos patrióticos. Tiremos Xerais, parte do grupo Anaya que pertence à multinacional francesa Havas (a das brasileiras Ática e Scipione), o Grupo Everest ou Alfaguara (Santillana), que nas suas estruturas comerciais mantêm as sucursais galegas (e com apoio absurdo do dinheiro público) pelo que tem de ponte para o mercado hispano. Que fica?

O resto das editoras sobrevivem, não luitam pelo mercado e não fazem investimentos em tradutores, corretores, campanhas. Não ganham muito, mas não se obrigam a competir –que é melhorar- às devanditas. Sobrevivem em boa parte com orçamento da Xunta. Logo, a mais títulos e mais autores, mais ingressos (para sobreviverem apenas) das editoras. Conclusão mercado estancado, e pouco profissional.

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Un ano a levantar minas

Fixo o día 12 de marzo un ano que naceu O levantador de minas. O seu nacemento era anunciado, a modo de reivindicación estética fundamental, co seguinte título:

A BELEZA RECLAMA O SEU LUGARtonga_nativa.jpg

O corpo deste post inicial simplemente era unha antiga fotografía dunha bela nativa de Tonga, reino que desde unha noticia de La Voz de Galicia de 1999 tiña deitado unha semente subtil no meu íntimo. A noticia era a seguinte:
«El rey de Tonga elige a un estadounidense como su bufón. Taufa’ahau Tupou IV, rey de Tonga, ha nombrado al californiano Jesse Dean Bogdonoff como bufón oficial, según el Tonga Chronicle, “por su visión sensata llena de alegría y de verdad impregnada de felicidad”».

Deste modo, entre a antiga beleza dunha illa recóndita, a sabedoría dun rei que entendía o traballo do bufón como elemento imprescindíbel do reino e o esforzo dun americano por entregar a súa vida á única verdade que a sostén, comecei a erguer este blogue, como querendo que tan elevados espíritos o apadriñasen.

Agora xa non estou só. Outros me acompañan desde dentro e desde fóra. Oxalá estas exóticas benzóns sempre nos guíen, e nos axuden a descubrir toda a marabilla que ao pé da nosa casa florece.

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