“A filha do contador de histórias”

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Um dos livros mais notáveis que li ultimamente intitula-se A filha do contador de histórias (The Storyteller´s daughter), de Saira Shah, jornalista británica de origem afegã, autora também dos documentais Beneath the veil, Unholy war e Death in Gaza em colaboração com o seu amigo James Miller (assassinado por soldados israelitas durante a elaboração deste último documental). O livro pode-se encontrar em Edições Asa na categoria de Documentos e narra a experiência de uma jovem criada e nascida na Grão-Bretanha mas originária de uma ancestral família afegã cuja linhagem se remonta mais de mil anos atrás. Saira Shah situa-nos na órbita inspiradora do seu pai, quem a seduze e embebe das mil e uma histórias que lhe falam de um Afganistão perdido mas povoado e habitado pela memória e a imaginação. Fala-nos da chegada da adolescência e da necessidade de viajar à India e conhecer parte da sua família, com o contraste inevitável oriente-ocidente, da sua incursão com vinte e um anos na guerra dos mujahidin disfarçada de homem e de certa tristeza do seu pai quando este lhe diz que não vaia ao Afganistão, pois se realmente soubesse e aprendesse das histórias não precissaria de ir lá. Conta-nos como chegou até o Hindu-Kush, ao Nuristão, onde viviam gentes alheias ao Afganistão em guerra, como se encontra com o poeta Majruh (do que já falei aqui) e como é afectada pelo seu assassinato, os seus conflitos com os diferentes bandos, o seu olhar sobre a condição feminina e masculina, a chegada dos talibães e o seu valor ao passar e introduzir-se num hospital com o burka … Em definitivo, uma história real escrita com talento, inteligência sensibilidade e humor que fai cair muitos mitos sobre a maneira de focar a vida e a condição humana, longe de dicotomias simplistas e ideológicas. Como a própria autora diz algures, lembrando Rumi (continuamente evocado no ínicio de cada capítulo junto a Saadi ou Hafez): “Mais alto, mais alto, eis aí o espírito humano” Deixo-vos, pois, com este convite que não seria má leitura para o verão, do que não há tradução espanhola (que eu saiba) e da que, porém, dispomos numa boa tradução portuguesa.

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

4 thoughts on ““A filha do contador de histórias”

  1. Pedro Casteleiro

    Muitas graças, Chíqui, por esta referência. Se o tempo mo permitir hei-de ler em breve este texto, polo interesse pessoal na obra da Saira Shah e polo contexto de que esta obra sai, perto de uma comprensão da criação e o criativo afastada por igual de cânones e discórdias, e próxima do hálito da sinceridade.

  2. Pedro Casteleiro

    Muitas graças, Chíqui, por esta referência. Se o tempo mo permitir hei-de ler em breve este texto, polo interesse pessoal na obra da Saira Shah e polo contexto de que esta obra sai, perto de uma comprensão da criação e o criativo afastada por igual de cânones e discórdias, e próxima do hálito da sinceridade.

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