Dous poemas de Abjecçom a preto e branco, de Luís Maçãs

I.
Outrora, aqueles livros em cujas páginas
os coraçons eram ânimas expandidas polo ar
no obscuro universo da derrota,
aqueles poemas cheios de bile e dor
eram a minha vida

Ou talvez eu
ser criado por um deus estranho
era a sua imagem e semelhança

E ao fundo, sempre presente, o sotaque da maré
com toda a força da loucura
e aqueles irmaos de sangue recreando-nos juntos
na auto-compaixom dos vencidos, numha terra aziaga
quando o terror e a miséria
som também deuses mesquinhos que estám em todos os lugares.

Apaguei da memória aqueles estridentes versos,
escritos com todos medos dos homens
e nesse preciso instante os olhos das nuvens
espreitavam para o jardim gótico
ante o esperado florir da rosa de sete pétalas

E depois dumha interminável espera, retornei à cidade
de vidraças opacas e árvores de chumbo,
como uma criança descalça, despossuída do seu diário

E agora, visto que a gadanha me dita a razom da existência,
percorro -sem medo nem esperança-
os passeios soturnos
na procura dumha luz oblonga,
em contínuo movimento,
até ser a ágil e inaprensível galopada
dum cavalo a preto e branco
rumo a o reino da luz

II.
E O TEMPO ESTENDE A SUA MAO POLA MINHA CABEÇA

Agora, neste instante de fascínio
à contra-luz da lua moura
entrego-me a ti,
dou-te a cinza da minha mao
e fago-te beber dum cálice esmeralda
o vinho da paixom cigana,
na procura do amor sublime

Eis o compasso da hora fóssil
na boca amarga do destino,
a maré que destrui a calma invernal
na praia das tristezas entressonhadas

Este é talvez o espaço que instaura
umha nova ordem sem o horror da morte,
assim, sendo a luz central das nossas vidas

E todas estas sensaçons ficam
muito perto da loucura
na casa alva onde a magia divina da aurora
perfila a face lumínica do amor,
límpida água vital

E mesmo os olhos de etíopes tornam-se floridos
nesta primavera do sentimento,
à distância dum campo de batalha
que já pertence ao passado,
ouvindo-se só muito longe a latente música
do fim do fim dos dias

E talvez seja o tempo
o elemento menos cruel
da alquímia do verbo.

Estes textos pertencem ao poemário Abjecçom a preto e branco, que venceu em 2001 o prémio Terra de Melide.

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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