‘A parte pelo todo’, de João Luís Barreto Guimarães

IMAGENS NÃO EDITADAS

Un ligne donnée

Paul Valéry

Percebo que o verão terminou quando
o homem dos gelados me saúda desta vez
com as mãos enfarruscadas.

Está

un mar de devolver corpos. Revoadas
de gaivotas como girassóis de areia
esperam que o acaso sirva sushi
na rebentação.

Tanta coisa resiste que

funciona a vento (o orgulho das bandeiras
a viagem das sementes)
é possível que tenhamos chegado até aqui
apenas para poder ser parte da circunstância
(não digo a forma dos ramos:
o vazio entre eles).

Ficámos velhos

tão cedo chegamos tão
perto do medo
procuro alguém frente ao espelho (sei
que alguém está
sempre lá).

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.