Laboratório poético ao vivo

Hoje quero trazer para aqui
a totalidade do silêncio
na fotografia de um poeta de olhos fechados
e aberto coração:
sombra alongada, cristais de um azul
perpétuo, música de alfândega
que não aplaudirás até ao prenúncio da morte
para um teu novo nascimento.
Enfim sombra, miopia,
desejo (as malas do poeta).
O sangue do comboio é derramado
no deserto, no caminho infindo
que, com certeza, depara em própria casa.
E em nome próprio o poeta
capitula e recapitula em carne própria,
ele próprio, em própria casa
os bens alheios que há que apanhar
para pôr nome ao inomeável.
Porque, o que há-de fazer com o peixe de Deus a saltitar
na frigideira que há muito tempo lhe ofertaram?

Café Maeloc 07/10/1998, Laboratório poético ao vivo. Grupo Hedral.

 

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.