O desafio cultural do presente

1916-1950. Xeración Nós: o raio transparente

1916-1950. Xeración Nós: o raio transparente

A Geração Nós assumiu como própria a tarefa de demonstrar que a cultura galega existia no conjunto do património mundial, e para isso foi entre os próprios galegos que houvo de fazer seu principal lavor de divulgação, pois ao povo não só lhe fora ocultado o seu tesouro nacional senão que permanecia empecido para perceber sua maravilhosa singularidade a causa da ação colonizadora que Espanha desenvolve na sua construção nacional.

Mercê a este esforço nos âmbitos académico, editorial, historiográfico, artístico, arqueológico, industrial, etc, encetado mormente pola Geração Nós, é que foi possível na Transição Espanhola a criação de diversas instituições culturais e políticas que agem com certa normalidade desde hai dúzias de anos, e que dotam a nossa realidade sociocultural de um quadro referencial imprescindível: associações culturais e profissionais, ensino em galego, instituições culturais específicas, rádio e televisão em galego, etc.

Mas a situação hoje está a mudar. As políticas culturais oficiais tentam abertamente assolagar a renascença cultural da Transição democrática mediante a estratégia de eludir os apoios ao mundo cultural sob o pretexto da falência de orçamentos gerais básicos. Neste contexto, com um povo ainda pouco consciente da necessidade de alimentar um quadro referencial próprio e com uma capacidade adquisitiva constantemente à míngua, os produtos culturais galegos têm no mercado interno uma demanda decrescente.

É por isto que a projeção internacional (Espanha, América, Europa, África…) se torna no presente uma estratégia que pode fazer a cultura galega sobreviver. Temos hoje, portanto, uma tarefa em vistas não menos árdua e ambiciosa do que aquela que encetou na altura a Geração Nós: divulgar e situar no contexto internacional os produtos culturais galegos, uma vez que aqueles apoios institucionais e não mercantilistas deixarom de existir.

Esta situação, chamada de «crise» mas que na realidade é uma reação ultra-capitalista que afeta agora também a Europa, obriga-nos a juntar forças no projeto comum galeguista deitando para o lado os preconceitos e os dissensos de pormenor. A tarefa é difícil, mas tenho para mim que hai no país corações sensíveis, mentes conscientes e rijas vontades que saberão ultrapassar os personalismos em benefício do comum.

{Praza Pública, 22/07/2014}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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