Nanã, para Begoña Caamaño

Hoje quero relatar um percurso emocional e intelectual que começou há aproximadamente uma semana. Tudo começou com a lembrança de uma canção que, lá no mês de Julho me tinha impressionado: Nanã, interpretada por Elza Soares. A canção, que a seguir reproduzo, causou em mim uma grande turvação,

tanto pela voz da cantora, que vindes de ouvir, quanto pela letra, que diz assim:

NANÃ
Esta noite quando eu vi Nanã
vi a minha deusa ao luar.
Toda a noite eu olhei Nanã
a coisa mais linda de se olhar.
Que felicidade achar enfim
essa deusa vinda só pra mim,Nanã.
E agora eu só sei dizer
toda a minha vida é Nanã.
É Nanã…

A canção faz referência à Nanã Buruku, que no Brasil resulta ser um «orixá das chuvas, dos mangues, do pântano, da lama, senhora da morte, e responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne)». Mas estas referências à noite presidida por uma lua acesa e a plenitude íntima que aqui se descreve traz à minha memória algumas teorias sobre a antiquíssima origem das Virgens negras do Românico europeu, que as relacionam com cultos pré-cristãos vinculados a uma fascinante retícula de relações conceptuais em que dançam juntos os atributos da Mãe Tríplice dos celtas, a Isis dos egípcios, a Ishtar dos acádios, a Inanna dos sumérios, a Venus dos Romanos e a Sta. Brígida dos irlandeses, se não mais.

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Meninas que inspiram

«[..] Uma menina volta da praia, sob o crepúsculo, com a mãe. Chora por nada, porque queria ter continuado a brincar […]». Este trecho de Patrick Modiano, sem dúvida justificado no relato de que faz parte (Rue des Boutiques Obscures, Paris: Gallimard, 1986, p. 2491, via Confraria do vento), traz para a mesa que as crianças costumam chorar por nada cada vez que são privadas de brincar contra a sua vontade. E eu, por mais que penso, duvido se a salvaguarda dessa felicidade, se o desejo de continuar a ficar na excitação do jogo em que tempo e espaço se fundem e mesmo o latejar do nosso coração se sente uno com o dos outros, com tudo o que respira e até mesmo com a terra, o céu e o mar, é um rasgo de infantilismo que devemos quanto antes erradicar da nossa vida. Porque são momentos de comunhão com o mundo em sua múltipla variedade, momentos em que tudo funciona e mente e corpo vivem em total harmonia, por isso deveriam ser respeitados como transparentes fontes de sabedoria. A partir desta imagem inicial, é fácil lembrar todos aqueles de tempos pretéritos que desfrutavam imenso com a presença de crianças, como que ressaltando que o jeito destas enfrentarem o mundo, quer dizer com a máxima cordialidade no aqui e no agora, é um caso de conhecimento infuso ainda não apagado pela educação e a maturidade.

No mesmo sentido, quero agora descrever o caso de uma sobrinha nossa que se chama P. Sobre ela, a família habitualmente diz: “P mora no seu mundo”. E isto é porque responde agilmente e com sinceridade aquilo que nitidamente deseja, julga justo ou relaciona com a sua realidade imediata. Deste modo os adultos implicitamente reconhecemos não aceitarmos um modo de entender e relacionar-se com a realidade que não situa em primeiro termo as limitações comuns, as normas, as punições e as frustrações que habitualmente assumimos para um modo de proceder aceitável. […] Ler mais

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“Vibrações iluminadas”, por Ramiro Torres

 

I
Abraçar o desenho
orgânico do universo
em coito demorado
até esvaecer entre
fendas impensáveis:
o trabalho do poema é
obscurecer as mãos
da realidade até achar
o fulgor emergido do
invisível entre a luz
convulsa dos amantes.

II
Inauguram-se cosmogonias
nesta lâmina iridescente
aventurada na noite:
preparamos incêndios
entre os nossos olhos
e o existente, confiamos
no sonho que nos devora
e dançamos sob a terra
transparente que agacha
pupilas desnudas, como
ruas de um universo em
feroz expansão sobre nós.

III
Somos terra hipnótica,
arcano nascendo como
desenho aberto no meio
do poema em ignição:
trabalhamos no íris do
coração como videntes
à procura do sol líquido,
onde o vulcão vibra no
ser como vertigem a
fremir corpos adentro.

 

Confraria do Vento

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A queda da língua acarreta a queda do sistema literário

Delegação da AELG. Fonte: Sermos Galiza

«[…] “Os bos froitos da situación actual da literatura no nivel creativo ´-á altura de calquera literatura Europea- son resultado de vinte ou trinta anos dun proceso que se foi conseguindo mais que agora se está a derrubar. A consecuencia do retroceso da lingua galega no ensino conlevará unha perda de lectores que afectará tamén na produción literaria e editorial”, sinala o presidente da AELG [Cesáreo Sánchez Iglesias]. Comparte tamén a aclaración da avogada e escritora Ledicia Costas que defendeu que o concepto de profesional non está, no noso caso, vinculado a vivir da escrita, o que practicamente non é posíbel, senón á propia consideración e dedicación profesional á literatura.

“En vinte anos haberá menos escritores, menos lectores e, polo tanto, menos posibilidades de profesionalización. Esta situación nosa contrasta cos avances en Euskadi e Catalunya”, destaca Cesáreo Sánchez Iglesias […]».

Infelizmente, de seguirmos assim em dez anos quase não restarão livrarias nem editoras em galego e a escassíssima presença da literatura galega (se comparada com a sua qualidade) não terá motivos para denunciar sua rara visibilidade nos média.

{Ler mais em “A profesionalización afástase na literatura galega” – Sermos Galiza}

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PGL entrevista Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro recolhe, entre outros epítetos, o de poeta. Tem participado em vários projetos coletivos, caso de Amigos de Azertyuiop e o 7 poetas. Como respira a poesia na era digital?

Respira muito bem, embora a gente não perceba os ritmos do poético que transcendem uma visão convencional da vida. A perspectiva tradicional dos meios poéticos, como o livro de poemas em papel, é que sofre, mas à par de outros géneros literários. O romance também é cada vez menos lido, e ninguém parece reparar nisso.

Diriges, com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Como respiram os blogues na era das redes sociais?

Devo aproveitar a ocasião para informar de que a Asociación Cultural Blogaliza, presidida por Pedro Silva, alma mater da comunidade de blogues desde o seu nascimento, é que ficou responsável polo serviço desde há alguns meses. A Táti e mais eu albergamos o Blogaliza no nosso projeto empresarial durante vários anos, mas felizmente hoje tem um futuro certo nas mãos de quem melhor a conhece e o pode manter. Quanto à vitalidade dos blogues, é evidente que na comunicação do imediato perderam espaço se comparados com o Facebook ou o Twitter; mas como espaço pessoal de publicação e arquivo continuam a ser um recurso imprescindível.

Revista Palavra comum

Um dos teus últimos projetos é a revista on-line Palavra Comum. Na apresentação afirmas que a Galiza é terra de talentos e a revista um lugar de encontro. Que é preciso para a cultura galega ser um lugar de encontro para além de ortografias e estratégias culturais?

É isto um tema controverso sobre o que tenho uma opinião bicéfala que algumas pessoas, de uma beira e da avessa, nem logram compreender. Na experiência consciente da nossa língua acho duas verdades rijas demais para serem conciliadas numa fórmula única: 1) a ortografia histórica ou reintregrada (qualquer uma) é uma estrangeirice surpreendente para muita gente, o que provoca o reintegracionismo ativo medrar numa sorte de gueto; 2) a ortografia institucional atual (chamada de “oficial”), por sua parte, é uma espanholeirada devastadora que perpetua uma alienação cultural de séculos. […] Ler mais

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Orgulho de neofalante

orgulhoneofalanteSou novo falante de galego desde que decidi assumir como própria a língua que a minha mãe, que deseja sempre o melhor para mim, escolheu não me transmitir. Rejeitava ela a fala que tinha aprendido com a família, e que se vinha falando desde que a gente tem memória. Porém, não foi em rigor uma decisão apoiada na carência, mas todo o contrário, alicerçada na estrita provisão de recursos, algo profundamente humano e por isso nada estranho ao amor maternal.

Mas ela já tinha apreendido e mesmo experimentado que o futuro era possível só se a gente falava uma autêntica língua, e que aqueles falares que percebem as favas e as vacas não são ótimos para arranjar um trabalho como os que na modernidade a gente precisa. Por isso, ao tempo que me alimentava com o melhor que brotava do seu peito, também me negava, sem sabê-lo, um alimento que eu tive de apanhar entre o que a ela lhe sobrava, e que na aldeia ainda nascia com a naturalidade do que sempre brotou ali.

Amo a minha mãe, mas detesto a infinita ignorância que a Espanha (todos os seus agentes desgaleguizadores, aquém e além) têm sementado na Galiza, e que faz com que a gente, a partir do exemplo do idioma, não tenha apreço pelas autênticas tradições.

Nunca pensei que tinha adotado o galego face ao meu castelhano inicial por uma atitude antissistema. Acho melhor que foi uma coerência, provavelmente inoculada por via artístico-intelectual, que me levou a sentir como próprio aquilo que rebordava sem trégua sob o leve manto de espanholidade que respiraba à minha volta. É sem dúvida uma questão de sensibilidade, e não só para ser alvo de aquilo que nos marca senão mesmo para ser penetrado por uma realidade que de algum modo se pressente, e que, de um modo íntimo e prévio a todo raciocínio, precisamos absorver.

[Praza Pública, 1/10/2014]

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