Orgulho de neofalante

orgulhoneofalanteSou novo falante de galego desde que decidi assumir como própria a língua que a minha mãe, que deseja sempre o melhor para mim, escolheu não me transmitir. Rejeitava ela a fala que tinha aprendido com a família, e que se vinha falando desde que a gente tem memória. Porém, não foi em rigor uma decisão apoiada na carência, mas todo o contrário, alicerçada na estrita provisão de recursos, algo profundamente humano e por isso nada estranho ao amor maternal.

Mas ela já tinha apreendido e mesmo experimentado que o futuro era possível só se a gente falava uma autêntica língua, e que aqueles falares que percebem as favas e as vacas não são ótimos para arranjar um trabalho como os que na modernidade a gente precisa. Por isso, ao tempo que me alimentava com o melhor que brotava do seu peito, também me negava, sem sabê-lo, um alimento que eu tive de apanhar entre o que a ela lhe sobrava, e que na aldeia ainda nascia com a naturalidade do que sempre brotou ali.

Amo a minha mãe, mas detesto a infinita ignorância que a Espanha (todos os seus agentes desgaleguizadores, aquém e além) têm sementado na Galiza, e que faz com que a gente, a partir do exemplo do idioma, não tenha apreço pelas autênticas tradições.

Nunca pensei que tinha adotado o galego face ao meu castelhano inicial por uma atitude antissistema. Acho melhor que foi uma coerência, provavelmente inoculada por via artístico-intelectual, que me levou a sentir como próprio aquilo que rebordava sem trégua sob o leve manto de espanholidade que respiraba à minha volta. É sem dúvida uma questão de sensibilidade, e não só para ser alvo de aquilo que nos marca senão mesmo para ser penetrado por uma realidade que de algum modo se pressente, e que, de um modo íntimo e prévio a todo raciocínio, precisamos absorver.

[Praza Pública, 1/10/2014]

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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