Literatura galega até quando?

marcos calveiroMarcos Calveiro, galardoado aqui tanto como na Terra de Fora, confessa no blogue Biosbardia não precisar escrever. Não pode, afirma também, dedicar-se integralmente à literatura. Depois de tanto esforço —muito, acreditem— agora, em fim, não pode; ele que, como algumas outras, pode bem representar o possível relevo dos atuais Prémios Nacionais (espanhóis) de Literatura. Isto é com certeza apavorante, e porém menos abafante que o silêncio que se ouve, sistémico e estridente, à volta de tão trágica decisão para as nossas letras.

E isto por que? Se calhar porque há demasiados filgueiras-valverdes e demasiados museus-de-pontevedra onde a cultura galega poderá desfrutar de um espaço “digno”, um local em que se “pôr em valor”, em seu justo valor, aquilo que um dia foi presente. Eu sei: há gente que não quer fazer parte de uma —por fim será reconhecida como tal— reserva indígena, sem hipóteses para normalizar aquilo que está a ser ocultado desde há séculos, algo telúrico e à vez metafísico que no entanto só morrerá se continuarmos a assumir a frustração, a impotência e a culpa de termos sido reis e rainhas da nossa própria vida cultural. Assim como há gente que se conforma com as sobras que deita no lixo a espanholice mesetária, mental ou geográfica.

Parabéns e um grande abraço, Marcos. Às vezes só no fundo se acha terra firme sobre a que erguer algo de valor.

{Praza Pública}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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