A inspiração da garça

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(Clicar na foto para ver em movimento)

Há muito tempo que pratico Kung Fu. Não sou, no entanto, um experto, e acho que já nunca serei. Conformo-me com ser, talvez, um utilizador avançado.

A utilidade que tem para mim é meramente terapêutica, ou ao menos tonificante. Gosto de acudir duas vezes por semana ao ginásio e dia após dia aprender uma coreografia que parte de um conhecimento tradicional e profundo do corpo, dos seus pesos e medidas, da sua motilidade, das suas hipóteses de reação, da sensibilidade da pele e da dureza dos ossos; mas também das potencialidades psíquicas que nos permitem agir quando o medo faz ferver a adrenalina e uma contestação imediata se torna necessária. Não é uma prática para resolver um confronto, mas o ensaio de técnicas para o poder evitar ou minimizar.

Ora bem, a realidade violenta que um dia pode pôr-nos a prova não é predizível. Ninguém pode ensaiar num ambiente de camaradagem e cordialidade o que se pode sofrer numa situação de violência real, em que a química e a física corporais e em geral as circunstâncias podem operar de modo imprevisível. Não se  pretende através desta prática experimentar um medo falso nem solucionar teatralmente uma situação de perigo. Trata-se de desfrutarmos a ficção do sucesso, de praticarmos soluções hipotéticas e de treinar o cérebro e o corpo para o controlo. Isso é que é bem positivo: gravar no íntimo que qualquer problema que seja tem a sua solução, e que tão só com os recursos  com que vinhemos ao mundo somos quem de sair vitoriosos.

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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