4 voltas

4voltasA experiência da leitura remete para a reflexão sobre a essência do humano através da procura dos mais ocultos arcanos, aqueles que estabelecem fórmulas de convívio entre o vegetal, o animal e o racional. Assim o papel grosso, rugoso, a madeira e a pedra nos assaltam como de época pré-histórica, pré-intelectual, pré-científica, pré-racional, profundamente primitiva, focando a vida numa etapa pré-consciente. Mas existe qualquer experiência mental prévia à consciência? Não é isso que quotidianamente se revela como intuição, como sendo um conhecimento «de série» anterior a toda a aprendizagem ou uma associação de ideias prévia a qualquer estudo de campo?

Efectivamente, estamos no âmbito do acto ritual, em que o caos do mundo se torna fórmula apreensível, e os fenómenos naturais, de partida caóticos e insondáveis, fenómenos significativos que é possível decodificar: “entrar no mundo danzando” porque “danzar é acordar”. “Dans le cercle où je deviens”, diz o eu poético, porque o nosso caminho é nos converter num “chercheur d’or”.

Mas o mundo material é trapaceiro, sempre o disse a Tradição que o Platão elevou a filosofia. Porém, a grande trapaça a descobrir não reside nos objetos, mas no sujeito: “ici le brume s’épand au fond de l’oeil”. Porque o órgão de visão limita a percepção e desta depende, de partida, a interpretação. Por isso o trabalho primeiro consiste na apuração íntima e inexcusável de encontrar a essência do eu: “O val atópame espido”.

Manchas de cor, letras como vestígios de criação poética primigénia, palavras como restos de placenta poética fossilizados, grafemas em relevo como «grafoglifos» que o acaso nos trai e que nos provocam a «reminiscência», a lembrança do ser essencial que transmutado em poeta desde o início dos tempos conecta o passado e o presente, o que somos e o que nunca deixamos de ser. Lemos esta obra como se das «Tábuas da lei poética» se tratasse, um documento ancestral escrito sob a influência do “sorriso da Moura”, para depois, quando alçarmos a vista, descobrirmos “l’univers serein”.

4 Voltas, de François Davo, Tono Galán e Rubén Fenice. «Livro de artista», Taller Milpedras, 2014.

{Palavra comum}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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