Mundo maquinábel, de Táti Mancebo

Mundo maquinábel, de Táti ManceboMundo maquinábel oferece petiscos da vida comum à luz de uma perspectiva mágica e misteriosa, de modo a revelar-nos nos pequenos fatos da existência o sentido oculto da vida, a autêntica, substanciosa e profunda que corre sob a superfície do quotidiano.

O mundo torna-se «maquinábel» porque aquelas energias tão simples ou vulgares podem ser entendidas como manifestação de uma poderosa máquina que, por ação e inação de alavancas e processos ocultos, produz as realidades que percebemos como nosso destino. Assim, tudo o que existe se comporta como o que é devido ao misterioso funcionamento da grande máquina universal que dá lugar ao mundo. É uma perspetiva de partida mais mecanicista do que espiritual, e porém esotérica à vez que materialista.

Tati ManceboEntre as experiências fundamentais da vida figuram percepções básicas como o «frio» (“O frio é o que primeiro se esquece”; “E aínda me pergunto quanto frío son capaz de atesourar”), o «percurso vital» (“Atravesamos unha ponte que desaparece ao noso paso”), a «incerteza perene» (“Cheiráballe tanto a súa confusión”; “Unha dúbida marca o movemento”) e a “experiência do outro” (“Ti devólvesme o eu multiplicado”).

Mas neste poemario de Táti Mancebo floresce, no quadro destas energias irrefreáveis, uma rebeldia patente, um afã contestatário que visa valorizar os sucessos atingidos e promover um controlo, ao menos parcial, do funcionamento da grande máquina: “[…] creamos a noite. / Faceis ben a nos temer”. Surge deste modo a presença do inimigo e a vontade de luitar contra a injustiça, de procurar um lugar para evoluir (“[…] ansias de atopar un lugar entre as serpentes”); e a par do inimigo o colaborador na procura da transcendência: “Promete que me venderás a túa alma a prezo de amigo”.

En definitivo, este poemário fala da dimensão transcendental de aqueles fatos breves constantemente repetidos, da importância da intenção mais do que a da ação. E de como as percepções, por erro, tantas vezes nos ocultam a verdadeira maquinaria do mundo em que vivemos. É um apelo sincero para uma nossa maior atenção aos pormenores, até porque as realidades mínimas da vida têm com frequência um significado colosal.

À venda na Loja de Sermos Galiza (epub).

[Sermos Galiza]

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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