I Simpósio da «Asociación Galega da Crítica»

Simposio Asociacion Galega da Critica

Armando Requeixo, Carlos Quiroga, Moncho Lemos e Isabel Mociño

A Asociación Galega da Crítica celebrou nos dias 27 e 28 de novembro o seu primeiro Simposio. No primeiro dia, em que me coubo a honra de apresentar a nossa Palavra Comum, constatou-se o valor que o trabalho crítico em suas muitas variedades tem (crítica académica, jornalismo cultural, resenhas em magazines e suplementos, prefácios, apresentações públicas, etc.) para a divulgação da literatura em geral e da infantojuvenil em particular, para o teatro, o cinema e a arte, assim como os inúmeros obstáculos que hoje sofre na hora de tentar sair à palestra.

Houvo também oportunidade de refletir sobre certas incompatibilidades que não são de recibo para dignamente defender o setor: os casos de profissionais da crítica com vínculos evidentes a determinadas chancelas editoriais e outros casos em que relações económicas diretas ou indiretas dos críticos com a indústria convertem em incerta a objetividade na valorização de certos títulos. Chegados a este ponto, teorizou-se sobre esta “objetividade” e conclui-se que na realidade constitui um procedimento argumentativo lógico ou aceitável para apresentar uma inescusável subjetividade.

Lamentou-se, do princípio ao fim, a falta de respeito e valorização do trabalho crítico nuns meios tradicionais que, se nunca fórom amáveis com a profissão, agora oferecem menos espaço e tempo que nunca para a cultura e a crítica, sendo esta última reclamada unicamente quando um produto cultural passa a ser publicitado, fato que acontece desde que os jornais estão mais ocupados como o anunciante do que com o leitor.

A Asociación Galega da Crítica fundou-se em fevereiro deste ano depois de ter aprimorado seus objetivos e procedimentos no seio da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, que a tinha albergado de partida. É preciso, portanto, saudar a iniciativa e desejar-lhe uma consolidação que contribua para o melhor desenvolvimento do seu lavor.

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O grito submergido de Mário Herrero Valeiro

Da vida conclusa, livro de Mario Herrero ValeiroA nossa vida é superficial, e este fato revela-se no nosso corpo e na nossa pele a mostrarem as máculas próprias de seres esquecidos por deus. Um deus a pedido, criado desde e para o materialismo, mais uma “instituição” para sustentar as misérias individuais e sociais, um deus que não é caminho para a libertação mas fundamento do cativeiro.
No plano individual, a doença e a tortura são duas caras da mesma moeda, paixão do ser e ação do mundo material ou do injusto poder que nos governa. No social, a pátria, a família e em geral as instituições e outros modelos impostos polo Estado foram criados para manter a frustração permanente do cidadão. O “pai”, também desde que figura instituída, é um referente de frustração íntima que deve ser transmitida para o cidadão permanecer vinculado às rédeas do sistema; como função emotiva e pessoal, é referente castrado e agente castrador que transmite a derrota com uma sua atitude de vencido permanente, aquele que na realidade forneceu uma semente em que só a miséria podia florescer. Produz-se então a vinculação a um lastro emotivo que o sistema pretende fazer perene, e que o poeta, em sua necessidade visionária de construir um mundo possível e assim prover a hipótese certa da utopia, deseja reconduzir (“ser um digno filho”, “compreender por fim / o sentido do poema”). “Pátria” e “pai”, não por acaso da mesma raiz, são versões da mesma farsa. […] Ler mais

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Na esteira de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro

Sefer Sefarad, livro de Pedro CasteleiroNa apresentação de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro, os poetas Alfredo Ferreiro, Táti Mancebo e Ramiro Torres leram textos próprios inspirados num poema do livro apresentado. O ponto de partida foram o verso “Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes”, pertencente ao poema «A casa vazia». Ei os poemas recitados pelos amigos do autor:

Traição a Pedro Casteleiro

Nossa casa cheia de vozes
enterradas nas paredes.
Nossa casa de torrões,
de minhocas e verdades
perseguidas por toupeiras
cegadas pola razão
de seus dentes e suas garras.

Nossa casa lua cheia
de sonhos e serpentes.
Nossa casa oráculo mudo
de vozes que se prostram
e se erguem
sobre a terra que não dorme
que nos vela e não se rende.

Nossa casa cheia de nozes
penduradas das paredes.
Nossa casa de chocalhos,
amores que nunca morrem,
música que não perece.

Alfredo Ferreiro. Arteijo, 7 novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes,
plena de um vazio sem pausa
quebrando os espelhos desde dentro,
na distância infinita de toda razão
que não se expanda como a luz
no interior dos músculos abertos:
eis-nos, entranhados e estrangeiros,
cavando no invisível com as mãos
em carne viva, avançando no eterno
habitado como pura palpitação do real.

Ramiro Torres. A Corunha, 5 de novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes
Som de rocha, som de telha
Som tamém no fundo de uma botelha
Som de auga: pinga, pinga
Som de palha: malha, malha
Som de fume: lume, lume!
Som de branco, som de azul
O silêncio num baú
As serpes do dessasossego som
Requeixo abaixo ao lodeiro vou
Som de sonho, som de sono
Som de aqui, que aqui não tenho trono
que soe o som
Toc-toc
Som eu
Quem som
Eu som
O som.
Táti Mancebo. Arteijo, 7 de novembro de 2015.
*
Nota: O evento decorreu na “Librería AZETA”, da Corunha, a 8 de novembro de 2015. Participaram, para além destes poetas e de Pedro Casteleiro, Estefania Blanco e Tito Calviño, voz e guitarra respetivamente.
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A Outra vida de Mário Herrero Valeiro

Outra vida, livro de Mário Herrero ValeiroAlém da dor vital nasce o poema. O poeta não sabe donde caem as pedras e só o amor o salva da aniquilação. Uma incerteza absoluta provém do mundo chamado de real, uma sorte de promessas ou abstrações humanas que na realidade alimentam a ignorância e o caos. O poeta percebe a desarmonia constante que ressalta a debilidade humana, porém o amor propicia uma vinculação perene com o mundo e constitui o único fato que na verdade perdura. A única realidade que não pertence ao atrezzo.

O ser humano é simples e por isso padece. A sua animalidade essencial lembra a simplicidade de um réptil (“sei que arrastarei o meu ventre até ao final”) e contém não tanto uma sabedoria quanto uma tristeza permanente (“a criança triste que ainda sou”) perante um obscuro destino (“conheço bem o nosso destino”) que consiste em nada acontecer, em delongadamente viver (“os dedos começam a arder e nada ocorre”) numa opacidade inevitável. Todas estas forças deparam numa contradição vital irresoluta (“por fim assumo a mentira de que não te amo”), fato que implica a falsidade ou impossibilidade da negação do amor, até porque o amor é o único que de positivo temos direito a desfrutar. Se bem os temas assim tratados oferecem um tom confessional, ninguém deve esperar em rigor uma confissão sobre qualquer aspeto da vida: o poeta transcreve a complexidade vital como a indivisa experiência de uma miríade de sensações que atingem o íntimo em cada disparo. […] Ler mais

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