feria del libro de buenos aires 2016 2

Sobre a Feira do Livro de Buenos Aires

Feira do Libro de Buenos Aires 2016 autoresLá vão as nossas escritoras e escritores para a Feira e quase ninguém sabe o que pretendemos vender. E isto não é pola sua falta de criatividade, do seu imenso voluntarismo ou de um inviolável compromisso com a língua do país. É devido ao incerto interesse dos nossos responsáveis políticos por aproveitar isso que se está a converter numa vácua litania: a FILBA (21 de abril a 9 de maio) é uma ocasião única para visibilizar a nossa cultura!

Ninguém deve duvidar de que a nossa literatura, neste mercado global que agora tudo governa, tem de internacionalizar-se, e começar por Madrid ou Buenos Aires poderá de ser uma opção incontestável. Também sabemos que a organização da Feira está a dedicar os seus melhores profissionais (alguns deles de ascendência galega) na divulgação dos nossos produtos. Mas se a vontade do nosso governo fosse real, esse de trabalharem sinceramente pola divulgação do produto cultural, certas cousas não se teriam ouvido como nós tivemos ocasião de ouvir. Ora, nós não desejamos divulgar rumores nem arriscar-nos a ser injustos argumentando sem fundamento, e cingir-nos-emos àquilo que os responsáveis implicados, tanto políticos quanto diversamente institucionais, deveriam ter feito explícito:

1) Em que sentido é necessária a internacionalização da literatura e em geral a cultura no contexto do mercado atual?

2) Como repercutirá essa hipotética internacionalização na imagem do país? É possível e mesmo necessário trabalharmos por uma hipotética «marca Galiza» ou nos conformaremos sempre com ser um irrelevante e incompreendido sector do mercado espanhol?

3) Por que esse número de pessoas foi convidada com o dinheiro de tod@s e qual foi o critério para as escolher?

4) Por que esse número de livros foi enviado à Argentina e quais são os ganhos que se pretendem tirar? São suficientes 15 ou 40 exemplares de alguns títulos por editorial para surpreender a maré de leitores da feira com mais vendas da América Latina?

5) Que vendas de direitos —de compras não falamos— se estimam fazer?

6) Como se preparou o terreno e quanto se investiu em divulgar os produtos culturais nos meios argentinos?

7) Já que poucos livros se poderão mandar à feira, quanto se investiu em abrir canais para a venda de livros eletrónicos, um mercado que não deixa de medrar à par da queda permanente dos livros em papel?

8) Quando será apresentada uma valorização realista do esforço realizado? Serão as próprias autoras e autores a quem injustamente reclamaremos o trabalho de intendência e estratégia que os responsáveis da política cultural deviam aprimorar?

Lembro como na época do governo bipartido as vozes da oposição acusaram as nossas criadoras de tomarem uns simples mojitos, enquanto sobre o mesmo céu cubano anos antes enviados de governos anteriores tiravam do bolso da camisa um grosso feixe de bilhetes ao tempo que lhe diziam ao encarregado do Tropicana: “Y que luego esas señoritas se vengan a sentar con nosotros, haga el favor”. Não amigos, não vi nestes dias previsão, nem estratégia, nem quaisquer objetivos claros para lograrmos que os dinheiros investidos podam repercutir positivamente no país, tanto na sua cultura quanto na sua indústria cultural. E isto só indica mais do mesmo: enquanto não se desterrar a opacidade dos investimentos públicos, enquanto não se declarar quanto e para que se vai gastar, enquanto não se operar com um critério técni co e económico clarificado qualquer projeto que nascer dos nossos governos semelhará um chiringuito e, em consequência, os convidados a participar uns enchufados.

E se digo isto é porque acredito, como tantas vezes tenho defendido, no talento dos meus colegas. Por isso me parece tão injusto que a evidente incompetência de muita classe política turve a indiscutível dignidade da nossa cultura, tanto a mais antiga e tradicional conservada polo povo quanto a que com imenso esforço @s noss@s artistas continuam a parir cada dia. Logo os inimigos da cultura dirão que fôrom dinheiros deitados no lixo, e este lixo nos sujará a tod@s.

{Sermos Galiza}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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