Praia de Arteixo por Alfredo Ferreiro PraiaArteixo 2011

Agustín Fernández Paz, esse matriota

Fico farto de tanto patriota. De tanto agente intelectual que trabalha a pátria desde a concorrência, o estabelecimento de capelinhas, de privilégios, do pedigree sustentado em influências, na perpetuação no poder e na conivência com os chiringuitos. É uma atitude patriarcal que tolera o autoritarismo e faz sucumbir os sentimentos de irmandade, companheirismo e solidariedade (cfr. Cartas a Emilia Pardo Bazán, de Teresa Barro). É de fato o que o sistema antidemocrático espanhol precisa para subsistir sob o ténue manto da democracia.

Na cultura galega há demasiad@s patriotas para um país tão pequeno, demasiad@s para uma cultura tão minguada. São pessoas que sugam sem cessar o poder dos feudos institucionais, depósitos de poder simbólico o poder real não está nestas poças em que peixinhos saltam extenuados ou prados em que só as “vacas sagradas” são capazes de pascer durante anos sem conta (cfr. Tertúlia revisitada, de Xavier Alcalá).

Ora, a cultura que el@s promovem é uma puta mal paga que não consegue descansar. São, deste jeito, os artífices dessa prostituição que se perpetua em guerrinhas grupusculares, em censuras gráficas e noutras situações em que diversos modos de galeguismo se tornam invisíveis ou empecidos para medrar. E assim a Terra não floresce mais, uma vez que as novas sementes não têm hipóteses de germolar.

Mas, face a estas atitudes, sempre achei melhor os que veneram a Mátria, esse espaço que acolhe todos os galeguismos sem os discriminar, em que a intolerância, a impaciência, o maniqueísmo e o egoísmo não podem bem prosperar. Entre esses matriotas, sem dúbida, destacou Agustín.

Quem o conheceu sabe que nele ressaltava o compromisso com a verdade e a justiça, e que sempre se implicou em projetos desde a humildade e o esforço pessoal e não desde os pálios da cultura nem desde os ouropéis institucionais.

Lembro bem como sintetizava o Agustín seus méritos (imensos, dizia eu) nas entrevistas que tive a honra de lhe fazer: depois de tentar ser operário decidiu ser mestre, perante a falta de conteúdos literários houvo de fazer-se criador, a partir do sucesso na escrita chegou a ser escritor… e assim o rosário de prémios recebidos e as muitas línguas em que suas obras fôrom traduzidas só tinham sido consequência de andar o caminho por que seu coração o guiou, não o resultado do génio, do destino ou de uma visionária redenção nacional. Nada de pretensões, nada de títulos, nada de avareza nem procura de poder.

Logo vimos a saber que, face aos que se perpetuam nos postos mais apetitosos por “lealdade” ou “responsabilidade” institucional, o nosso Agustín foi coordenador durante lustros da coleção infantil de Edicións Xerais em tempos em que a literatura infantojuvenil não era um âmbito de prestígio, mas que com muito esforço e talento contribuiu a converter num espaço de qualidade, reconhecimento e prosperidade económica. No entanto, esta atividade na sombra, na intimidade de um quarto em que o escritor confessa ao demo o sucesso e a frustração, não evitou que desse a cara pola língua quando rejeitou o Prémio da Cultura Galega para protestar contras as políticas linguicidas do Partido Popular. Á par disto, onde ficam e quanto valem os esforços patrióticos de quem salta ano trás ano de canapé em canapé institucional?

Tenho para mim que esta atitude tão generosa, tão pouco interesseira, tão pouco beligerante e competitiva não é bem patriarcal, e por isso não é de patriotas direitos. São ações que defendem a Mátria, essa barriga primigénia que devemos é reproduzir junt@s na Terra, um lugar para a liberdade e a fraternidade, para o galeguismo prosperar sem as fronteiras mentais dos estados presentes e futuros, um espaço para a criação e o convívio, sem censura nem dedos erguidos nos mandando à marginalização, sem ostracismos… Sim, amig@s, junto a ess@s matriotas que o Agustín representa é que gostava de ver-me desde já.

{Praza Pública}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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