'Cantares galegos', presentados no Festigal

«Se alguma vez um livro foi capaz de mudar a trajetória da escrita, da língua e por tanto da imagem que uma nação tem de ela própria e oferece ao mundo é este.

Foi alvorada que abalou em saudades o duro coração dos galegos e rompeu para sempre a tradição de sequestro noutra língua […]»[Contracapa de Ernesto Vázquez Souza]

Con edición de Higino Martins para Edições da Galiza, e dentro da colección “Clássicos da Galiza” que promove a Academia Galega da Língua Portuguesa, o libro foi presentado por Ernesto Vázquez Souza, Concha Rousia e Heitor Rodal no contexto do Festigal 2010.

Un libro para ser desfrutado por toda a lusofonía e por aqueles galegos que, coma min, gustan de saborear a literatura sen a mediación perpetua da lingua de Castela. Un soño de normalidade que con frecuencia preciso alimentar.

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O Levantador entrevista a Santiago Auserón

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Temos o pracer de ofrecer a entrevista que Santiago Auserón nos concedeu apenas unhas horas antes da súa actuación en Compostela coa Original Jazz Orchestra do Taller de Músics de Barcelona, no sábado 20 de outubro.

Agradecidos polo seu interese en ter unhas palabras en primeira instancia para o Blogomillo, […] Ler mais

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«Sobre “La lámpara maravillosa” de Valle-Inclán», de Ernesto Vázquez

Co título Sobre “La lámpara maravillosa” de Valle-Inclán, ofreceu Ernesto Vázquez neste Entroido unha nova entrega da súa famosa serie de intervencións De Cânones e Canões, para o Portal Galego da Língua. Nesta ocasión atreveuse cunha obra de Valle de declarado fundamento esotérico, en que este autor demostra ser coñecedor das principais tradicións gnósticas peninsulares:

“Amemos la tradición, pero en su esencia, y procurando descifrarla como un enigma que guarda el secreto del Porvenir. Yo para mi ordenación tengo como precepto no ser histórico ni actual, pero saber oir la flauta griega. Cuanto más lejana es la ascendencia hay más espacio ganado al porvenir. La rosa se deshoja a poco de nacer, y para nuestras ilusiones el cristal no nace ni muere. El Arte es bello porque suma en las formas actuales evocaciones antiguas, y sacude la cadena de los siglos, haciendo palpitar ritmos eternos, de amor y armonía.

[…] Peregrino sin destino, hermano: ama todas las cosas en la luz del día, y convertirás la negra carne del mundo en el áureo símbolo de la piedra del sabio”.

Mais non se pára Ernesto na esencia espiritual da obra, aspecto que para el non semella constituir o verdadeiro obxectivo de Valle. De facto da a entender en diversas ocasións que a seriedade do autor sobre estes temas só pode ser falsa, e portanto unha actitude burlesca ha de existir baixo o disfarce de sacerdote das Grandes Letras. Porén alguns de nós, portadores dunha sensibilidade mais que tradicional arcaica, ou até prehistórica, queremos tomar a serio estas pretensións de anténtica pedagoxía gnóstica, o que fai que nos sintamos abrumados por un discurso directo que ofrece unhas lizóns de esoterismo esencial e facto literario, tema sobre o que intuímos máis do que sabemos, polo que haberemos de falar con tento.

Noutra liña, portanto, Ernesto debulla o seu ben amoblado pensamento sobre a época de Valle e anteriores para deseñar un encaixe reflexivo de primeira orde. É por isto que non fomos capaces de simplemente remeter os lectores d’O levantador para o suporte de orixe, e quixemos apropiar-nos ainda máis dos ben armados argumentos que Ernesto é capaz de edificar. Así, atrevémonos a reproducir aquí a parte final do traballo coa seguranza de que moitas liñas de reflexión poden ser suscitadas nos nosos lectores:

«[…] Seja o que for realmente, “La lámpara” é uma declaração de soberania estética de Valle. Desde Galiza, mas sem o galego. A tradição do discurso literário, das crenças também políticas das elites da Galiza antiga: em Espanha, mas contra a Espanha literária, religiosa e política que querem fazer as elites espanholas. Um caminho que a experiência tem demostrado onde leva: a destruição da Galiza cultural e da sua originalidade.

Mas a “Lámpara” tem para mim uma chave mais, é um farol que permite fixar-nos num salto possível para o futuro com a tradição. Até agora estamos repetindo ciclos já velhos, de jeito individual, geração e geração nos últimos dous séculos. Não podemos romper com a tradição para inovar, pois seica não temos tradição contra e desde a que inovar (realmente não a vemos).

Os mais políticos têm pretendido criar uma tradição (uma língua) e um projeto nacional para mais adiante agir contra e desde ele. Mas não há tempo nem forças. A integração no sistema espanhol castelhano é evidente e histórica, mas é à vez incómoda neste projeto nacionalizador (que prescinde dela e nega-no-la como parte central da tradição). O agachar de forma continuada apertença cultural a Espanha é um dos maiores problemas à hora de compreender parte do discurso literário galego histórico e moderno. Pois, a literatura galega existe a várias vozes (nalgum caso como Rosalia que dialoga a través dum jogo complexo aBBa que lhe dá um sentido de conjunto).

O desocupado leitor agora mesmo estará a sofrer e a pensar em me dizer: Não!, Ernesto, aí já não! Para onde vas que te despenhas! Ainda e sendo entrudo, Não! Mas, caro leitor, isto é deste jeito. Mas, não só. A nossa cultura faz parte de duas tradições: numa quer integrar-se, mas com uma independência impossível. Na outra, para a que não olha continuadamente, faz parte troncal. Pois, as “formas” que escrevem em paralelo ao sistema literário do castelhano dialogam com as “formas” da parte central da tradição literária portuguesa também agachada. E com o português dialogam tanto através das manifestações próprias da erudição galega como das da literatura popular.

No XIX, nas asas do romantismo nacionalista e folclórico o que se produz é uma fusão lógica (e explosiva) das duas ponlas da cultura galega que se retroalimentam e criam um espaço de rotura inexistente, um novo caminho na soberania, mas que permanecem por causas políticas e históricas (e retrotraem em audácia desde 1875) nesse ir onde não e nesse não ir onde sim. O Rexurdimento é o primeiro passo consciente de uma realidade antiga e de um coletivo vivo que ainda está. Defesa, como efeito da pressão do nacionalismo espanhol. Uma de tantas reagrupações ao longo dos últimos séculos. Cada vez estou mais certo que a soberania estética da Galiza, que é o que cá propõe Valle para ele (ocultando que é a forma do colectivo), é mui antiga, sejam os textos escritos em latim, castelhano, mistura ou galego dialectal. E o que está a acontecer agora é que ainda que aparentemente estejamos a ganhar soberania e uso do galego culto, estamos perdendo. Pois, a soberania não é uma cousa que se inicie no XIX.

Quando no Rexurdimento começam a cantar os grandes mestres fazem com uma voz madura e independente, carregada de liberalismo, latines humanistas, com destacada francofilia e muito mais próxima (reinterpretada) do pensamento filosófico e literário de Portugal de fins do XIX (clássico e minhoto dos Camilos, Anthero e Eça) do que se quer acreditar. Compreender isto permite entender e ampliar o conjunto, estabelecer os diálogos, fixar as cronologias, as continuidades, as metáforas, permite também entender o percurso cultural e político de Galiza com lógica. À vez que, precisamente, achega o argumento mais sólido para uma possível virada de rumo. Sair da contracorrente (Espanha) que nos encerra a prol de águas mais tranqüilas, onde a corrente tira ao nosso favor (Lusofonia) para mares nunca dantes navegados.

E se há alguém em que essas tradições e linhas se reúnem é em Valle-Inclan. E desde ele também se entende melhor e como continuidade o polifacetismo elegante, subtil, popularista, lírico, prosaico e erudito de um Ferrin, de um Josê Afonso ou de um Caetano Veloso. Deste conjunto complexo é de onde vai surdir, in crescendo o estilo poderoso e arrebatado de prosa enlouquecida e humor do Valle maduro: o esperpento como visão realista do mundo. A tentativa de reinventar o castelhano ao jeito galego.

Desde esta “Lámpara” filtra-se ao acaso, mas mui envenenador de ouvidos castelhanos, o saber inteiro de Valle, alta erudição e anedota significante a travês da palavra. Nada tem desperdício, como num cocho. Nem as tripas, nem os ossos, nem o ritmo, nem a metáfora. Toda a obra merece a pena. Leitura estética, simbólica, profunda. Mágoa não haver no seu tempo mais esperança na sua própria língua, na única em que se pode atingir e compreender a empresa e tentativa de capitão façanhoso de nobre linhagem galega. Mas, a idéia é boa. É total. Útil, pois nisso estamos ainda, criando uma língua nova. Eu entendo pois, como Murguia, que -contra ele e os seus- Valle é um dos nossos.

Que “La lámpara Maravilhosa” é à vez uma brincadeira festiva, e declaração desesperada e orgulhosa em forma de garrafa ao mar. Mensagem parabólica e espermática cara a matriz do futuro de um mundo que ainda -nisso foi mal profeta- não se perdeu de tudo. Isso enxergo, apenas na tona. Pois, como adoito, a verdade mais oculta está na superfície. Ainda que Valle chegue até ler no “Guia espiritual” (1675 ) daquele Miguel de Molinos, condenado por hereje e teórico do Quietismo (uma falsa mística), ainda que fale de Taboas esmeraldas, de arcanos e monstros bizantinos, de velhas cegas como Homero, de pecados e paixões apetecíveis, de Feijó, G.W. Leibniz é de certo de Erasmo (cuja “Moria” é um texto de poderosa atração para o humanismo galego), ainda que se arraste e chore e peregrine galhofo para nos suplicar perdão e compaixão faz tudo apenas para citar mal Paulo, despistar e cimentar, nesse pacto com ele próprio apenas, mas também com a memória coletiva. Ironias educativas, magistério conversador que nos lega sem querer à vez que se nos quer impor como mestre de sabedoria.

É a nossa obriga, porém pensar por conta própria, escolmar a mensagem, estar atentos e atender com quem estamos a falar: com o mesmíssimo Long John Silver, também cavaleiro de fortuna, mestre canalha e falto de parte:

“La ciencia de las escuelas es vana, crasa y difusa como todo aquello que puede ser cifrado en voces y puesto en escrituras. El más sutil enlace de palabras es como un camino de orugas que se desenvuelven ateridas bajo un rayo de sol. Hermano peregrinante, que llevas una estrella en la frente, cuando llegues a la puerta dorada arrodíllate y medita sobre las palabras de san Pablo: Si quis inter vos videtur sapiens esse, stultus fiat, ut sit sapiens.

Ronca-lhe a ironia, na pena dum erudito plagiador e falsificador como poucos: “Se algum quer ser sábio, seja ignorante para ser sábio”. E diria eu: o que queira ser sábio seja por si próprio, pois será néscio se imita o caminho de outros sábios.»

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De livros e fantasias contáveis V/V

Esto es más necesario en Galicia, porque se ignoran sus anales, los pocos libros que acerca de su historia se conocen son incompletísimos, y lo atrasados que se hallan entre nosotros los estudios históricos, hacen imprescindibles aquellas noticias, sin las cuales seria incompleta la idea que se diese del estado intelectual de este país en sus diversas épocas.

Manuel Murguía, 1862.

Que é que podemos fazer? Que é que queremos logo? Realmente queremos algo?

Sem explicar e reconhecer a doença, difícil remédio há. Também há crônicos que nestas crônicas de desalento moram felizes e se contemplam heróicos nos espelhos. O que podemos fazer dependerá do que queiramos fazer.

Que não queremos nada, não sonhamos nada, pois não movimentamos nada, continuamos a conversar nas tabernas e nos blogues e nada. A aguardar, lendo Omar Khayam, engatando os belos olhares dos leitores do outro sexo, e bebendo de vinho, pola morte lenta.

interrogante.jpgQue queremos ganhar dinheiros autores e editoras com o mercado actual, sem passarmos para o sistema castelhano ou luso, haverá que eliminar autores e editoras para repartir de jeito equilibrado o pastel, que é pequeno e não cresce. Apenas com que o estado deixe de destragar dinheiros em livros, filmes e teatro e invista em bibliotecas, bibliobuses, internet gratuito, campanhas de alfabetização de adultos… era boa.

Que somos patriotas e não nos importa o dinheiro? Então o melhor é fazermos cooperativas literárias, pôr umas quotas e receber cada mês ou trimestre uma listagem de bem editados e belos livros, escrever nós e intercambiar com os amigos. Que somos mais arriscados e tecnológicos, pois abrimos blogues e, de quando em quando, nos agasalhamos PDFs gratuitos e ceives.

Que queremos escrever boa literatura, fazer progredir a língua e criar um sistema literário, necessitaremos menos, mais sérias ou mais profissionais editoras e autores em competição permanente (o que se lograria, penso com eliminar toda ajuda pública). Mas, ainda teremos que dar tempo aos autores, não pretender tirar uma obra por ano, e exigir das editoras que cumpram o seu trabalho de escolha, assessoramento, correição e edição como dos críticos que sejam profissionais (quanto amáveis).

Mas, de qualquer jeito, e ainda no sistema, muito se podia fazer ainda. Primeiro, porém, há que deixar de contar e crermos as mentiras de sempre.

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De livros e fantasias contáveis IV/V

Non se desafivela ningún segredo espallando a anécdota do Ánxel Casal, que voltou da emigración para afleitar a nao da Editorial “Nós” e facer un cruceiro de cen tomos, ao termo dos coales estaba a ruína, tan lenta, segura e sabida, coma pode estar un baixío ben sinalado de antemán. Emporiso, il tamén pensou que o que importaba era navegar…

G. Álvarez Gallego, 24-10-1934.

Mas sem movimentação que os obrigue, os autores também não competem. Ninguém nas editoras lhes exige, pois se não pensa na qualidade ou nas vendas, ou se atrapalham as duas idéias em discursos ideais e supostamente patrióticos.

O sistema é dependente da relação e amizades, e dado que uma obra de valor vale igual que uma sem ele, a quantidade das entradas, a movimentação, os saraus, a participação em tudo o que se coze é o único que no sistema cultural galego, permite apanhar um espaço ou ganhar algo de dinheiros.

CegueiraMas isto obriga a estar a bem com todo o mundo, a escrever o que se pensa que a gente quer ouvir, a não dizer o que se pensa e a perseguir incansável e maçadores gentes (editores e coordenadores de publicações) para publicar. Neste ambiente qualquer possibilidade de ver nascer uma crítica séria é como aguardar por uma nova revolta irmandinha.

Os autores com um produto que vender e vontade de estilo ou ganhas de profissionalização, pouco cuidado recebem, pois figuram nas mesmas listagens e tratos que os que passavam por lá, ou fazem currículo para os correspondentes triênios, selênios, marcianos ou plutônios que enchem de constelações de fantasia pseudo-sisuda as bibliotecas de Galiza. Isto empobrece a escrita dos primeiros e rebaixa a qualidade dos fundos das editoras.

Realmente, em prosa e ensaio é muito difícil enxergar algum título bom, salvo por uma recomendação de amizade, dado que a qualidade dos produtos, em ausência de controlo editor e de verdadeira crítica, também não pode ser avaliada rapidamente pelos consumidores.

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De livros e fantasias contáveis III/V

Trailer de GalizaTerra querida, que sempre chegas tarde
ou chegas antes ou despois da História
e andamos foscos no correr do tempo.
Hai que romper, romper agora!

Avilés (Última fuxida a Harar)

Os autores, quanto a maior parte das editoras galegas chegadas a um número de títulos ou de cifras, ou simplesmente com produtos, que se demonstraram vendíveis, normalmente para cativos ou de turismo, consideram a possibilidade de se achegarem (apenas uma provinha, disse o diabético, não faz mal) ao mercado castelhano.

A tentativa, quando resulta, traz sempre o mesmo resultado: mais ingressos (mas nem tantos que na literatura em castelhano também não há tanto profissional) quanto mais dependência e entrampamento dos autores, as editoras e do sistema inteiro no castelhano, do que se supõe nos defendemos. É-che como a heroína, presta no cérebro mas nos obriga a dependência e finalmente mata o corpo.

A vista das contas, o lógico seria, entanto haja ainda forças,considerarmos a solução final e se passarmo-nos suicidas para o castelhano, e como Valle ou Torrente tratar de o invadir com as nossas metáforas e ritmos inauditos ou fenecer na tentativa.

Outra possibilidade seria ousar de uma vez aventurar a via lusitana, que também é comercial, ainda que, seica, culturalmente difícil quanto politicamente incorreta.

De qualquer jeito, duvido que nenhuma destas duas vias se tome a sério. O pessoal tem decidido deixar apodrecer os cascos em porto, que é o seguro.

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De livros e fantasias contáveis II/V

Un bello libro no es obra de una sola persona, sino el fruto del esfuerzo de todos aquellos que trabajan en su elaboración. Son varios los artesanos que intervienen en la elaboración del libro y el esfuerzo es siempre de carácter colectivo. Cada libro tiene una historia, independiente del autor y del tema que trata. Una historia referida a su edición. Aquel libro que nació rico, que produjo seguramente un déficit en la contabilidad de la editorial, ahí está en una librería de última categoría, vendiéndose en lote con otros más modestos que corrieron igual suerte.

Luis Seoane, 1957

 

Característica mui significativa da literatura galega atual dos últimos 20 anos é que contando com uma aparência de normalidade nunca vista, havendo mais editoras, muitos mais livros, melhores leitores e mais preparados escritores, a qualidade da produção e dos textos não é proporcionalmente superior a tradição da que parte.

AlfarrabistasNo entanto o público, que não cresce nem se normaliza, está desbordado por uma oferta saturada e repetitiva, sem nenhum controlo e também sem uma crítica em que fiar. Motivos?

Vários. Eliminemos a ingente e absurda produção institucional que dorme em armazéns (universidades, concelhos, deputações, Xunta…). Quitemos Galáxia que vive da sua história e do conto de vender-nos os clássicos patrióticos. Tiremos Xerais, parte do grupo Anaya que pertence à multinacional francesa Havas (a das brasileiras Ática e Scipione), o Grupo Everest ou Alfaguara (Santillana), que nas suas estruturas comerciais mantêm as sucursais galegas (e com apoio absurdo do dinheiro público) pelo que tem de ponte para o mercado hispano. Que fica?

O resto das editoras sobrevivem, não luitam pelo mercado e não fazem investimentos em tradutores, corretores, campanhas. Não ganham muito, mas não se obrigam a competir –que é melhorar- às devanditas. Sobrevivem em boa parte com orçamento da Xunta. Logo, a mais títulos e mais autores, mais ingressos (para sobreviverem apenas) das editoras. Conclusão mercado estancado, e pouco profissional.

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De livros e fantasias contáveis I/V

Écrive qui voudra, chacun à ce métier

Peut perdre impunément de l’encre et du papier

Un roman, sans blesser les lois ni la coutume,

Peut conduire un héros au dixième volume.

(de Le libraire au lecteur, Boileau: Satires, IX, 68, 1660)

Talvez seja o detalhe de eu nascer numa família de contáveis que faz que as minhas metáforas culturais primeiras e moral básica se estruturem em livros pautados, raias vermelhas e partidas que têm a ver com o “deve” e o “haver”.

E se a números imos no mundo editorial e cultural galego, a mim, por muitas voltas, as contas me não saem. Os autores queixam-se de não poderem viver do que escrevem. O publico de que não há qualidade. E os editores laiam-se de serem mecenas e apenas sobreviverem.

Livros, de Van GoghEstamos fartos de escuitar que o público leitor na Galiza é, por problemas estruturais e históricos de alfabetização e recursos, minguado. Raro em galego ainda que mais exigente. Escasso e um pouco mais consumista em castelhano. E, de dez anos a esta parte, nascente e mui interativo em português.

A produção, porém, de títulos, quanto de autores a escreverem aumenta de ano em ano. Cada vez é que se escreve e traduz mais para galego. Mas, não é logo em proporção ao mercado, nem em previsão de consumo e menos de apostas de futuro ou atendendo propostas factíveis de normalização. E ainda, como se de companhias teatrais ou cinema tratarmos, ameaçam o futuro novas editoras, autores e títulos.

As instituições não pensam realmente em campanhas para criar o público em galego, pois para isso seria precisa uma maciça re-alfabetização de adultos e uma séria reforma do sistema escolar. Ergo, há que contar com o que há.

Se minha geração (ponhamos 1965-1975) é a mais longa e à vez a mais leitora e escritora em galego das que nunca houve, e atendendo a pirâmide populacional, isto quer dizer que a ponta estatística de público potencial pouco mais vai aumentar nos vindouros vinte anos. É justo agora ou em 5-8 anos quando ao nosso consumo engadamos o dos nossos filhos, o momento de pensarmos estratégias.

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Sur le citoyen Pondal e o direito à memória crítica

Maria PitaCantas veces dos homes aléves,

No trato non recto,

As risas cuidando,

Presentes ingénuos;

Unha dobre palabra ceibada,

Con pérfido intento,

Nos pasa de súbito,

Cal folla de ferro,

Que fora temprada,

Nas augas do inferno!

(Pondal, Queixumes, 1886, p. 205)

Para Dionisio Pereira, com a minha solidariedade.

 

Eu, no meu lar não grande, na chaira vasta de Castela, rodeado com os meus poucos livros e papéis, ocupado em alfabetizar-me apenas, desenganado do mundo e dos seus falsos discretos, acreditava que já escuitara tudo a respeito da história inexistente da minha pátria; que já se dissera com néscia vaidade e ridículo orgulho tudo quanto era possível como provocação contra dos nossos artistas e historiadores, que a justiça e a prensa local já evidenciaram todo o seu catálogo de esperpento feixista para fazer rir os poderosos e lograr sítio na sua farta mesa.

Em pouco tempo vejo que de vária parte a vaidade, a ignorância, o pouso franquista confundido com tradição e a barbárie continuada cercou a nossa cativa cultura até extremos de sobradar as poucas cousas grandes e boas e belas que temos, as que nos permitem manter em pé de igualdade com qualquer outra nação do mundo, o nosso direito a existir senlheiros. Direito ganho com humildade, esforço, trabalho, memória, arte e erudição.

Mas não, o hino da minha pátria obscura é tocado ligeiro no cenário -mais uma vez ridiculista- que devia ser o da sua soberania e não olho ninguém chorar. Ninguém a tremer. Apenas silêncio. E algum se indigna, mas o povo, que eu vejo chorar e muito, perde a esperança.

Estranho, pois quanto se emociona um –isso me disse o meu avô apertando meu braço adolescente – quando é atingido polos primeiros acordes da música do nobre Veiga. Em momento solene, nalgum dia de sol e festa em alegre companhia, nalguma sala de teatro de qualquer lugar do mundo, contra a autoridade, em franca camaradagem.

Tenho visto chorar muita gente ao sentir as primeiras notas do hino galego, lá e em muita parte, nos setenta, oitenta, noventa: na Havana, em Chicago, em Montevideu, em Buenos Aires, em Zurique. Cantado, escuitado em fitas gastas, em orquestras populares ou desentoando contra a policia. E mais ainda em memórias que não eram minhas.

Mas, na minha vida ouvi tocar o nosso hino como num serão luminoso em companhia de Xosé Maria Dobarro. “Apenas metal e vento”-disse ele admirado- vibrantes desde as partituras originais, rumoroso e levantando brisa como num meigalho antigo, nos poeirentos salões, como ruínas das velhas nações poderosas, do Centro Galego da Havana. Era 1995 e o meu carão erguia-se, lançal ainda os anos, de olhos estrelecidos como bágoas, Antón Garcia Antón, mestre gratuito, galego mambi, revolucionário de primeira hora, custódio de vagas memórias não cumpridas.

Não compreendereis a dignidade da música de Pascual Veiga, senão quando caminhando em ócio agradável o passeio Marti, vejais emergente ante os vossos olhos impregnados de tanto azul e verde, entre cheiros infinitos e seres festivos, a mole branca de memória marmórea, levantada a pulso polos filhos saudosos da Galiza.

Dificilmente atingireis a sua delicada harmonia entanto não contempleis o pôr-se em pé, rumorosos como as ondas, dos velhos galeguistas, dos velhos comunistas, dos velhos libertários, dos velhos republicanos, dos velhos antifascistas, dos exilados sem mais que restam, e dos seus filhos e poucos netos em pacto, em qualquer auditório de Buenos Aires ou Montevideu, na Crunha e em Vigo também.

Mal podereis interpretar esses acordes entanto não sintais aquela doce música percorrer os corpos daqueles que emigraram por pão noutras terras.

Mas não vos importa. Não vos importa nada. Se mudamos governo foi especialmente para livrar-nos de que as nossas elites políticas continuem a gastar os nossos dinheiros em caprichos ridículos e a estender o nepotismo como jeito de controlo do mundo académico e intelectual. Para ter direito à crítica e à memória.

Se também nesta mudança não há qualquer esperança, se as nossas elites culturais teimam em viver da Galiza e aproveitar-se das poucas cousas de verdadeiro valor que temos, para vender a sua arte como antes fizeram os Canitrot, os Camba, os Fernández Flórez, Manuel Casas, para felicidade de Montero Ríos e de La Voz de Galicia, que nos resta?

Como a gente do comum, que sabe a base de golpes neles e antes nos seus pais e avôs, que na Galiza há que calar e aguentar vai ter qualquer uma esperança se ninguém olha, nem já canta para eles. Se depois de tanta mudança, ao final as elites políticas continuam alheias à problemática local, que se deve tratar directamente e em submissão evidente com o cacique de turno.

E as que deviam ser as nossas elites intelectuais, políticas e artísticas, em vez de continuar as vozes heróicas de Rosalia, Curros ou Pondal, teimam nessa burla indigna, dissimulam nessas brincalhadas perversas das que gostam os poderosos.

Isto chegara para encher de abatimento qualquer nação que não for a nossa, afeita aos paus como os trabalhos.

Desde há certo tempo considero que na cultura galega em geral (o que se percebe em plataformas como ANT, Vieiros ou Tempos e descaradamente nas instituições e editoras) se consolida cada vez mais como cultura o que apenas é amiguismo e nepotismo intelectual, covardia e dependência submissa. Ausência de crítica, pois a crítica castiga-se na caixa do pão, não em réplica. Isso que o fraguismo consolidou de velhos restos mediático-ambientais que sempre nos frenaram. E agora não há quem o desmonte.

Vejo com espanto como o Estado não só não toma da sua mão a reabilitação da memória (já que da reparação e da justiça não ousa nem falar) como não informa os legítimos herdeiros e os milhares de vítimas sobre documentação privada e informação que se agocha ilegitimamente nos arquivos públicos.

A película montada arredor de Dionísio Pereira –como advertência para todos- me confirma como as cousas estão. Entanto ele fica em questão e obrigado a passar perante os juízes (dos que hei espanto) vejo à cultura e política galega olhar para qualquer parte a aparentar que fazem e debatem, mas apenas sem objectivo, a roubar ideias, copiar textos e continuar misturando tópicos e néscia erudição. E prometem reunidos em congressos que nada achegam, inaugurando permanentemente saraus e dizem que fazem –fume- para resgatar a memória.

E ainda tenho que ler Xabier Cid em Vieiros dizendo parvoíces sobre aquele feixista impune de Manuel Fraga e chamando protofascistas várias estrofes de Pondal que se cantam no nosso hino.

O silêncio e o abandono de crítica durante a época Fraga tem produzido uns efeitos secundários na inteligência galega irreversíveis. Os escassos opinadores e opiadores continuam a querer fazer parte dos que defendem que os intelectuais da Galiza fazem bem vivendo da nossa cultura (não para a nossa cultura) e seguindo o jogo, as chorradas e caprichos perversos da nossa classe política dependente desde os tempos remotos de Gelmírez.

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