III Festa literária de Chaves

Alfredo Ferreiro: Palestras de José Saramago (edição espanhola)

Alfredo Ferreiro: Palestras de José Saramago (edição espanhola)

Mais um ano coube-nos a honra de desfrutar da Festa Literária de Chaves, organizada pelo Clube dos Amigos do Livro ao abrigo da Rotary Clube entre 14 e 17 de novembro de 2018. Com presença de Pilar del Río, Maria Graciete Besse, Amélia Muge, Michales Loukovikas e muitos outros vultos da cultura, tivemos a honra de participar este ano três galegos: Estefânia Blanco (cantora), Pedro Casteleiro (poeta) e eu próprio.

A ousadia minha foi maior do que nunca, uma vez que me atrevi a falar do processo de escrita do José Saramago a partir dalgumas declarações que ele deixou publicadas em textos de palestras e similares.

Também dissemos poesia, desfrutamos da voz de Amélia Muge e conhecemos a nova revista que em breve virá a luz, Via XVII, da mão de José Leon Machado e Ernesto Areias.

III Festa Literária de Chaves

Amélia Muge na Festa Literária de Chaves 2018

III Festa Literária de Chaves

Ernesto Areias e José Leon Machado na Festa Literária de Chaves 2018

O nosso contributo terminou numa inspirada mesa moderada pelo eficiente Filipe Delfim Santos sobre os conceitos de “fronteira”, “identidade” e “inspiração” (com Telmo Fidalgo Barreira, Pedro Casteleiro e Lídia Machado dos Santos).

III Festa literária de Chaves

Telmo Fidalgo Barreira, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Lídia Machado dos Santos e Alfredo Ferreiro Salgueiro na Festa Literária de Chaves 2018

E tudo no quadro da lindíssima Chaves, com o tempero da cortesia e o privilégio da hospitalidade das suas gentes (obrigado nomeadamente à Maria Manuela Santos Rainho, à Laura, e à presidência do Rotary Club de Chaves).

Jantar com Estefânia Blanco, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Michales Loukovikas, Amélia Muge, Maria Graciete Besse, Ernesto Areias e Laura na Festa Literária de Chaves 2018.

Jantar com Estefânia Blanco, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Michales Loukovikas, Amélia Muge, Maria Graciete Besse, Ernesto Areias e Laura na Festa Literária de Chaves 2018.

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II Festa da Literatura de Chaves_250px

II Festa da Literatura de Chaves (FLIC II)

Na próxima quarta-feira, 8 de novembro terá início a II festa da Literatura de Chaves, tendo como entidade organizadora o Clube dos Amigos do Livro de Chaves, instituição que pertence ao Rotary Club de Chaves. Este evento tem como finalidade a divulgação da literatura na cidade e na região apostando quase em exclusivo em autores flavienses e transmontanos em número superior a duas dezenas.

A FLIC II irá contar com onze mesas de trabalho, decorrendo três delas na sede dos Agrupamentos de Escolas de Chaves, uma no Estabelecimento Prisional, outra no Regimento de Infantaria e por último na Biblioteca de Verín em cooperação com o Clube de Leitura local. As restantes cinco mesas terão lugar no salão nobre do Rotary Club de Chaves. A esta festa associa-se uma exposição de arte (escultura e cerâmica), música, dança e pequenos excertos teatrais. Na manhã de sábado, dia 11, haverá um Peddy Paper literário com os escritores a percorrerem os lugares mais emblemáticos da cidade.

Este evento conta com o apoio da Universidade Sénior e várias outras instituições da cultura local esperando-se uma boa adesão do público.

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Oportunamente serão todos os autores contactados pela empresa Traga Mundos que se encarregará da venda dos livros que cada autor lhe enviar a titulo pessoal ou através da sua editora. A venda de livros nada tem a ver com a organização do evento. Para além da literatura acontecerão uma mesa de arte, uma exposição de pintura, e momentos de música e teatro associados.

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Programa (cf. PDF): Read More

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A propósito de Sefer Sefarad

Pedro CasteleiroEscrever sobre este livro ou sobre um autor como Pedro Casteleiro, que palpita e sente muito antes do que pensa e descreve, só pode ser qualificado de ousadia poética. Lembro quando o conheci, de chapéu e agasalho comprido e entre todos os viageiros destacado como um Fernando Pessoa de um qualquer país afastado de si próprio, um país que sonha e semeia um tapete de poemas que poder pisar no dia da redenção vindoura. E ele de chapéu e de agasalho ali sentado, logo a olhar para mim e para o meu chapéu e o meu agasalho grisalho, como arribando exatamente ao mesmo país afastado que ambos os dois desejávamos enlouquecer. Duas Pessoas equivalentes iniciando a viagem da capital do mesmo descontento para toda a esperança de um Fernando, de chapéus e agasalhos e canetas prontas para ser disparadas num ulterior enfrentamento com a razão, aquela que prende e sujeita as mãos do coração contra as costas de um monstro medonho.

Sefer Sefarad, de Pedro CasteleiroMais de vinte anos têm passado desde aquele dia no Castromil de Santiago à Corunha, mais chapéus, mais agasalhos e o doce licor da amizade por entre os mil rios da cidade cúmplice do nosso anseio secreto, do nosso anseio repetido como uma litania a lume gravada entre os versos de pedra que, na irmandade do ofício, nos é dado lavrar. Hoje escrevo porque ele fez amor e fez poemas e deu a lume um livro, e o livro é menina e foi a toda a comunidade exposto para público conhecimento, e agora existe e a gente sabe, e já pode ser ignorado. Porque o triste fado deste país afastado de si próprio é ignorar aquilo que é mais prezado, por nunca ser compreendido ou por nunca no alto cimo do convencional ser desejado (isto sempre se cumpre aqui ao menos por setenta anos).

Mas não nos importemos com isso, pois é a hora de celebrar uma miríade de elevados versos e profundos sentimentos, com “meia-lua do silêncio crepitando na garganta”, na “nossa incontestável ambição para as sombras”. Ó amiga e atrevida leitora, “deixa a barca deixa a esteira luminosa cumprir a sua secreta migração” e observa as “estalactites que o coração estagna na habitação do alento” e a “velha amante amanhecida no meu peito”; porque “quando é que chamas, à noite, negro afluente de que me transborda a voz?”, quando é que bailais, “prisioneiras do nada”, quando perfumais “com ópio os velhos túneis da palavra”?; dizei-me onde é o “acampamento dos meus braços perenes” e “como voar e cantar e crescer altos e definitivos sobre o lume”, pois já o “diamante que espera na turbulenta biosfera” é “uma única voz pelas destilarias do nada”.

Agora vistes, amigos, como já nem sei falar sem plagiar o escrito, até porque a sua força me invade e gostava que conquistasse o mundo, em feliz andaço a fertilizar montes e prados até o plácido entardecer dos fungos. Mas os tempos são convulsos e estes poemas, sendo poderosos, não têm o poder que só alguns querem ver. Porque estes versos nasceram com o vigor de uma pura e sagrada matéria e por isso se fazem invisíveis enquanto tocam, sem se aperceberem os mais lestos, uma música celestial tão só dedicada aos doidos. Sim senhores, a vida é dura para os que seguram dinheiro onde deve florescer o amor, e por isto eles não vão sentir a graça. Olharão para o lado e passarão à beira de uma vibração para eles imperceptível, um epicentro que em Sefer Sefarad está a ter lugar como uma maré que sem cessar caminha. Algo do que nos teremos que desde hoje orgulhar, recetores privilegiados, porque sendo obra de um único homem é para muitos que foi cultivada, porque vindo de umas mãos que morrem o seu fruto se ergue perante o sol e sobre pradarias do tempo.

{Palavra comum}

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Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Read More

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Cadáver exquisito

Poeta e mundo, de Tono Galán1. Os carlistas imberbes do nabo placidamente cintilam a menina que tirou as calças nos úberes das vacas.

2. Restar pedras ao ar −que não quer os encontros cafeteiros− reverbera intermitentemente o urso pardo da lua entre os papeis da mentira.

3. A razão do mais louco, cujos espaços são curtos, re-mata as casas como as ramas da sem-razão.

4. A luz da gadanha −a que tem o cabelo vaga-lumento− trespassa copos e colheres como o esperma das cariátides.

5. A magia, a do jérsei verde, recua lentamente as maçãs de prata cantando aleluias com a navalha no colo.

6. Platão, o do lentor baleiro, suspira um relógio roto na música celestial das marés.

7. Como as levitações dos olhares de perfil, a orgia dos dentes arrecende misteriosamente com as correntes janeirentas cada pergunta.

8. Num puxar incessante de cordas, uma mulher de pernas longuíssimas como chaminés arrisca até o limite sem limites -com as forças de cor peixe verde- umas poucas vitórias azuis.

9. Com luzes de amanhecer, rameiras da lua abafada da noite −e o nojento limão− excretam sem limites.

10. Entre as corcovas dos camelos o mármore brilha covardemente. No vão, a traição.

No Torques, em 8 de outubro (6ª) de 1993, assinamos este deca-texto:
Pedro Casteleiro
Luís Maçãs
Dulce Fernández
Táti Mancebo
Alfredo Ferreiro

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