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II Festa da Literatura de Chaves (FLIC II)

Na próxima quarta-feira, 8 de novembro terá início a II festa da Literatura de Chaves, tendo como entidade organizadora o Clube dos Amigos do Livro de Chaves, instituição que pertence ao Rotary Club de Chaves. Este evento tem como finalidade a divulgação da literatura na cidade e na região apostando quase em exclusivo em autores flavienses e transmontanos em número superior a duas dezenas.

A FLIC II irá contar com onze mesas de trabalho, decorrendo três delas na sede dos Agrupamentos de Escolas de Chaves, uma no Estabelecimento Prisional, outra no Regimento de Infantaria e por último na Biblioteca de Verín em cooperação com o Clube de Leitura local. As restantes cinco mesas terão lugar no salão nobre do Rotary Club de Chaves. A esta festa associa-se uma exposição de arte (escultura e cerâmica), música, dança e pequenos excertos teatrais. Na manhã de sábado, dia 11, haverá um Peddy Paper literário com os escritores a percorrerem os lugares mais emblemáticos da cidade.

Este evento conta com o apoio da Universidade Sénior e várias outras instituições da cultura local esperando-se uma boa adesão do público.

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Oportunamente serão todos os autores contactados pela empresa Traga Mundos que se encarregará da venda dos livros que cada autor lhe enviar a titulo pessoal ou através da sua editora. A venda de livros nada tem a ver com a organização do evento. Para além da literatura acontecerão uma mesa de arte, uma exposição de pintura, e momentos de música e teatro associados.

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Programa (cf. PDF): Read More

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A propósito de Sefer Sefarad

Pedro CasteleiroEscrever sobre este livro ou sobre um autor como Pedro Casteleiro, que palpita e sente muito antes do que pensa e descreve, só pode ser qualificado de ousadia poética. Lembro quando o conheci, de chapéu e agasalho comprido e entre todos os viageiros destacado como um Fernando Pessoa de um qualquer país afastado de si próprio, um país que sonha e semeia um tapete de poemas que poder pisar no dia da redenção vindoura. E ele de chapéu e de agasalho ali sentado, logo a olhar para mim e para o meu chapéu e o meu agasalho grisalho, como arribando exatamente ao mesmo país afastado que ambos os dois desejávamos enlouquecer. Duas Pessoas equivalentes iniciando a viagem da capital do mesmo descontento para toda a esperança de um Fernando, de chapéus e agasalhos e canetas prontas para ser disparadas num ulterior enfrentamento com a razão, aquela que prende e sujeita as mãos do coração contra as costas de um monstro medonho.

Sefer Sefarad, de Pedro CasteleiroMais de vinte anos têm passado desde aquele dia no Castromil de Santiago à Corunha, mais chapéus, mais agasalhos e o doce licor da amizade por entre os mil rios da cidade cúmplice do nosso anseio secreto, do nosso anseio repetido como uma litania a lume gravada entre os versos de pedra que, na irmandade do ofício, nos é dado lavrar. Hoje escrevo porque ele fez amor e fez poemas e deu a lume um livro, e o livro é menina e foi a toda a comunidade exposto para público conhecimento, e agora existe e a gente sabe, e já pode ser ignorado. Porque o triste fado deste país afastado de si próprio é ignorar aquilo que é mais prezado, por nunca ser compreendido ou por nunca no alto cimo do convencional ser desejado (isto sempre se cumpre aqui ao menos por setenta anos).

Mas não nos importemos com isso, pois é a hora de celebrar uma miríade de elevados versos e profundos sentimentos, com “meia-lua do silêncio crepitando na garganta”, na “nossa incontestável ambição para as sombras”. Ó amiga e atrevida leitora, “deixa a barca deixa a esteira luminosa cumprir a sua secreta migração” e observa as “estalactites que o coração estagna na habitação do alento” e a “velha amante amanhecida no meu peito”; porque “quando é que chamas, à noite, negro afluente de que me transborda a voz?”, quando é que bailais, “prisioneiras do nada”, quando perfumais “com ópio os velhos túneis da palavra”?; dizei-me onde é o “acampamento dos meus braços perenes” e “como voar e cantar e crescer altos e definitivos sobre o lume”, pois já o “diamante que espera na turbulenta biosfera” é “uma única voz pelas destilarias do nada”.

Agora vistes, amigos, como já nem sei falar sem plagiar o escrito, até porque a sua força me invade e gostava que conquistasse o mundo, em feliz andaço a fertilizar montes e prados até o plácido entardecer dos fungos. Mas os tempos são convulsos e estes poemas, sendo poderosos, não têm o poder que só alguns querem ver. Porque estes versos nasceram com o vigor de uma pura e sagrada matéria e por isso se fazem invisíveis enquanto tocam, sem se aperceberem os mais lestos, uma música celestial tão só dedicada aos doidos. Sim senhores, a vida é dura para os que seguram dinheiro onde deve florescer o amor, e por isto eles não vão sentir a graça. Olharão para o lado e passarão à beira de uma vibração para eles imperceptível, um epicentro que em Sefer Sefarad está a ter lugar como uma maré que sem cessar caminha. Algo do que nos teremos que desde hoje orgulhar, recetores privilegiados, porque sendo obra de um único homem é para muitos que foi cultivada, porque vindo de umas mãos que morrem o seu fruto se ergue perante o sol e sobre pradarias do tempo.

{Palavra comum}

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Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Read More

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Cadáver exquisito

Poeta e mundo, de Tono Galán1. Os carlistas imberbes do nabo placidamente cintilam a menina que tirou as calças nos úberes das vacas.

2. Restar pedras ao ar −que não quer os encontros cafeteiros− reverbera intermitentemente o urso pardo da lua entre os papeis da mentira.

3. A razão do mais louco, cujos espaços são curtos, re-mata as casas como as ramas da sem-razão.

4. A luz da gadanha −a que tem o cabelo vaga-lumento− trespassa copos e colheres como o esperma das cariátides.

5. A magia, a do jérsei verde, recua lentamente as maçãs de prata cantando aleluias com a navalha no colo.

6. Platão, o do lentor baleiro, suspira um relógio roto na música celestial das marés.

7. Como as levitações dos olhares de perfil, a orgia dos dentes arrecende misteriosamente com as correntes janeirentas cada pergunta.

8. Num puxar incessante de cordas, uma mulher de pernas longuíssimas como chaminés arrisca até o limite sem limites -com as forças de cor peixe verde- umas poucas vitórias azuis.

9. Com luzes de amanhecer, rameiras da lua abafada da noite −e o nojento limão− excretam sem limites.

10. Entre as corcovas dos camelos o mármore brilha covardemente. No vão, a traição.

No Torques, em 8 de outubro (6ª) de 1993, assinamos este deca-texto:
Pedro Casteleiro
Luís Maçãs
Dulce Fernández
Táti Mancebo
Alfredo Ferreiro

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O Grupo poético Hedral reencontrouse n’ Á lus do candil

Grupo poético Hedral na libraría Á lus do candil, de Arteixo (7/12/2012)Levaba un tempo camiñando por esta terra, traballando neste país, criando os fillos como xeracións sen termo fixeron antes ca min e, subitamente, reencontreime con aquel eu mesmo que tiña vinte e cinco anos e profesaba a súa fe na poesía, na vangarda, no anarquismo, no lusismo… Os compañeiros daquela guerra en que loitabamos pola modernidade que nos tocaba construír, contra unha incercia cultural que nos parecía pouco seria, pouco sincera, pouco valente, pouco intelectual, pouco tradicional, pouco profunda e, en denitiva, pouco atractiva e deliberadamente pouco fértil, reuníronse de novo. Percibín como o tempo pasou e, aínda que tolerei os erros doutrora como un avó perdoa e xustifica amorosamente as crianzas, gustei de recoñecer os acertos que da intuición xuvenil chegaron a ser alicerces dunha filosofía que acredita no valor do amor e da arte, que acredita nun país tan forte e tan rico que prefere, máis intelixentemente do que algúns pensamos, aparentar que se deixa levar pola maré, como sen vontade, cando o que desexa é nunca camiñar polo carreiro que lle marcan desde afastados despachos.

Vinte anos pasaron, de guerra íntima e de loita social e, vendo de novo recitar os compañeiros do grupo, revelóuseme que a verdade está noutra parte que nos números do día das eleccións, os números da oficina de desemprego, os números da economía estatal, os números do documento de identidade… A poesía apareceu aquel venres n’ Á lus do candil e a luz fíxose palabra á vez que os números caían derretidos no chao. Os números do latrocinio, cifras dunha falsidade roubada, perante a verdade iluminada da poesía.

Todos os días preciso de ler as noticias políticas e económicas, e todos os días me digo que ler isto é unha tentación malévola que o sistema me ofrece para me contaminar, para que pense que podo mudar algo nesta falsa democracia en que o que o pobo di a ninguén importa, en que o pobo é quen menos ordena.

E cada vez que sucumbo, vexo como o meu corazón se torna escuro, a miña vontade amolece e o desánimo crece en proporción inversa á miña vontade de actuar.

Por iso agora quero dicir que renego íntima e publicamente desa realidade falsa que nos describen a maioría dos medios. Eu non recoñezo máis autoridade que a de quen é autor (cf. Mário Cesariny), e os autores que máis me interesan son os meus amigos, os meus familiares, os meus veciños, as miñas compatriotas, os meus artesaos, as miñas labregas, os meus mariñeiros, os meus xornalistas, as meus profesoras, os meus taxistas, as miñas dentistas, os meus artistas, as miñas escritoras, os meus libreiros… porque día a día son autores da miña vida. Non desexo prestar máis atención ao canto das sereas dun mar que nunca hei de navegar. Eu son de aquí, convosco moro e para vós escribo. E acarón de vós hei de morrer.

Nota: na foto de acima, que me manda Ramiro Torres, figuran (de esquerda e en pé): Alfredo Ferreiro, Luís Maçãs, José António Lozano, François Davo, Pedro Casteleiro, Tati Mancebo, Mário Herrero e Dulce Fernández. O vídeo é de Tati Mancebo.

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