Homenagem a Eugénio de Andrade

Meu amigo F. D.

Vem o amigo e desatende aquilo que não bem tenho para dizer-lhe. Meu amigo é surdo perante quem melhor devia é ficar mudo. O amigo que me queima e me arrasta por uma encosta fascinante que arde.

Meu amigo é fiel, mas eu nem sei a quem. Talvez a uma musa que me elude e me não concede uma baila, ninfeta decorosa que não quer dançar com velhos corações artríticos e falsos.

Meu amigo conhece uma musa misteriosa que num lugar dança em que o tempo não corrompe nem o baile cansa. Meu amigo tem um poder estrangeiro que me assombra e lhe outorga forças estranhas, uma musa que me recusa, que nalgum lugar recôndito se abre como flor e oferece o seu fascínio, uma musa impenetrável, recôndita e próxima que me atrai até ao abandono extremo, me faz caminhar ao luar e esquecer o lugar em que moro.

Meu amigo guarda um segredo profundo. Um segredo que não confessa para proteger de mim o mundo.

*

Em O sol é secreto. Poetas celebram Eugénio de Andrade. Organização: Carlos D’ Abreu, Luis Filipe Maçarico, Pedro Miguel Salvado. Póvoa de Atalaia, Fundão, Portugal: Câmara Municipal de Fundão e Casa da Poesia Eugénio de Andrade, 2019.

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Carral

Um convite da AEC Lacrar de Carral, vila en que me criei, que gustei moito de atender‎ ·

Mártires da Liberdade Carral
Mártires da Liberdade ~ Carral

Cheguei a Carral

colado á roda do carro

do meu pai.

Miña nai facía o almorzo

co leite de Pura

en canto outra Pura

amasaba o pan.

Ese era o eixo

da pureza do Paraíso

cuxo centro era o piñeiral

de augas oleosas residuais.

Ao leste as casas dos Viñas

e ao oeste os Chas,

ao norte o Campo da Capela

e ao sur o alto de Ans.

Territorio amábel e ancestral,

carochas nos xeonllos

sen baixar da bicicleta.

E como lembro

aqueles bicos de verbena

amparados pola Santa

que os tristes socorría

con lúas para os amantes

e para os gulosos empanada!

Ai, Carral, entre fresas e flores

flamante unha cruz de pedra

lembra os Mártires da Liberdade.

Do Barcés á Brexa

e de Paleo a Coiro,

baixo a luz dos astros

medrei sen saber

que rente os meus pés

manaba a forza dun castro.

Ben certo é que ás veces

é preciso marchar

para aprender a amar

aquilo que levamos dentro.

Carral, luz da mañá,

íntimo neboeiro,

camiño de retorno ao centro.

A Coruña, Febreiro de 2019

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“Os aforismos do riso futurista (Autores galegos polo aforismo)”

Os aforismos do riso futuristaOs textos abaixo publicados pertencem ao livro Os aforismos do riso futurista (Autores galegos polo aforismo), coordenado por Francisco Pillado e Xavier Seoane (Edicións Xerais, 2017), e composto polo contributo coletivo de 48 autores.

1. A audácia é a supérflua genialidade do nosso tempo

2. A moda é a esteira das mentes criativas

3. Os sonhos são uma realidade difícil de assumir

4. Para alguma gente a vida divide-se entre dinheiro e hipóteses de negócio

5. Neste mundo tudo se repete de um jeito distinto cada vez

6. A vida consiste em sucessivas mutações do amor

{Palavra Comum}

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Na esteira de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro

Sefer Sefarad, livro de Pedro CasteleiroNa apresentação de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro, os poetas Alfredo Ferreiro, Táti Mancebo e Ramiro Torres leram textos próprios inspirados num poema do livro apresentado. O ponto de partida foram o verso “Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes”, pertencente ao poema «A casa vazia». Ei os poemas recitados pelos amigos do autor:

Traição a Pedro Casteleiro

Nossa casa cheia de vozes
enterradas nas paredes.
Nossa casa de torrões,
de minhocas e verdades
perseguidas por toupeiras
cegadas pola razão
de seus dentes e suas garras.

Nossa casa lua cheia
de sonhos e serpentes.
Nossa casa oráculo mudo
de vozes que se prostram
e se erguem
sobre a terra que não dorme
que nos vela e não se rende.

Nossa casa cheia de nozes
penduradas das paredes.
Nossa casa de chocalhos,
amores que nunca morrem,
música que não perece.

Alfredo Ferreiro. Arteijo, 7 novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes,
plena de um vazio sem pausa
quebrando os espelhos desde dentro,
na distância infinita de toda razão
que não se expanda como a luz
no interior dos músculos abertos:
eis-nos, entranhados e estrangeiros,
cavando no invisível com as mãos
em carne viva, avançando no eterno
habitado como pura palpitação do real.

Ramiro Torres. A Corunha, 5 de novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes
Som de rocha, som de telha
Som tamém no fundo de uma botelha
Som de auga: pinga, pinga
Som de palha: malha, malha
Som de fume: lume, lume!
Som de branco, som de azul
O silêncio num baú
As serpes do dessasossego som
Requeixo abaixo ao lodeiro vou
Som de sonho, som de sono
Som de aqui, que aqui não tenho trono
que soe o som
Toc-toc
Som eu
Quem som
Eu som
O som.
Táti Mancebo. Arteijo, 7 de novembro de 2015.
*
Nota: O evento decorreu na “Librería AZETA”, da Corunha, a 8 de novembro de 2015. Participaram, para além destes poetas e de Pedro Casteleiro, Estefania Blanco e Tito Calviño, voz e guitarra respetivamente.
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Pela tolerância ortográfica

A Teresa Barro

Cansado de escrever assim ou assám
com letras de cá ou de lá
concebo a ideia de escrever
com os dedos cheios de merda.
Escrever um poema
que cheirasse como uma bubela,
as fístulas explodindo
e os vómitos rarefeitos da cultura
que nos foi dado sorver
a causa das marés poluídas
das políticas nacionais,
dos negócios da política,
esgotos em que os poderosos
deitam as luvas depois de mexer
os intestinos larvados da pátria.
A pútrida pátria
que sob uma bandeira erradica
a liberdade, a democracia e a arte
gostava que morresse de vez.
Numa nova mátria
galega, portuguesa e ibérica
é que devíamos renascer.

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Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Read More

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