Haiku sobre a violencia machista

Haiku de Alfredo Ferreiro

{in “Libro do Mal Amor V”, vía Trafegando Ronseis}

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“Vibrações iluminadas”, por Ramiro Torres

 

I
Abraçar o desenho
orgânico do universo
em coito demorado
até esvaecer entre
fendas impensáveis:
o trabalho do poema é
obscurecer as mãos
da realidade até achar
o fulgor emergido do
invisível entre a luz
convulsa dos amantes.

II
Inauguram-se cosmogonias
nesta lâmina iridescente
aventurada na noite:
preparamos incêndios
entre os nossos olhos
e o existente, confiamos
no sonho que nos devora
e dançamos sob a terra
transparente que agacha
pupilas desnudas, como
ruas de um universo em
feroz expansão sobre nós.

III
Somos terra hipnótica,
arcano nascendo como
desenho aberto no meio
do poema em ignição:
trabalhamos no íris do
coração como videntes
à procura do sol líquido,
onde o vulcão vibra no
ser como vertigem a
fremir corpos adentro.

 

Confraria do Vento

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«Transformação», por Ramiro Torres

Para Miguel, Xavier, Moncho e Xulio, em nova fraternidade

Resides no obscuro que
ilumina o saber-te aqui,
música gravitante sobre
os olhos desarmados no
absoluto a fluir como rio
dentro de nós, neste lado
do existente submersos
na serena transmutação
do tempo em oceano,
suspendendo-te no abraço
primeiro da memória e o
desenho zenital do saber.

Maio de 2014

 

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Texto colectivo: cadáver exquisito

Nesta fermosa terra finxían os campos verdes
A noite estrelada plantaba allos e fabas cos cabelos ao vento
Cabalos estrambóticos faciamos que non viamos como lume violeta
En la fiesta de cumpleaños trabajaban y reían sangrientas guerras

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Elipse, revista literária galego-portuguesa

Vivemos tempos de incerteza devido ao rijo desamparo a que nos sometem os poderes fáticos, mais comprometidos com a gestão privada dos bens públicos do que com uma democracia digna de tal nome. As gentes sofrem e calam, choram e calam, trabalham por menos e vem minguar o pão na mesa, e por enquanto ainda comem e calam. Permanecemos aturdidos por uma triste realidade imposta desde a cima, como se de uma aterragem extraterrestre se tratasse, enquanto persistem inércias de cómodas épocas que logo haverão de virar tópico de papel couché, inércias que nos imobilizam enquanto a nossa sociedade, aquela que nos deu as merendas e nos mandou à escola, é arrastada pela corrente.
Mas à par disto outras vontades põem-se em marcha e uma nova esperança floresce no campo que pisamos desde há  milhares de anos. É o caso da revista literária galego-portuguesa Elipse, a que damos a benvinda e que já vimos de assinar por três números:

«O primeiro projeto de Círculo Edições é lançar uma revista literária que sirva de ponto de encontro para aquelas pessoas que desfrutamos com as diferentes formas em que se manifesta a arte de manejar a língua. Publicaremos três números por ano (em fevereiro, junho e outubro), em formato digital (epub e PDF) e em papel.
Os conteúdos serão variados: incluem a poesia, o relato curto, o ensaio e traduções. As secções corresponderão com estes conteúdos.
Ademais de estas secções variáveis programamos duas secções fixas. Uma dedicada a um autor ou a uma autora, que será proposto pelo Conselho Editorial e uma outra dedicada a um clássico da literatura galego-portuguesa como homenagem e em memória do nosso passado comum».

Mais informação no web da editorial.

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“A vespa solar”

Há uma vespa de luz
a percorrer uma ilha que voa
no suspiro de uma ninfa a sonhar.
Uma vespa solar
nas estrelas florais do sonho.

Alfredo Ferreiro. Malhorca, 2011.

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Para o Márcio-André, este poema radioativo-irradiante

O poeta acorda nas
palavras estalantes,
caminha por jardins
pulsando corpo adentro
como galáxias iniciais:
esquecido o seu nome,
lança-se a um oceano
inextinto até saciar a
sede de céu irradiante
que sonha sob os olhos
de espuma imemorial.
Sabe arder à noite,
atravessando a janela
impossível sobre
a dança do universo,
entusiasmado pelos
corpos que se decifram
e descobrem como
luminosidade entrante no
magma do vazio inebriado.

Ramiro Torres. Julho de 2013

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Amadeu Baptista vence XXIX Premio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante? […] Ler mais

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A pupila ardente

Acode, ó mar salgado, depois lembrarás a traição da náusea. Ama-me como o vento estilhaça uma pola seca até ser una com a terra. Mas não gostes do gelado da primavera. É o perigo da janela acesa.

Desfaz a pele para te lembrares da carne. O lótus das mil pétalas cresce nos olhos. Um beijo que foge da meixela como o ar que alouminha uma mão baleira. O cigarro acende o sonho. Nós próprios somos a pedra.

Os óculos impedem-nos ver. Sangra um olho cego na tua mão. Então, só então, destapas o lume. O quadrado do tempo. Ou a sombra das minhas mãos a rabunhar a pupila ardente.

Grupo Hedral. No pub El Siglo da Corunha, 1994.

{Grupo Surrealista Galego}

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Para unha biografía de Ramiro Torres, auténtica

Ramiro Torres por Gabriel Ferreiro (2013)Probabelmente algúns de vostedes non o saberán, mais o autor de Esplendor arcano, Ramiro Torres, é unha persoa singular desde o día en que chegou ao mundo.

O día que Ramiro naceu a súa nai estaba calma, tan asombrosamente calma que parecía querer parir como quen se dedica a unha actividade plácida, como quen non ten présa por acabar o choio e prefire andarse polas ramas. Tanta fama atinxiu esta actitude natalicia, que desde ese día o “estilo ramírico de nacer” figurou nos anais da Obstetricia.

No entanto, os prodixios non se cinguiron aquel día á área da ciencia médica, senón que algúns sucesos milagrosos houberon de colorir o seu nacemento co tinte dos elixidos: a matrona que o atendeu, nai confesa de tres cachorros, recuperou no acto a súa virxindade; e o xinecólogo que apañou o corpo de Ramiro para que non se magoase cando tombou no frío e luminoso mundo, nunca máis precisou de facer a manicura pois os seus dedos permaneceron delicados e suaves por sempre, para delicia de familiares e pacientes.

Ramiro Torres por Gabriel Ferreiro (2013_2)Si, señoras e señores, a abrupta experiencia do nacemento humano foi para Ramiro Torres unha doce caída polo tobogán da vida, e esta sabedoría, como os seus amigos sabemos, tamén afecta aos que rimos con el, aos que traballamos con el e aos que lemos os seus versos. Por iso a publicación de Esplendor arcano nos produce tanta emoción, porque recoñecemos un estilo propio, o ramírico, co que este libro foi parido, e mercé ao cal semella ter saído do prelo como por elevada e arcana predestinación, como un deses acontecementos que mudan o rumbo da Historia e que, se coñecésemos as antigas artes, saberíamos ver escritos no firmamento.

Hoxe é un día histórico porque podemos comprobar coas nosas mans e cos nosos ollos, en negro sobre branco, que acaba de nacer unha das potencias poéticas da época.

Deamos grazas á musa, e que a todos nós inspire. Amén.

Nota: Este texto foi lido na presentación de Esplendor arcano en Portas Ártabras, en 25 de xaneiro de 2013. As fotos son de Gabriel Ferreiro.

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