Nova lei

Dissecar um corpo para abri-lo como um estandarte, eis a última recomendação da Associação das Facas Unidas. É preciso liberar-nos da opressão das costelas, uma prisão de osso derivada duma reminiscência calcária demasiado antiga e falaz. Não precisamos esses espartilhos antediluvianos, assim que procedamos já. Quem tiver sua faca pronta, não deve aguardar mais; quem não, consulte seu farmacêutico ou seu sacerdote, ao mesmo dá, mas nunca tome suas decisões só. Lembre: seu corpo não lhe pertence e deve dar graças pelo fato de o poder usar. É a Lei do Livre Comércio de Cidadãos.

{Grupo Surrealista Galego}

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“Vibrações iluminadas”, por Ramiro Torres

 

I
Abraçar o desenho
orgânico do universo
em coito demorado
até esvaecer entre
fendas impensáveis:
o trabalho do poema é
obscurecer as mãos
da realidade até achar
o fulgor emergido do
invisível entre a luz
convulsa dos amantes.

II
Inauguram-se cosmogonias
nesta lâmina iridescente
aventurada na noite:
preparamos incêndios
entre os nossos olhos
e o existente, confiamos
no sonho que nos devora
e dançamos sob a terra
transparente que agacha
pupilas desnudas, como
ruas de um universo em
feroz expansão sobre nós.

III
Somos terra hipnótica,
arcano nascendo como
desenho aberto no meio
do poema em ignição:
trabalhamos no íris do
coração como videntes
à procura do sol líquido,
onde o vulcão vibra no
ser como vertigem a
fremir corpos adentro.

 

Confraria do Vento

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«Transformação», por Ramiro Torres

Para Miguel, Xavier, Moncho e Xulio, em nova fraternidade

Resides no obscuro que
ilumina o saber-te aqui,
música gravitante sobre
os olhos desarmados no
absoluto a fluir como rio
dentro de nós, neste lado
do existente submersos
na serena transmutação
do tempo em oceano,
suspendendo-te no abraço
primeiro da memória e o
desenho zenital do saber.

Maio de 2014

 

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