Poeta apesar de si. Sobre a obra de Tiago Alves Costa

Žižek vai ao ginásio de Tiago Alves Costa

Žižek vai ao ginásio (Através Editora, 2019; prólogo de Teresa Moure), último livro de Tiago Alves Costa, semelha pertencer a um género híbrido, por vezes versos que contam, por vezes prosa poética, histórias encavalgadas a trotar pelos poemas dentro, poemas a florir em contos fora do tempo, por entre as ramas da ancestral e à vez moderna Verdade, essa despida indecorosamente humilde que enfrenta sem cessar a nossa arrogância. Não é uma característica nova, pois já ressaltava no seu primeiro livro, WC constrangido (Grupo Criador Editora, 2012; prólogo de Manuel Eiroa), peça de delicada ternura e estética subtil, a meio caminho entre o arrebato filosófico e humor negro surrealista. Sua segunda obra, Mecanismo de emergência (Através Editora, 2016; prólogo de Carlos Taibo) já tinha explorado a implícita crítica social, assim como um permanente tom lúdico, em ocasiões declaradamente parateatral, que não pára de se internar no existencialismo e até no niilismo. Os versos aqui já mostravam uma medida diversa, mas sem deixar de repenicarem com uma sorte de ritmo que nasce do paralelismo ou da reiteração de vozes ao longo do poema.

Mecanismo de emergencia, de Tiago Alves Costa editado por Através

Realmente há muito surrealismo nas ironias do Tiago, na anedota burlesca e onírica que procura o sentido da vida através da olhada tangencial. Um pensamento divergente, porque autenticamente poético, que inclui o Mistério como elemento necessário, e que deseja a surpresa que se produz quando um tesouro oculto no nosso íntimo é revelado como por acaso, como se a musa tropeçasse com uma pedra brilhante que ninguém sabia que estava aí. Estamos então perante um brincar sagrado e sapiencial, nas doses exatas em que humor e a alegria conduzem à luz do autoconhecimento, por vezes chamado de loucura pelo Sistema e seus sequazes. Se bem em todo Žižek vai ao ginásio a sociedade está presente, isso não converte a obra em poesia social, dado que o indivíduo é o autêntico protagonista, chegando a ser oposto a uma sociedade abstrusa, pacata e ruim que, no melhor dos casos, é insensível. Um indivíduo que por vezes é também poeta, como se ser-se poeta fosse bem uma ousadia bem uma enfermidade crónica impossível de ocultar. Aliás, ser poeta não é bem ter um ofício. É ter a consciência de que resulta impossível ganhar a vida sem assumir o risco de perdê-la a cada verso, em cada inspirado relâmpago com que a musa atravessa um coração que estoura em felicidade e pavor. Ser poeta, já sabíamos, não dá de comer, no entanto alimenta uma fome que pouca gente vê e que não deixa de crescer.

Poderia dizer-se ainda que o livro tem um algo de obra de auto-ajuda, que nos marca o sonho, por libertário tão próximo da infância, como via de conhecimento. Que trata o feminino como chave para a mais profunda sabedoria, um sentido do feminino que transcende as épocas e os sexos, vinculado a uma matriz do telúrico e do ancestral. No mesmo sentido, também nos relata esta obra de que modo a vida superficial, aquela que nos indica o compromisso com um ofício ou uma determinada função social, não nos ajuda a achar um lugar no mundo, um lugar que possamos considerar como realmente próprio. E que só através primeiro da rebelião e logo da revolução interior, poderemos colocar o Eu num lugar propício para a nossa libertação, para sairmos enfim da normalidade de ser nervosos sempre, num mundo em que faltam os abraços e a tristeza sempre é maior. De toda a obra do Tiago conclui-se que o poeta é apesar de si próprio. Porque escreve contra si mesmo, desde uma insatisfação alimentada com carne própria. Mas o poeta não é sua imagem, por crua que possa parecer. O poeta real é invisível, e fica oculto trás a luz dos poemas que, eles sim, poderão sempre sobreviver. Ainda mais: acabar um poema implica sempre uma pequena morte, e começar um verso é um novo renascer.

* Nota: Recomendo emocionado os video-poemas de Roi Fernández sobre as últimas obras do poeta:

fernandez_alonso_04_mechanism from Roi Fernandez on Vimeo.

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Foto: Tiago Alves Costa por Alberte Sánchez Regueiro

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{Cf. Palavra Comum}

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«Sobre Teoria das ruínas», por Tiago Alves Costa

“Não há poema sem acidente; sem ferida, não há poesia nem arte”

Derrida

A linguagem poética de Teoria das Ruínas, de Alfredo Ferreiro, lembra-me um rio: sempre a arrastar e a apagar tudo e, ao mesmo tempo, sempre pronta a receber todos os destroços, todos os reflexos humanos. Sempre pronta a despenhar-se no abismo e a reflectir essa queda. É sem dúvida o que mais me interessa na poesia: obstinação, logo violência, logo absurdo; a procura de um aparato verbal que não se destine à figurabilidade, ao mimetismo do real, à subjugação, às formas de poder que se manifestam sempre de maneira totalizante dentro de um discurso normalizado. Nestes poemas encerra-se uma dolorosa surpresa que inaugura no leitor um espaço de pura metamorfose do tempo; ramificações e vórtices, um caminho na floresta que não foi sujeito ao mapeamento racional, palavras-espanto. Só há um tempo possível dentro do poema e ele é o metamórfico; porque o poeta sabe que só ele se pode opor à passagem da vida e da própria morte, só ele pode ser uma linha de fuga à banalidade das coisas, à avareza de espírito, ao deus da economia que pende sob as nossas cabeças como um machado. Porque o tempo desta poesia ilumina todos os instantes, mas não se fixa neles: queima-os, derrama-se como ácido sobre as imagens que quer construir, e nesse construir destrói, destrói sem cessar.

Teoria das ruínas de Alfredo Ferreiro

Chateaubriand, escritor e político, juntamente com os românticos da sua época afirmava que as ruínas serviam de escala para medir o tempo. Através delas regressavam ao passado e viam tudo o que tinham perdido. Hoje em dia talvez vivemos de novo sob essa sombra da perda, (os centros comerciais, por exemplo, já são hoje as ruínas espirituais de um futuro demasiado presente) o tempo hoje é o da selfie, do polido, do liso, do tempo sem distância, sem carácter e sem respeito, o que faz com o que o corpo soçobre, entre numa profunda crise de vazio; neste consumo voraz de imagens perdemos a negatividade do diabólico, do sinistro ou do terrível. Para Adorno, a negatividade do terrível é a essência do belo; o belo não é um imagem, mas um escudo. E talvez por isso, neste Teoria das Ruínas, há uma espécie de sublevação do espírito que se erige sobre o seu próprio tempo, sobre a barbárie; para isso serve-se de uma alternativa rítmica de presença e ausência, de encobrimento e desvelamento, e mantém assim o leitor desperto no olhar.

A sensação com que ficamos é aqui a poesia resiste à transparência, resiste à interpretação, mas desencadeia o desejo, não é essa uma das funções vitais do poema? E não só se supera o desejo identitário, como se perde no anonimato, provoca uma demolição do eu, esse eu que é hoje pobre em formas de expressão estáveis, que não possui consistência, que se transformou num narcisismo negativo. É pois nesse lugar longínquo, de nós mesmos, ignoto, onde nos deparamos com o irrepresentável, o impossível de ligar, as irrepetíveis fulgurações, os despojos, os demónios, a palavra-carne, e que, ao mesmo tempo, sobre esses escombros o lamento e a meditação melancólica do que se perdeu, nos deparamos com o tempo do outro, dos Outros, desenteriorizando-nos e fazendo com que renunciemos à nossa posição egoista no mundo. E o poema ao libertar-se desta necessidade de lógica e das prerrogativas do discurso racional integra o novo, o ambíguo, o anacrónico, o estranho, o que não se constrói com total transparência e cujo sentido pode ser apreendido de imediato. Porque só assim ele poderá ser acontecimento, acontecimento da verdade que define de novo o que é real. Um lugar que gesta, recebe e incarna a vida conferindo ao ente sentido e significado. E enquanto acontecimento da verdade, o belo é generativo, fecundante e ainda, por fim, poetizante. E então surge a imagem inaugural desse rio, o rio deste livro, onde para mim se manifesta na sua perfeição o dom do belo, esse silêncio a partir do qual a natureza fala.

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Texto lido na apresentação de “Teoria das Ruínas” de Alfredo Ferreiro Salgueiro, na Feira do Livro de Braga, 2019.

{Tiago Alves Costa; Revista Palavra Comum}

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«Das ruínas do mundo às minas do ser», por José António Lozano

(Sobre a Teoria das Ruínas de Alfredo Ferreiro Salgueiro)

“Escrever poesia não tem nada a ver com o número de livros que você leu ou o conhecimento que temos sobre a escrita. Em vez disso, como gotas de água transportadas por ondas do mar que saltam fora das rochas, são os sentimentos espontâneos que surgem a partir de matéria externa e pensamentos internos”

(Palmo, poeta tibetana contemporânea)

De um fragmento tecemos uma totalidade em aberto e o propósito do poema surge da sua ressonância, a significação expande-se como as ondas das águas em que caiu uma pedra. Uma pedra atirada do nosso próprio coração. E aquilo que pensamos atirar longe, muito longe de nós, ressoa na nossa consciência, explode no interior da nossa própria recordação. Pura lei física de ação e reação. Lembremos, pois, este princípio.

A leitura de Teoria das Ruínas [Poética Edições, Braga, 2019] obriga-nos a pensar e repensar desde uma consciência lúcida, interrogativa, meditativa. A poesia não é aqui um luxo estético nem uma comprazente palavra de beleza arcádica. Não. Constitui a beleza áspera de uma palavra arrancada ao corpo, à conflitiva e paradoxal contradição de uma existência viva que se acha arrojada a um mundo muito longe de um ideal de liberdade e justiça que o poeta leva como missão íntima, como promessa e palavra da condição poética. As ruínas são sempre esse “mundo” onde o ser humano mora. Uma deslocação do mundo da cultura, da morada humana ao âmbito da “natura”, mas no sentido de uma barbárie, de uma degradação em que os objetos se aproximam, perdendo também a sua humanidade.

Pode ser assim? Só até certo ponto. O poeta sabe das ratas que ecoam entre as ruínas do ser e do mundo:

São escuros animais que roem / a madeira em que talhamos a consciência / percebem as fendas da solidão, / entram pelos buracos da confiança / e envenenam os poços do amor.

O poeta sabe das moscas que zoam e, provavelmente, zombam dele no recanto do café, das suas amargas contradições que docemente sorvem. Mas o poeta sabe também outras cousas. E aquilo que o poeta sabe é uma forma de interrogar e uma maneira de conduzir a sintaxe que produz faíscas e paradoxos, que é capaz de introduzir uma ordem dilacerada. Alfredo Ferreiro constrói estrofes, versos, poemas sobre a base de uma enunciação direta, quase narrativa, mas sustentada numa luminosa cascata de metáforas surpreendentes. Que quer dizer isto? Há uma proposição continuada de sentidos, uma narração, como um conto. Há também uma sabedoria nascida da observação apurada que se mostra ousada, elevando-se em metáforas que transformam a simples facticidade do mundo. Nesse jogo, nessa dialética entre a intimidade e as ruínas do mundo, entre o possível e o impossível, a poesia emerge como uma lança que trespassa os limites e vai além de esse dualismo. De este jeito, o mistério e o enigma do cosmos, da nossa vida, da nossa existência está presente. Não se trata de uma exaltação da mesma ou da construção de um tema, mas uma presença cúmplice que irradia a leitura dos poemas cheios de uma metaforização rica, presente quase em cada verso, transformando-se, metamorfoseando-se. Há uma evolução do mundo na semente da palavra e um processo cósmico na consciência do poeta. Assim:

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A inefável contradição de José Saramago (apontamentos à volta do processo criativo)

José Saramago, por Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui)

Em verdade é ousado vir aqui falar da contradição de um mestre como José Saramago, eu sei. Mas é para a ousadia que nestes dias, como sempre, nos convoca a Festa Literária de Chaves. Porque, não cabe dúvida, é o medo que devemos enfrentar se queremos seguir o ensinamento de um mestre. Para assim acharmos um dia o nosso caminho.

Na conferência A estátua e a pedra, o nosso autor diz:

«Mas a verdade é que eu duvido mesmo que se possa falar de literatura como duvido que se possa falar de pintura ou que se possa falar de música […]. E é como se eu desejasse que tudo acabasse por limitar-me a uma contemplação muda pela consciência que eu tenho de que, de uma certa maneira, em todos estes domínios da arte da literatura, estamos lidando, estamos tentando relacionar-nos com aquilo a que chamamos desde há muito tempo o inefável. O inefável, uma vez que é inefável, é o que não pode ser explicado, é o que não pode exprimir-se, havendo em todo o caso o cuidado de, a partir disto, não cair em ideias de carácter transcendente onde tudo encontraria uma explicação que seria exactamente não ter explicação nenhuma.»

Saramago não deseja “cair em ideias de carácter transcendente”, e reconhece entrar diretamente no terreno da contradição. Segundo as suas palavras:

«Esta atitude não parece racional, porque não parece racionalista uma contradição à primeira vista e é uma contradição numa pessoa que se considera a si mesmo racional, quer dizer que eu tento fazer passar tudo pela razão. Isto não quer dizer que eu tente também fazer passar pela razão os sentimentos que vivem ao lado da razão, embora não haja grande migração de um lado a outro […].»

Com certeza, afirmar um escritor que a literatura trata sobre o que não pode ser exprimido com palavras é uma contradição tamanha. Porventura, não é a literatura a arte que se exprime através das palavras? Mas a literatura acontece, e até há pessoas, por exemplo o Saramago, fazem desta atividade criativa a sua vida e até têm o máximo reconhecimento mundial. Como é isto possível? A resposta a esta pergunta está na vida do homem, mas não no que ele diz.

Acho que José Saramago tentou, mais do que realmente foi, ser racional. A razão impõe uns limites muito rijos para enfrentar a vida, e como a literatura é um modo permanente de nos aproximar aos mistérios vitais, esta constantemente excede as fronteiras do racional. O escritor reconhece outros planos quando referencia o Fernando Pessoa (o sentir ao lado do pensar), mas para ele funcionam como opostos: «Enfim reportando-nos a um verso do Fernando Pessoa quando ele dizia “O que em mim sente está pensando”, eu propunha que esta frase, no fundo mais um jogo de palavras dos muitos com que o Fernando Pessoa se entretém e nos entretém, em vez de dizermos “O que em mim sente está pensando”, e parece que há de facto uma tendência nessa direcção, talvez devêssemos dizer “O que em mim pensa está sentindo”.» Pelos vistos, não só reconhece dois PGLplanos, senão que entende que o racional está por cima do sentimental. Isto é coerente com se reconhecer racionalista, mas tenho para mim que o discurso a seguir demonstra bem o contrário.

Continua a relatar o seu percorrido literário do seguinte modo: «Acontece que, tendo eu começado a minha vida literária muito cedo, uma vez que aos vinte e cinco anos publiquei um romance que não é bom e que só vinte anos depois voltei a publicar, isto leva muitas vezes algumas pessoas de boa vontade a perguntarem-me se decidi ficar calado durante vinte anos para ganhar experiência, para depois começar a trabalhar com mais seriedade. E eu sempre digo que não, porque ninguém tem a certeza de viver mais vinte anos e seria absurdo dizer “Vou agora esperar vinte anos”, como se os tivesse garantidos para depois disso começar a escrever com mais seriedade. Não foi assim e de resto toda a minha vida foi feita sem planos, sem projectos, sem estratégias, sem definir caminhos para chegar a determinados objectivos e isso tem que ver também e talvez sobretudo com a minha própria actividade literária.»

Saramago partilha aqui a sabedoria do mestre sufi Idries Shah, quando diz que vivemos apoiados em pseudocertezas, e a maior delas é que amanhã seguiremos vivos. Mas estima que o pensamento, quer dizer, a atividade cerebral, é superior ao coração, isto é, a vida sentimental. E aqui é quando o seu próprio relato vital e literário ressalta de modo evidente o pouco racional que na verdade era Saramago:

«Verdadeiramente eu nunca tive projectos na vida, há que deixar isto bastante claro e quero demonstra-lo desta maneira. Se eu, em 1976, quando eu escrevi, quando eu estava a escrever o Manual de Pintura e Caligrafia, tivesse escrito num papel aquilo que eu gostaria de vir a fazer, encontrar-me-ia com uma página branca, quer dizer, teria uma página branca que não seria capaz de encher porque eu não tinha projectos nenhuns para o futuro. Ao contrário de Balzac, e quando eu digo Ao contrário de Balzac é ao contrário em tudo, claro está, e mesmo ao contrário de, por exemplo, Fernando Pessoa, que tem listas, que escreveu listas de obras a realizar, eu nunca tive aquilo a que se chama A Obra a Realizar.»

Então, permitam-me perguntar agora: através de que sorte de racionalidade a sua obra conseguiu florir? Vejamos como lembra a composição de vária das suas obras:

«O Memorial do Convento nasceu duma circunstância fortuita e que eu posso contar-vos em meia-dúzia de palavras, que um dia, estando eu em Mafra, com algumas pessoas que me acompanhavam, ou a quem eu acompanhava, e estando diante do convento, os que conhecem o Convento de Mafra sabem que é uma coisa imensa, enorme, e eu disse em voz alta “Gostaria um dia de pôr isto num romance”. Provavelmente se eu não tivesse dito em voz alta, se eu tivesse pensado e calado, a própria dimensão da tarefa provavelmente intimidava-me tanto que eu não tinha escrito o livro. Só que ao pronunciar em voz alta aquilo que eu tinha pensado duma certa maneira senti-me obrigado perante as pessoas que me tinham ouvido que inevitavelmente me iriam perguntar “Então, sempre escreves o romance sobre o Convento de Mafra?”»

«O Ano da Morte de Ricardo Reis foi publicado em 1984, mas a verdade é que a ideia do Ano da Morte de Ricardo Reis é anterior ao Memorial do Convento. O que acontece é que, enfrentando-me com o Ricardo Reis, que é a mesma coisa que dizer enfrentando-me com o Fernando Pessoa, entrou-me um tal pavor, um tal medo de desafiar as iras dos especialistas do Fernando Pessoa, eu que não tinha diplomas nem atributos nem méritos conhecidos para me meter nesse mundo pessoano, que, tal como terá dito outro, Afastai de mim esse cálice, eu disse-me a mim mesmo, Afasta de ti essa tentação.»

A História do Cerco de Lisboa defende «que os cruzados não tivessem efectivamente ajudado os portugueses a conquistar Lisboa. O que é que o autor que sou eu desta confusão toda, porque reconheço que para um leitor desprevenido, o leitor confunde-se nestes diferentes planos narrativos, quis dizer com isto? Também o autor não tem obrigação nenhuma, nem provavelmente se lhe deve pedir, perguntar o que é que quer dizer com isto. Mas como estamos aqui justamente para falar do que se fez e do porque se fez, então aquilo que eu pretendo dizer é precisamente o contrário daquilo que faria o romancista histórico. O romancista histórico faria romances históricos, e com este livro que aparentemente é o mais histórico de todos, o que eu quero dizer é que a verdade histórica não existe.» Então, escreve esta obra para dizer que a verdade histórica não existe? Onde o racionalismo? Ele até afirma:«A verdade histórica, não é que ela não exista, mas provavelmente existe num lugar inacessível, onde não é possível chegar.» Se não é possível chegar, nunca ninguém terá podido escrever certo sobre a verdade histórica, não é?

E continua assim:

«O Evangelho segundo Jesus Cristo, que é um livro que causou muita polémica e que é responsável por eu estar a viver em Lanzarote, é um romance que pelos ecos que me chegaram foi lido em Israel com uma atenção extraordinária devido, digamos, ao próprio carácter humano da figura de Jesus, profundamente humano, totalmente humano. É um livro que eu não projectei, nunca, nunca me passou pela cabeça vir a escrever uma vida ou reescrever uma nova vida de Jesus havendo tantas e tantas de todo o tipo desde as insultuosas às interpretações malévolas, às críticas ferozes ou pelo contrário ao mais comprometido do ponto de vista do dogma. Enfim, sobre esse pobre homem tudo se disse e portanto parece que não fazia falta um livro mais. Simplesmente eu fui obrigado pelas circunstâncias a escrever esse livro, e as circunstâncias foram estas. Estando eu em Sevilha, e aqui estas coisas ligam-se todas, quer dizer, eu estava em Sevilha com a minha mulher, minha mulher é sevilhana, eu não estaria em Sevilha nessa altura nesse momento se eu não tivesse casado com ela, portanto o livro O Evangelho segundo Jesus Cristo escreve-se porque nós nos encontrámos, escreve-se porque ela era de Sevilha, escreve-se porque eu atravessei uma rua naquele momento determinado, porque sem isso não haveria Evangelho segundo Jesus Cristo. Da mesma maneira que também, enfim, isto só é importante para nós, se nós nos encontrámos e nos casámos foi porque ela leu O Ano da Morte de Ricardo Reis. Portanto há aqui uma ligação entre vida e obra que passa até enfim pela intimidade mais extrema. Ora bem, estando eu em Sevilha e atravessando uma rua na direcção dum quiosque de jornais, olhando em frente porque o trânsito vinha dum lado e doutro e enfim eu tinha de atravessar com bastante cuidado mas olhando em frente e ao lado eu leio, e peço que acreditem naquilo que eu vou dizer, leio distintamente no conjunto de jornais suspensos e de revistas que caracteriza qualquer quiosque de venda de jornais e de revistas, leio distintamente em português O Evangelho segundo Jesus Cristo, Em português, ainda por cima, em português. Passei, atravessei a rua, continuei a andar, dez metros adiante paro e digo, Isto não é possível, mas enfim para saber se era possível ou não voltei atrás para verificar e o que eu vi foi que nem estava Evangelho nem em português, nem em espanhol, nem em italiano, nem de forma nenhuma, não estava nem Jesus, nem estava Cristo. Quer dizer, eu tive uma, não é uma alucinação, não, não vamos pôr a questão assim, eu tive simplesmente uma ilusão de óptica. A outra hipótese é que Deus tenha querido que eu escrevesse este livro e portanto colocou ali miraculosamente, foi um milagre, as letras que depois desapareceram.»

Isto que ele descreve como ilusão óptica também se podia chamar de revelação, ou ao menos de visão. O nosso autor pretendia é ser racionalista e “não cair em ideias de carácter transcendente”, assim que preferia falar em termos exclusivos da Física e da Anatomia. Entendia que a literatura tem o seu alicerce no inefável mas penetrar neste assunto era metafísico demais. Ele gostava de escrever e assim, pragmática antes do que teoricamente, o cometido mais profundo da literatura tinha lugar como um milagre que pode ser vivido sem necessidade de o exprimir.

Saramago retratou a sua família reconhecendo que a sua “atitude de espírito” lhe rogava para que atuasse como vassoura da memória, uma atitude que significava ressaltar através da arte escrita o valor humano da gente que ele amava. Sendo sua humanidade um farol que se erguia por sobre a sociedade para iluminar o melhor dela própria.

Reconhece também que os personagens que ele criou foram os seus mestres de vida, os que mais intensamente lhe “ensinaram o oficio de viver”. E este facto só é possível se entendermos função do escritor como o de um médium, alguém que possui o conhecimento da vida no momento em que por ele passa e só através dele se traduz em literatura, entrando pela cabeça de não sabemos quais ignotos arquivos humanos, sendo providos no coração de emoções universais e ornamentados no cérebro por quaisquer artifícios mais ou menos retóricos, para em fim ser vertido através dos dedos para uma caneta e um papel.

Portanto, essa reconhecida contradição não foi um defeito, não foi um erro, pois foi definitivamente resolvida escrevendo, criando, deixando que toda essa humanidade que ele possuía fosse harmonicamente florescida na comunicação com o outro, deixando o seu coração governar a razão e se abrir passo por entre as sombras do mundo, iluminando mediante a arte aquilo que a musa, tão impossivelmente racional, lhe dizia ao ouvido.

Concluo, portanto, que é difícil ser-se artista e se não ser espiritual. A razão disto ─sejamos ao menos um bocado racionalistas─ é facto de o inefável constituir a essência da arte. O mestre falou e tinha razão, muito embora fosse contraditório. Se calhar, não é possível a arte se não assumirmos essa fulcral contradição. Porque o paradoxo pode bem ser, no fundo, a mais velha expressão poética do inefável.

*

Notas: Palestra de Alfredo Ferreiro Salgueiro na mesa “Reflexões à volta de José Saramago” ~ III Festa da Literatura de Chaves (14 a 17 de novembro de 2018); Cf. “Uma conversa com José Saramago”; Caricatura de Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui).

{Palavra Comum}

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Plantar Rosas na Barbárie, por Luís Serguilha

«Plantar rosas na barbárie», poesia da falésia

«Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se eternize, já que cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação… já que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu, sozinho contra a humanidade».
Lautréamont, Cantos de Maldoror

Plantar Rosas na Barbárie, por Luís SerguilhaTodos o poemas do livro de Luís Serguilha semelham um único objeto mutante, como que evidenciando as inúmeras perceções que experimentamos do mundo. Há nesta obra um combate contra a moral poética, um desacato ao sentido institucional do verso, e não só da perspetiva formal – por escrever poesia em prosa – , mas também quanto ao sentido percebido, que se torna um autêntico e constante torvelinho semântico. E há até um combate frontal contra a Academia e seus carros de combate, quer dizer, os géneros literários. Devido a isto, já nos atrevemos a vaticinar que o sucesso crítico não vai vir dos âmbitos mais institucionais, ou o que é o mesmo, das retículas clientelares do sistema literário.
Porque Plantar rosas na barbárie implica uma reflexão profunda sobre a nossa perceção do mundo e, neste quadro, mediante a amostra de tantas relações em convívio louco e frutuoso, defende a impossibilidade poética de aquela perspetiva eminentemente racional a que o Sistema pretende vincular-nos. Nada há no mundo de verdadeiramente interessante que se possa perceber racionalmente. Ao contrário, todo o que nos interessa realmente é misterioso, paradoxal, proibido pela moral ou a lei, impronunciável, inabarcável, imensurável… mas profunda e definitivamente desejável.
O desejo e sua fome permanentemente insatisfeita é um dos alicerces desta escrita em que tudo pretende abarcar-se, poetizar-se, mas nunca caçar-se, possuir-se ou controlar-se. O discurso literário surge como nascido de si próprio, e em plena liberdade desenvolve-se mediante um efeito de autogeração mágica. Nada parecido como as fórmulas catalogadoras do Poder. Nada, portanto, desejável para ele. Tudo, como acontece na vida, sempre a bordo da falésia.

{Palavra Comum}

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Eufeme ~ magazine de poesia

Este ano que está para terminar, tem-me proporcionado muitas emoções, embora não todas sim algumas delas muito positivas. Entre elas, no quadro das sempre adoráveis visitas às amigas e amigos portugueses, foi das melhores ter conhecido a revista Eufeme ~ magazine de poesia e o seu responsável, Sérgio Ninguém, através do que desde há dúzias de anos foi o meu factotum das relações lusófonas, o inspirado e insuficientemente reconhecido poeta Amadeu Baptista.

No número 5 (já esgotado, segundo a editorial) desta formossísima revista portuguesa podem encontrar-se, para além do meu, outros de nomes que bem conhecerão ou deveriam conhecer, se gostarem da boa poesia: Ana Horta, António José Queiroz, Domingos da Mota, Edgardo Xavier, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Francisco Cardo, Gilles Fabre, Gisela, Gracias Ramos Rosa, Jack Galmitz, Jorge Arrimar, Lee Gurga, m. parissy, Maria F. Roldão, Mila Vidal Paletti, Rui Tinoco, Sónia Oliveira e Zlatka Timenova.

Os poemas que publiquei e aqui apresento constituem um avanço do meu novo livro Teoria das ruínas, em breve no prelo da chancela portuguesa Poética Edições, da escritora e já amiga Virgínia do Carmo.

*

CAÇADOR

Nada me compraz tanto observar
como a dourada luz dos astros a desenhar
a placenta embalsamada do mundo.
Num tapete de animais remotos sentir
a força gravitante da espinha dorsal
no percurso de uma dança antiga.
Cantar coa copa cheia
de sangue ritual,
indicar com precisão o lugar
de uma doença velha,
saltar o valado para o primeiro amor
e principiar a vida nesta vida,
no redondo horizonte
de um mar em calma.
Porém, eu sou,
fugitivo da injustiça,
um homem que rouba em sua casa
e logo se perde na névoa
do seu próprio jardim.
Caçador de sonhos,
mato sem sabê-lo
as peças que alcançaram refúgio
no meu coração.

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http://www.youblisher.com/p/1534172-Indico-N39/

Mia Couto convida… Hirondina Joshua: “Só a poesia lê o mundo”

«Nesta rubrica apresentarei os valores novos da literatura moçambicana.
A primeira escolha recaiu sobre Hirondina Joshua, uma jovem poeta ainda sem livro publicado mas já um nome de referência naqueles que estão fadados a manter viva a herança dos nossos grandes poetas como José Craveirinha, Noémia de Sousa, Heliodoro Baptista, Eduardo White.
Conheci a obra de Hirondina antes da pessoa. Era visível por aqueles primeiros textos que me chegaram que a poesia habitava aquela alma.
Quando, por fim, conheci a mulher fiquei surpreso, Magra, quase sem corpo. Tímida quase sem voz. Hirondina Joshua Os Ângulos da Casa 300pxDepois, se percebe: a energia de Hirondina está toda na palavra. Desde 1987, ano em que nasceu, esta moçambicana olhou o mundo pela janela da sensibilidade poética. As profundas rupturas e transições vividas por Moçambique pediam um olhar que apenas a poesia pode dar conta.
Um livro de Hirondina Joshua anuncia-se para breve. Valerá a pena ler esses poemas e todos os outros que se encontram publicados em revistas e jornais. É esta vencedora de uma menção extraordinária do Prémio Mundial de Poesia Nósside na sua edição de 2014 que tenho o gosto de vos apresentar. São apenas dois dos poemas breves mas que, estou certo, são emblemáticos da qualidade da escrita poética de Hirondina.
Talvez esta poesia nos ajude a todos a ler o nosso próprio país.»

*

Prelúdio
Como é que se escreve um olhar?
E um devaneio, sabes?
Para quê é preciso um coração? E uma alma o que é?
Diz-me se sabes a cor do vento.
A paixão com que o mar nos prende.
Diz-me e por favor não poetizes nem filosofes.

“Alquimia do fogo” 2
Repara no que há dentro do fogo antes dele arder.
Não olhes as cores lentas do vermelho, laranja, amarelo nem as azuladas que se deixam fazer no brilho da luz.
Vê esta substância intáctil nos poros da retina. A nudez que se veste nesta condição.
Repara dentro, bem a fundo a mestria com que se tece um coração alado.

{In Revista Índico, nº 39, pags. 84-85, Setembro-Outubro 2016}

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