Revista DiVersos 23

revista diversos 23Prometia a DiVersos abrir mais sua porta a galegos e assim foi que aconteceu no número 23, outorgando à minha poesia um espaço que muito me honra e mais hei de agradecer. É uma mostra indubitável de que a natural irmandade galaica ancestral continua a ser honrada além do Minho, e que muito mais nestes tempos havemos de nos esforçar por alimentar. Eis alguns dos poemas que publiquei na revista por cortesia do amigo José Carlos Marques:

Não me digais que andar
é cozinhar os passos com tempero amargo,
mastigar depressa a brisa dum amor pequeno,
vender a barriga ou por palha trocá-la.
Se as asas do amor
não fossem para a nossa alma
outras esmolas nos darão reinados
no coração certo dum amor mais amplo.
Não castigueis essa pena,
símbolo errático, ligeiro coração
dum diminuto destino a toda a parte aberto.

[Anto, nº 2, Amarante: 1997]

***

Frágua

No vapor do aço
que por tudo se estende
ascendem as almas
de pássaros esquálidos.
Nasceram nas mãos sudorosas
do entardecer,
quando uma cadeia
de corações atingia
um calor vulcânico.
Quando o espaço ardia
na lareira dos sentidos.
Era a festa dos gritos,
a roda dos pés ardentes
sobre a prancha zincada das horas:
uma febre que a noite
não conseguia emudecer.
A vida neste lugar
tem suas próprias regras,
governa-se pela combinação
de engrenagens e fantasmas.
São forças contrárias
trançadas pelo acaso,
uma singular e perversa
protuberância do mundo
que só em cativeiro se reproduz.

[Metal central, A Corunha (Galiza): 2009]

***

Desvelado

I
Desvelado
o poeta vê-se obrigado
a desfazer-se da pedra
que lhe nasce na mão.

Lança a pedra para o lado
e segue o caminho
que esta descreve
na parábola da inspiração.

O poeta lança a pedra
e pousa a mão
no peito.
Protege assim um castelo
em que cada ameia
é um verso erguido
e a ponte tendida
uma oferta para visitar
os museus do amor.

Lança o poeta a pedra
e pousa a mão
no peito.
Uma antiga dor
alimenta com tinta e pedras
um manso dragão.

II
Desvelado
o poeta tece
uma prenda única
com fio sentimental.

Veste de branco
o medo,
veste de verde
o deserto,
veste sem roupa
o amor.

Porque o amor
é nudista.

III
Desvelado
o poeta sorve
uma paixão
no silêncio.

No silêncio
em que mana
a lágrima
do sol.

IV
Desvelado
o poeta descobre
o mistério irresolúvel.

Uma verdade solúvel
no coração.

[Inéditos, de Teoria das ruínas]

***

DiVersos: «A natureza foi desde sempre um dos temas predominantes da poesia universal e com especial força em algumas épocas. Modernamente, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, essa presença tem vindo a apagar-se, com o ser humano e os horizontes humanos a ocupar quase exclusivamente a boca da cena. Nas exceções, nota-se que, tanto ou mais que a admiração, a contemplação ou exaltação de épocas anteriores, se observa a par delas a consciência e o lamento da sua destruição pela civilização (ou barbárie) atual em grau historicamente nunca igualado. Contemplação, exaltação e requiem estão presentes nos três poetas – paulo da costa, Reiner Kunze e Ricardo Lima – com que aqui se inicia a etiqueta «Poesia e Natureza». Tal não quer dizer que a temática destes poetas seja exclusivamente a natureza. Mas apenas que a sua poesia, pelo menos nos poemas aqui inseridos, tem a natureza como presença forte. E, claro, haverá poemas que, sem essa etiqueta, a poderiam ter. É já o caso neste número do poema «A ornitoptera», de Guido Gozzano.

Páginas: variável (160 no nº23)
Preço: 10€
ISSN: 1645-474X

Alfredo Ferreiro abre este número, na sequência do nosso renovado interesse pela poesia da Galiza (ver n.º 21). O seu nome consta da lista de poetas traduzidos que inserimos em cada número. É apenas uma maneira de referir a inclusão de poesia em galego. Versão, mais que tradução. Segundo a opção deste autor, a sua é escrita de acordo com a norma linguística de âmbito lusófono.

Dentre os poetas traduzidos destacamos a poetisa búlgara Zlatka Timenova, que escreve também em francês, de ambas as línguas traduzindo-se a ela própria para português. A autora trabalha e vive em Lisboa. É apenas a terceira língua eslava que a DiVersos inclui em tradução e a primeira em búlgaro, seguindo-se ao polaco (uma única vez) e ao russo (várias vezes). Desta última língua, um dos dois tradutores anteriormente incluídos é italiano, traduz para português e mora em Moscovo.

A DiVersos é talvez a publicação de língua portuguesa que mais poetas gregos traduz. Neste número inserem-se poemas de Michalis Ganás, mais uma vez em tradução de Rosa Salvado Mesquita. Ganás tinha já sido incluído há alguns anos na DiVersos em tradução de Manuel Resende.

Acrescem ainda neste número traduções do neerlandês (Remco Camport) e alemão (Francisca Stoecklin e Reiner Kunze).

Em língua portuguesa temos presentes neste número poetas portugueses como Isabel Cristina, Jorge Reis-Sá, Paulo Borges, Paulo Malekith e Ricardo Lima, pela primeira vez. Quanto a Deodato Santos, a Luís Quintais, e ao poeta luso-canadiano paulo da costa, colaboraram já antes pelo menos uma vez nesta série.

E temos também, na nossa língua comum, poetas brasileiros. Dois poetas que começaram a publicar no terceiro quartel do século XX, Anderson Braga Horta e Aricy Curvello. Deste último, «O Acampamento» pode considerar-se um curto poema épico da fronteira florestal do Brasil. De um poeta mais jovem, que já antes figurou na DiVersos, Wladimir Saldanha, inclui-se entre outros o poema «O Terceiro Mar», para nós notável também pela tessitura entrelaçada de temas da cultura e da história brasileira e portuguesa. Continuamos ainda a publicar jovens poetisas e poetas brasileiros graças aos bons ofícios de Elisa Andrade Buzzo, desta vez Greta Benítez e Izabela Orlandi. .

A DiVersos não tem distribuição comercial e apenas pode ser comprada diretamente ao editor, seja em números avulso seja em assinatura. Os números da DiVersos do n.º 2 (n.º 1 esgotado) ao n.º 15 custam €2,00 cada, os seguintes, €10,00 cada. Portes de correio variáveis conforme o peso. Para assinar uma série de quatro números (em Portugal: €30,00, para o estrangeiro, €38,00) ou para informações ou dúvidas, use os contactos gerais da página. Os novos assinantes ou os assinantes que renovem assinatura são convidados a escolher um dos títulos de poesia das Edições Sempre-em-Pé, que lhe será enviado gratuitamente como expressão de boas-vindas.»

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Liberdade, do Grupo Surrealista Galego

Liberdade, caixa de artistas ou objeto-livro criado polo Grupo Surrealista Galego e produzido artesanalmente por Manchea a partir da versão galega do poema homónimo de Paul Eluard, realizada por Xoán Abeleira. Com gravuras de Alba Torres, Ana Zapata, Alfredo Ferreiro, Laura Sánchez e Tono Galán.

À venda aqui. Contato: Laura Sánchez e Tono Galán: mailsamanchea@gmail.com.

Nota: A foto acima foi tirada na apresentação do Natal de 2015, em que os aviões da Liberdade voárom de novo.

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Poetas galegos precisam-se em Portugal

DiVersos ~ Poesia e tradução«Na aldeia-globo, com fios e sem fios, sabemos hoje por vezes mais sobre os antípodas que sobre a terra ao pé de porta – e o mesmo se pode passar com a poesia e com as línguas de que a traduzimos. Desta reflexão à vontade de seguir mais de perto a poesia escrita em galego vai um pequeno passo, que adiante tentaremos explicar. E começando (recomeçando) por algum nome, que outro mais indicado que o de Rosalía de Castro? […]».

Assim declara no sumário a revista DiVersos – Poesia e tradução, nº 21, que há pouco tive prazer de receber e que hoje devemos ressaltar no contexto das celebrações em honra de Rosalia de Castro. Em 21 números tem publicado poemas em português e muitos traduzidos do africânder, alemão, castelhano, catalão, chinês, finlandês, francês, gregos antigo e moderno, inglês, italiano, neerlandês, norueguês, ocitano, polaco, russo e sueco, mas apenas tinham adaptado poesia galega de Álvaro Cunqueiro e Gonzalo Navaza. E isso é algo que gostavam de mudar, por isso acompanham tal desejo de um convite explícito aos talentos poéticos da Galiza, segundo explicita um limiar intitulado Línguas próximas, línguas afastadas − Presença do galego na DiVersos: […] Ler mais

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“7 ideias sobre poesia para o presente”, por Roger Colom

1. Os gagueios da língua. Ou da cu-cultura. Rodeados como estamos de palavras. Palavras como areia num deserto; tempestade de areia de palavras, incessante.

2. E um vazamento da subjetividade, grande projeto do capitalismo de consumo em sua versão informática/informação/finanças. São os que põem areia na máquina de fazer tempestades, logo apanham-na e analisam-na e tiram o ouro produzido ao baterem em nós, ao esfregarem-se contra nós. Eles/nós. Os donos da máquina e nós. Os luditas não protestavam contra as máquinas, senão contra o regime de propriedade dos meios de produção. A poesia é ludita.

3. Má interpretação na poesia atual do conceito de conceito. Usa-se com o sentido que lhe dão os publicistas ou a moda quando falam em “conceito”. E estes, por sua vez, interpretaram mal os artistas conceptuais e seus “conceitos”, que haviam interpretado mal os filósofos, sobre tudo os franceses. A poesia conceptual reaciona contra a poesia sentimental, a de jeito Romântico. Põe limites quase políticos ao que se pode dizer e como.

4. Na realidade, é preciso usar toda a escritura que se puder. Todas as formas da palavra: escrita, oral, como imagem, como som. Há que trabalhar com todos os jeitos de fazer poemas, desde o poema sentimental (mesmo sem ironia, sem distância) até à transcrição direta da linguagem diária, colocando-a em grossos tomos de aborrecimento, dando-lhe outra velocidade à linguagem, fazendo-a outra, ainda que pareça a mesma.

5. Não vale tudo, mas tudo importa.

6. Há que ampliar até ao máximo o campo de trabalho do poeta. Ampliar ou não o campo da poesia, isso é que é outra coisa, não depende do poeta como indivíduo senão do seu contexto, da sociedade (mesmo da não leitora) em que desenvolve seu lavor.

7. Em fim, não se trata da conquista de novos territórios, ou da abertura de novos mercados, senão do povoamento de todos os territórios possíveis, começando pelos mais próximos, e atravessando os desertos que fizer falta, com suas tempestades de areia, para chegar a outros, achando aí os terrenos férteis para a poesia e suas plantas mais estranhas.

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Iluminacións, de Arthur Rimbaud, por Xoán Abeleira

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'Alma minha gentil', poesía portuguesa para españois

Alma Minha Gentil: Antología general de la poesía portuguesa, con estudo e tradución de Carlos Clementson, probabelmente sexa a mellor antoloxía española de poesía portuguesa. É a primeira que reflicte tan xenerosamente o corpus poético portugués ao longo de 800 anos, incluíndo, claro está, a poesía medieval común coa Galiza por ser esta sen dúbida o inicio dunha tradición poética que florece con toda a súa fermosura en Occidente. E non o digo porque a galega sexa parte da poesía de máis nivel para Antonio Gamoneda, un grande entre os maiores, nin porque este mesmo referencie Herberto Helder como o mellor poeta europeo vivo. Senón porque eu adoro a poesía portuguesa até o punto de ver nela o que a galega non pode ser debido aos ataques que sofre a lingua que lle dá sustento desde tempo inmemorial, e hoxe non menos que nos peores tempos. Acho a falta, no século XX, de nomes como o da divina Natália Correia, mais como eu sempre haberá quen chore faltas.

Pois ben, é esta unha antoloxía bilingüe de máis de 2000 páxinas que ademais ofrece datos dos autores antologados moi útiles para aqueles que desexen introducirse nas circunstancias persoais e de época. A tradución, en xeral acertada e ás claras moi meditada, mostra unha estratexia difícil de asumir para min. Trátase de valorizar en maior medida o metro dos versos do que as imaxes poéticas, o que fai que estas últimas se vexan alteradas en virtude dun cómputo de sílabas procurado até as últimas consecuencias. Poñamos algún exemplo:

Do palácio encantado da ilusão = Del alcázar mendaz de la ilusión (pp. 404-405)

Que já tem sangue e tem olhar! = ¡quienes ya tienen sangre y unos ojos que ven! [literal: “¡que ya tiene sangre y ya tiene mirada!”] (pp. 486-487)

Até que a flor do ímpeto se cansa / E cai morta no chão = hasta que la flor de su ímpetu se cansa / y al suelo cae lo mismo que una flor (pp. 840-841)

Os armadores não amam / a sua rota clara = Los armadores no aman / su luminosa ruta (pp. 936-937)

ao calor das pedras / achadas nas dunas = a calor de piedras / que hay entre las dunas [o que se encontra e o que hai non sempre é o mesmo] (pp. 956-957)

Debido á proximidade entre portugués e castelán resulta forzado facermos prevalecer unha sílaba máis ou menos a custo de alterar palabras que, en moitos casos, eran de partida coincidentes nas dúas linguas. Debido a que as palabras implican “cores” , “sonoridades” e “suxestións” similares cando son comúns, e que alteralas muda a configuración de imaxes poéticas complexas facilmente intercomprensíbeis, resulta inxustificado que todo este imaxinario se destrúa por axustar o número de sílabas co máximo rigor. Constitúe este un labor difícil e con moito mérito, mais inapropiado tendo en conta que cunha receita simple o lector español pode ler e desfrutar a medida orixinal dos versos na lingua orixinal, presente no libro.

Finalmente, debemos referenciar algunhas inexactitudes, como a tradución de ‘cor’ [corazón] por ‘alma’ (al cor pola ben feyta = al alma por la bien hecha, pp. 42-43), ‘veer’ [venga] por ‘veáis’ (quando veer meu amigo = cuando veáis a mi amigo, pp. 48-49), ‘segundo’ [según] por ‘siguiendo’ (Segundo o bem que queria = Siguiendo al bien que quería, pp. 122-123), que aínda sendo patentes non estragan un conxunto que tantos eloxios merece na selección e na tradución.

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Ein Rosenfeuer, das uns Verstört: 4 Dichter aus Galicien (4 poetas galegos)

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O acto, ao que non puido asistir Manuel Rivas por atoparse en Bos Aires, asistimos algúns incondicionais e moitas outras persoas que encheron o aforo. É de resaltar que a edición bilingüe implica a primeira tradución de poesía galega para o alemán, o que nos enche de satisfacción e nos obriga a ser moito máis ambiciosos. Non é só porque alguén da talla poética de Antonio Gamoneda estime que estamos a crear parte da mellor poesía europea, é que o di, á parte de algúns de nós, moita máis xente que bebe con criterio na poesía española e europea. Isto debe ser resaltado porque que o digamos os máis paisanos, por moito que inspeccionemos o que por aí fóra se fai, semella en ocasións non ter transcendencia.
A maiores, recomendamos as argumentacións de Xosé María Álvarez Cáccamo e Xulio López Valcárcel que, se ben non sorprenden aos máis sensíbeis, cumpriron o papel de denuncia que os tempos actuais exixen.
Parabéns, para alén de aos autores, aos editores e tradutores que participaron nun proxecto sen dúbida de histórico valor. Máis información aquí (PDF).

O vídeo é un traballiño noso para a comunidade de Blogaliza.

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‘El árbol ausente’, de Catherine François, na Feira do libro da Coruña 2010

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Feira do libro da Coruña 2010

03-08-2010 ~ Presentación de Settecento, de Marcos Calveiro (Martin Pawley, Marcos Calveiro e Manuel Bragado):

03-08-2010 ~ Xosé Manuel Pereiro e Ghanito fedellando antes de acudir a unha presentación literaria:

02-08-2010 ~ Presentación de El árbol ausente, de Catherine François (Catherine François, Tati Mancebo e Santiago Auserón):

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Benvido, Xoán Abeleira!

Damos a benvida á Blogaliza ao amigo Xoán Abeleira, autor do máis que recomendábel poemario Animais Animais (Espiral Maior, 2000), en 2009 editado en bilingüe por Bartleby Editores e que en breve teremos ocasión de referenciar aquí. Son imprescindíbeis as súas traducións de Rimbaud, os surrealistas, Lawrence, Plath e Hughes, ademais das súas accións poéticas sobre os escenarios.

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