«Sobre Teoria das ruínas», por Tiago Alves Costa

“Não há poema sem acidente; sem ferida, não há poesia nem arte”

Derrida

A linguagem poética de Teoria das Ruínas, de Alfredo Ferreiro, lembra-me um rio: sempre a arrastar e a apagar tudo e, ao mesmo tempo, sempre pronta a receber todos os destroços, todos os reflexos humanos. Sempre pronta a despenhar-se no abismo e a reflectir essa queda. É sem dúvida o que mais me interessa na poesia: obstinação, logo violência, logo absurdo; a procura de um aparato verbal que não se destine à figurabilidade, ao mimetismo do real, à subjugação, às formas de poder que se manifestam sempre de maneira totalizante dentro de um discurso normalizado. Nestes poemas encerra-se uma dolorosa surpresa que inaugura no leitor um espaço de pura metamorfose do tempo; ramificações e vórtices, um caminho na floresta que não foi sujeito ao mapeamento racional, palavras-espanto. Só há um tempo possível dentro do poema e ele é o metamórfico; porque o poeta sabe que só ele se pode opor à passagem da vida e da própria morte, só ele pode ser uma linha de fuga à banalidade das coisas, à avareza de espírito, ao deus da economia que pende sob as nossas cabeças como um machado. Porque o tempo desta poesia ilumina todos os instantes, mas não se fixa neles: queima-os, derrama-se como ácido sobre as imagens que quer construir, e nesse construir destrói, destrói sem cessar.

Teoria das ruínas de Alfredo Ferreiro

Chateaubriand, escritor e político, juntamente com os românticos da sua época afirmava que as ruínas serviam de escala para medir o tempo. Através delas regressavam ao passado e viam tudo o que tinham perdido. Hoje em dia talvez vivemos de novo sob essa sombra da perda, (os centros comerciais, por exemplo, já são hoje as ruínas espirituais de um futuro demasiado presente) o tempo hoje é o da selfie, do polido, do liso, do tempo sem distância, sem carácter e sem respeito, o que faz com o que o corpo soçobre, entre numa profunda crise de vazio; neste consumo voraz de imagens perdemos a negatividade do diabólico, do sinistro ou do terrível. Para Adorno, a negatividade do terrível é a essência do belo; o belo não é um imagem, mas um escudo. E talvez por isso, neste Teoria das Ruínas, há uma espécie de sublevação do espírito que se erige sobre o seu próprio tempo, sobre a barbárie; para isso serve-se de uma alternativa rítmica de presença e ausência, de encobrimento e desvelamento, e mantém assim o leitor desperto no olhar.

A sensação com que ficamos é aqui a poesia resiste à transparência, resiste à interpretação, mas desencadeia o desejo, não é essa uma das funções vitais do poema? E não só se supera o desejo identitário, como se perde no anonimato, provoca uma demolição do eu, esse eu que é hoje pobre em formas de expressão estáveis, que não possui consistência, que se transformou num narcisismo negativo. É pois nesse lugar longínquo, de nós mesmos, ignoto, onde nos deparamos com o irrepresentável, o impossível de ligar, as irrepetíveis fulgurações, os despojos, os demónios, a palavra-carne, e que, ao mesmo tempo, sobre esses escombros o lamento e a meditação melancólica do que se perdeu, nos deparamos com o tempo do outro, dos Outros, desenteriorizando-nos e fazendo com que renunciemos à nossa posição egoista no mundo. E o poema ao libertar-se desta necessidade de lógica e das prerrogativas do discurso racional integra o novo, o ambíguo, o anacrónico, o estranho, o que não se constrói com total transparência e cujo sentido pode ser apreendido de imediato. Porque só assim ele poderá ser acontecimento, acontecimento da verdade que define de novo o que é real. Um lugar que gesta, recebe e incarna a vida conferindo ao ente sentido e significado. E enquanto acontecimento da verdade, o belo é generativo, fecundante e ainda, por fim, poetizante. E então surge a imagem inaugural desse rio, o rio deste livro, onde para mim se manifesta na sua perfeição o dom do belo, esse silêncio a partir do qual a natureza fala.

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Texto lido na apresentação de “Teoria das Ruínas” de Alfredo Ferreiro Salgueiro, na Feira do Livro de Braga, 2019.

{Tiago Alves Costa; Revista Palavra Comum}

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Resiliência

Convidaram-me, como poeta ou escritor de língua portuguesa inspirado no tema dos incêndios, a me candidatar a uma residência (de 1 a 13 de outubro). Desfrutar de doze dias de acomodação no seu apartamento ribeirinho, tranquilo, longe da cidade, incluindo refeições e transporte de Coimbra, era uma tentação tamanha… Poderia concluir a minha estadia apresentando um texto numa festa de arte comunitária multililingue no último dia e colaborar com estudantes internacionais de arte contemporânea durante um workshop de arte específico do local sobre o tema. Enviei por e-mail uma manifestação de interesse com uma breve biografia (menos de 500 palavras) e três textos em português… O resto virá em breve.

Cf. Ponte d’ Arte; @ponte.darte.portugal

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Finalistas do 28º Certame de Narracións Breves Manuel Murguía de Arteixo

A cerimonia de entrega de premios celebrarase o próximo 9 de maio, xoves, ás 20:00 no Centro Cívico e Cultural de Arteixo, e contará coa actuación de Quico Cadaval e Celso F. Sanmartín.

O xurado composto por Charo Pita Villares (gañadora da 27ª edición), Inmaculada Otero Varela (representante da Asociación Galega da Crítica), Xabier López López (representante da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega) e Alfredo Ferreiro Salgueiro (coordinador literario, que asistiu como secretario, con voz e sen voto), reunido o pasado 27 de abril, decidiu por maioría conceder os tres premios ás seguintes obras finalistas (por orde alfabética de autor):

A casa das Castrouteiro, de Daniel Barral Calvo

Crónica de ningures, de Francisco Rozados Rivas

A idade do escarnio, de Tito Pérez Pérez

O Certame de Arteixo acrecenta en 2019 a dotación dos premios en máis 1.300 euros, ofrecendo 4.000 € para o primeiro, 1.500 € para o segundo e 600 € para o terceiro, ademais da publicación da obra nun volume colectivo.

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Recital 23 marzo 2018 Dia Poesia Arteixo por Isabel Maturana

Día Mundial da Poesía en Arteixo 2018

Recital 23 marzo 2018 Dia Poesia Arteixo por Isabel Maturana

Foto: Isabel Maturana

Por segundo ano tiven a honra de poder organizar un recital en Arteixo con motivo do Día Mundial da Poesía. Contamos, como o ano pasado, con poetas e poetisas (e poetas e poetisos) do instituto Manuel Murguía de Arteixo, así como con nomes de fóra do Concello. Acompañáronnos, como na anterior ocasión, dous intérpretes da Escola de Música (frauta traveseira e guitarra). E houben de agradecer o compromiso crecente coa poesía por parte da Concellaría de Cultura, e en particular á concelleira Ana Bello e ao equipo do Servizo Municipal de Cultura comandado por Sonia Iglesias; mais tamén a imprescindible colaboración de Isabel Maturana (IES Manuel Murguía) e Víctor Iglesias (Escola de Música), sen os cales non atoparía @s magnífic@s poetas e intérpretes locais.

O elenco foi o seguinte: Mario Dans (guitarra), Lara Boedo, Hugo Herrador, Andrés González, David Sánchez, Sergio Terceiro, Sofía Castro (frauta traveseira), Rosalía Rodríguez, Pablo Bouza, Tiago Alves, Estíbaliz Espinosa (aínda que ausente por motivos persoais textos seus foron lidos por min), Manuel Álvarez (tamén lin un texto deste autor cubano-galego) e Alfredo Ferreiro.

Lembro con moito cariño os meus primeiros recitais, no final da adolescencia, arrimado aos que eu consideraba xa figuras consolidadas da poesía galega. Pasaron xa trinta anos e vai sendo hora de facer polos novos aquilo que outr@s fixeron por nós. Sempre agradecerei a complicidade de Xavier Seoane e a atención de Pilar Pallarés cando a miña primeira publicación de poemas, naquela mítica Luzes de Galiza. Así se comeza, e así, hoxe, dando a man a outr@s, se agradece aquela axuda.

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Femmes fatales e bruxas

22552737_1148675785234039_7825358080057324432_n«Cañas Con Crea: Femmes Fatales y Brujas. Evento criado por FKM, Festival de Cinema Fantástico da Coruña. Sábado, 21 de Outubro às 19:30 – 21:00. Fundación Luis Seoane. R/ San Francisco, 27, 15001 Corunha. Desde que Eva comió la manzana del árbol de la ciencia y del bien y el mal, echando así a la humanidad del Paraíso, la mujer ha venido siendo en la mayoría de las culturas la encarnación del mal, siendo en el mundo del cine donde de manera más precisa fue representada y estereotipada esta relación. La mujer representada co mo la bruja, la femme fatal y la vampira son las malas favoritas del celuloide y su representación más habitual en la cultura popular. De su historia e influencia se hablará de manera crítica en este debate.
Ponentes: Montserrat Hormigos Vaquero (periodista y escritora), Elisa McCausland (periodista, crítica e investigadora) y Alexia Muiños (directora y guionista de cine).
Modera: María Núñez (codirectora FKM)
».

As protagonistas da palestra falaram em bruxas de filmes, super-heroínas de banda desenhada e femmes fatales de policiais a branco e preto. Interessante tudo, mas a bruxa é uma mestra espiritual vinculada a uma tradição ancestral. Depois do racionalismo e o clímax do patriarcado da Igreja passa a ser um mito quase como um dragão, do mesmo modo que os alquimistas e outros esotéricos perseguidos pelo positivismo estatalista, mas sempre sofrendo o ataque machista da burguesia contemporânea. E serve na modernidade como estigma para a mulher independente, necessariamente considerada anti-sistema por pôr em questão sua função dentro do quadro da família burguesa e por isso sempre fortemente combatida socialmente pelo Poder.

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