A ideia ~ Revista de cultura libertária 73-74

A Ideia, revista de cultura libertária

A ideia ~ Revista de cultura libertária 73-74O número duplo nº 73/74 da revista de cultura libertária “A Ideia” oferecia no ano passado mais de 250 páginas dedicadas ao Surrealismo e ao Café Gelo. O António Cândido Franco, diretor da revista, é um velho amigo da Galiza que gostamos imenso de reencontrar. O redator adjunto, o João Mendes de Sousa, é um artista com quem nos sentimos à vontade. E assim as velhas relações e as novas se encontram no mesmo coração, mercê à persistência da musa em tempos tão adversos, e o caminho se revela certo.

Lemos a revista e gostamos da sua variedade nos assuntos e nas plumas: Agostinho da Silva, Alfredo Margarido, Alexandre Vargas, Ângelo Lima, António Barahona, António Cândido Franco, António Gonçalves [“Henrique Risques Pereira”], António Telmo, Benjamim Péret, Fiame Hasse Pais Brandão, Gonçalves Correia [sobre Brito Camacho], Joaquim Palminha da Silva, Jorge Leandro Rosa, José Hipólito Santos [“Um militante libertário: Moisés Silva Ramos], José Maria Carvalho da Silva, Luís Amaro, Manuel de Castro [dossier de/sobre este poeta], Manuel Hermínio Monteiro, Manuel Silva, Maria Estela Guedes, Maria de Fátima Marinho, Miguel Carvalho, Nuno Júdice, Paulo Borges, Pedro Martins, Pedro Oom, Raul Leal, Rui Sousa, Sérgio Lima, Sofia Carvalho, Teixeira de Pascoaes, Virgílio Martinho.

Do Agostinho da Silva, sobre um livro de António Telmo (autor de preferência na minha humilde biblioteca dedicada à tradição esotérica galego-portuguesa), gostei de ler uma referência à Galiza:

«[…] O que António Telmo nos vai levantando neste seu livro ou colecção de ensaios e depois de, apesar de tudo, ainda dar um ar de sua graça académica no primeiro capítulo, é extremamente importante para o entendimento do que somos no mundo, nós galegos, ou nós brasileiros, ou nós portugueses. Bom seria que os científicos pusessem de lado a irritação que talvez o escrito lhes cause e averiguassem tudo o que por ali se diz a respeito de maniqueísmo na mentalidade de cultura lusíada, de priscilianismo ainda tão mal averiguado, de culto do Espírito Santo de que tão imperfeitamente se conhecem as ligações aragonesas e catalãs ou os caminhos sicilianos, de conceitos de paraísos futuros, que conviria talvez ligar com a história da Comuna de Münster e as ideias de Jan de Leide quanto a uma Quinta Monarquia e a uma segunda vinda de Cristo.

O mal dos nossos científicos não está propriamente em serem científicos, o que é excelente; está em se fazerem de científicos, como se bastasse para isso passarem seus concursõezinhos de cátedra e ficarem depois remoendo, plácidos, a ração de alcofa oficial; e está muito em se educarem em escolas de Europa, aplicando depois ao que não é Europa, e espero que nunca o seja, critérios europeus, casos de história cultural europeia, perspectivas europeias.  O resultado é que nunca ninguém se debruçou sobre o complexo galaico-português, que vem desde Paio Soares e D. Sancho a José Régio e Castelao, quaisquer que tenham sido as aventuras da História, e daí, atravessando os mares, se enriqueceu produzindo o Brasil, futuro senhor cultural do mundo, com olhos verdadeiramente portugueses, porque só se encontra no exterior o que se é por dentro […]». [pp. 160-161]

A IDEIA (cartaz de 2015)_versão finalO Portal Anarquista, em colaboração com “A Ideia” disponibilizou o PDF desta edição. E se isto foi quanto aos números e 2014, temos notícia de que o volume correspondente aos números 75-76 já está a ser apresentado em Portugal. Aguardamos impacientes a nova publicação, em que aliás muito nos honra ter podido incluir uma breve colaboração do Grupo Surrealista Galego.

Quem quiser adquirir a revista em suporte de papel pode pedi-la para o seguinte endereço: A Ideia – Rua Celestino David, 13º-C, 7005-389 Évora. O donativo recomendado para cada exemplar é de 20 euros que podem ser pagos por transferência bancária para o NIB 00350 73400014449400 13.

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25 de abril, um fôlego necessário

XX Aniversário da Revolução dos Cravos: Grupo Hedral em 1994 no Instituto Eusébio da Guarda da Corunha

Grupo poético Hedral com poetas portugueses em 1994

Nesta foto lembramos os participantes e convidados do acto que no Instituto Eusébio da Guarda da Corunha organizou em 1994 o grupo poético Hedral com motivo do XXº aniversário da Revolução dos Cravos. O evento intitulou-se Palavra Comum, e contou com a presença de François Davo, Francisco Soares, José Manuel Capêlo, Avelino de Sousa, António Cândido Franco, José António Lozano Garcia, Luis Mazás López, Pedro Casteleiro, Paco Souto, Alfredo Ferreiro, Táti Mancebo, Dulce Fernandez Graña e Mário J. Herrero Valeiro. No final, cantámos juntos Grândola e o Hino Galego acompanhados por gaita e piano (Xulia Dopico) no salão nobre do antigo liceu.

No dia de hoje há convocatórias interessantes, e ainda amanhã uma em Arteijo à que não deixaremos de acudir, organizada pola Associação Cultural Monte da Estrela.

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«Terra», de Alfredo Ferreiro, na derradeira Saudade

As minhas mãos têm a idade do universo

TERRA

Tudo haverá de acabar
onde tudo começou.
Eu próprio, que era apenas
um espírito sem carne,
só pelo sangue da terra
me consegui encarnar.
A ela devo tudo,
por isso a ela consagro
as mãos de ferreiro e camponês
que me entregou a família.
As mãos que de facto são
instrumento sagrado do coração,
as mesmas mãos
que seguram e esganam
o triste fantoche
com que brinca o destino.

Tenho terra nas unhas desde sempre,
terra velha que o poeta datou
no princípio do universo.
O deus que brincava com barro
e que sua mãe repreendia
pelas manchas que fazia no mundo,
esse deus a mim me criou
de um gesto fortuito,
de uma nódoa,
e para sempre fui
uma palavra perdida no infinito.

E vocês, instrumentos na procura
do certo afinador,
não veis a terra que pisais,
a terra que alberga o mundo,
a terra que vos aguarda
no retorno ao calor inicial?
Acarinhai a terra com as vossas mãos.
Nada há, viageiros, aquém e além,
salvo um caminho por desenhar
sobre a barriga maternal da terra.

Alfredo Ferreiro

Este ano, cun número tan simbólico como o 12, despídese a revista Saudade para sempre. Comandada polo amigo António José Queirós, contaba entre os redactores Amadeu Baptista, António Cândido Franco, Henrique Monteiro, Luís Amaro e Sérgio Pereira, todos eles, com mais e menos idade, nomes moi representativos da actual poesía portuguesa.

Foi un proxecto, como todos os do Queirós, caracterizado polo maior amor á lusofonía, en que á par dos mais os galegos sempre tivemos un espazo por dereito propio; algo que se torna consuetudinario grazas a actitudes fraternas como as do amigo de Vila Meã.

Neste último número, en que se nos propuxo como tema a “terra”, á par do Xosé Lois García e dos nomes xa citados publícanse poemas de Ana Luísa Amaral, Armando Silva Carvalho, Fernando Guimarães, Jorge Velhote, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Vasco Graça Moura e Rosa Alice Branco, entre moitos máis.

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