A inefável contradição de José Saramago (apontamentos à volta do processo criativo)

José Saramago, por Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui)

Em verdade é ousado vir aqui falar da contradição de um mestre como José Saramago, eu sei. Mas é para a ousadia que nestes dias, como sempre, nos convoca a Festa Literária de Chaves. Porque, não cabe dúvida, é o medo que devemos enfrentar se queremos seguir o ensinamento de um mestre. Para assim acharmos um dia o nosso caminho.

Na conferência A estátua e a pedra, o nosso autor diz:

«Mas a verdade é que eu duvido mesmo que se possa falar de literatura como duvido que se possa falar de pintura ou que se possa falar de música […]. E é como se eu desejasse que tudo acabasse por limitar-me a uma contemplação muda pela consciência que eu tenho de que, de uma certa maneira, em todos estes domínios da arte da literatura, estamos lidando, estamos tentando relacionar-nos com aquilo a que chamamos desde há muito tempo o inefável. O inefável, uma vez que é inefável, é o que não pode ser explicado, é o que não pode exprimir-se, havendo em todo o caso o cuidado de, a partir disto, não cair em ideias de carácter transcendente onde tudo encontraria uma explicação que seria exactamente não ter explicação nenhuma.»

Saramago não deseja “cair em ideias de carácter transcendente”, e reconhece entrar diretamente no terreno da contradição. Segundo as suas palavras:

«Esta atitude não parece racional, porque não parece racionalista uma contradição à primeira vista e é uma contradição numa pessoa que se considera a si mesmo racional, quer dizer que eu tento fazer passar tudo pela razão. Isto não quer dizer que eu tente também fazer passar pela razão os sentimentos que vivem ao lado da razão, embora não haja grande migração de um lado a outro […].»

Com certeza, afirmar um escritor que a literatura trata sobre o que não pode ser exprimido com palavras é uma contradição tamanha. Porventura, não é a literatura a arte que se exprime através das palavras? Mas a literatura acontece, e até há pessoas, por exemplo o Saramago, fazem desta atividade criativa a sua vida e até têm o máximo reconhecimento mundial. Como é isto possível? A resposta a esta pergunta está na vida do homem, mas não no que ele diz.

Acho que José Saramago tentou, mais do que realmente foi, ser racional. A razão impõe uns limites muito rijos para enfrentar a vida, e como a literatura é um modo permanente de nos aproximar aos mistérios vitais, esta constantemente excede as fronteiras do racional. O escritor reconhece outros planos quando referencia o Fernando Pessoa (o sentir ao lado do pensar), mas para ele funcionam como opostos: «Enfim reportando-nos a um verso do Fernando Pessoa quando ele dizia “O que em mim sente está pensando”, eu propunha que esta frase, no fundo mais um jogo de palavras dos muitos com que o Fernando Pessoa se entretém e nos entretém, em vez de dizermos “O que em mim sente está pensando”, e parece que há de facto uma tendência nessa direcção, talvez devêssemos dizer “O que em mim pensa está sentindo”.» Pelos vistos, não só reconhece dois PGLplanos, senão que entende que o racional está por cima do sentimental. Isto é coerente com se reconhecer racionalista, mas tenho para mim que o discurso a seguir demonstra bem o contrário.

Continua a relatar o seu percorrido literário do seguinte modo: «Acontece que, tendo eu começado a minha vida literária muito cedo, uma vez que aos vinte e cinco anos publiquei um romance que não é bom e que só vinte anos depois voltei a publicar, isto leva muitas vezes algumas pessoas de boa vontade a perguntarem-me se decidi ficar calado durante vinte anos para ganhar experiência, para depois começar a trabalhar com mais seriedade. E eu sempre digo que não, porque ninguém tem a certeza de viver mais vinte anos e seria absurdo dizer “Vou agora esperar vinte anos”, como se os tivesse garantidos para depois disso começar a escrever com mais seriedade. Não foi assim e de resto toda a minha vida foi feita sem planos, sem projectos, sem estratégias, sem definir caminhos para chegar a determinados objectivos e isso tem que ver também e talvez sobretudo com a minha própria actividade literária.»

Saramago partilha aqui a sabedoria do mestre sufi Idries Shah, quando diz que vivemos apoiados em pseudocertezas, e a maior delas é que amanhã seguiremos vivos. Mas estima que o pensamento, quer dizer, a atividade cerebral, é superior ao coração, isto é, a vida sentimental. E aqui é quando o seu próprio relato vital e literário ressalta de modo evidente o pouco racional que na verdade era Saramago:

«Verdadeiramente eu nunca tive projectos na vida, há que deixar isto bastante claro e quero demonstra-lo desta maneira. Se eu, em 1976, quando eu escrevi, quando eu estava a escrever o Manual de Pintura e Caligrafia, tivesse escrito num papel aquilo que eu gostaria de vir a fazer, encontrar-me-ia com uma página branca, quer dizer, teria uma página branca que não seria capaz de encher porque eu não tinha projectos nenhuns para o futuro. Ao contrário de Balzac, e quando eu digo Ao contrário de Balzac é ao contrário em tudo, claro está, e mesmo ao contrário de, por exemplo, Fernando Pessoa, que tem listas, que escreveu listas de obras a realizar, eu nunca tive aquilo a que se chama A Obra a Realizar.»

Então, permitam-me perguntar agora: através de que sorte de racionalidade a sua obra conseguiu florir? Vejamos como lembra a composição de vária das suas obras:

«O Memorial do Convento nasceu duma circunstância fortuita e que eu posso contar-vos em meia-dúzia de palavras, que um dia, estando eu em Mafra, com algumas pessoas que me acompanhavam, ou a quem eu acompanhava, e estando diante do convento, os que conhecem o Convento de Mafra sabem que é uma coisa imensa, enorme, e eu disse em voz alta “Gostaria um dia de pôr isto num romance”. Provavelmente se eu não tivesse dito em voz alta, se eu tivesse pensado e calado, a própria dimensão da tarefa provavelmente intimidava-me tanto que eu não tinha escrito o livro. Só que ao pronunciar em voz alta aquilo que eu tinha pensado duma certa maneira senti-me obrigado perante as pessoas que me tinham ouvido que inevitavelmente me iriam perguntar “Então, sempre escreves o romance sobre o Convento de Mafra?”»

«O Ano da Morte de Ricardo Reis foi publicado em 1984, mas a verdade é que a ideia do Ano da Morte de Ricardo Reis é anterior ao Memorial do Convento. O que acontece é que, enfrentando-me com o Ricardo Reis, que é a mesma coisa que dizer enfrentando-me com o Fernando Pessoa, entrou-me um tal pavor, um tal medo de desafiar as iras dos especialistas do Fernando Pessoa, eu que não tinha diplomas nem atributos nem méritos conhecidos para me meter nesse mundo pessoano, que, tal como terá dito outro, Afastai de mim esse cálice, eu disse-me a mim mesmo, Afasta de ti essa tentação.»

A História do Cerco de Lisboa defende «que os cruzados não tivessem efectivamente ajudado os portugueses a conquistar Lisboa. O que é que o autor que sou eu desta confusão toda, porque reconheço que para um leitor desprevenido, o leitor confunde-se nestes diferentes planos narrativos, quis dizer com isto? Também o autor não tem obrigação nenhuma, nem provavelmente se lhe deve pedir, perguntar o que é que quer dizer com isto. Mas como estamos aqui justamente para falar do que se fez e do porque se fez, então aquilo que eu pretendo dizer é precisamente o contrário daquilo que faria o romancista histórico. O romancista histórico faria romances históricos, e com este livro que aparentemente é o mais histórico de todos, o que eu quero dizer é que a verdade histórica não existe.» Então, escreve esta obra para dizer que a verdade histórica não existe? Onde o racionalismo? Ele até afirma:«A verdade histórica, não é que ela não exista, mas provavelmente existe num lugar inacessível, onde não é possível chegar.» Se não é possível chegar, nunca ninguém terá podido escrever certo sobre a verdade histórica, não é?

E continua assim:

«O Evangelho segundo Jesus Cristo, que é um livro que causou muita polémica e que é responsável por eu estar a viver em Lanzarote, é um romance que pelos ecos que me chegaram foi lido em Israel com uma atenção extraordinária devido, digamos, ao próprio carácter humano da figura de Jesus, profundamente humano, totalmente humano. É um livro que eu não projectei, nunca, nunca me passou pela cabeça vir a escrever uma vida ou reescrever uma nova vida de Jesus havendo tantas e tantas de todo o tipo desde as insultuosas às interpretações malévolas, às críticas ferozes ou pelo contrário ao mais comprometido do ponto de vista do dogma. Enfim, sobre esse pobre homem tudo se disse e portanto parece que não fazia falta um livro mais. Simplesmente eu fui obrigado pelas circunstâncias a escrever esse livro, e as circunstâncias foram estas. Estando eu em Sevilha, e aqui estas coisas ligam-se todas, quer dizer, eu estava em Sevilha com a minha mulher, minha mulher é sevilhana, eu não estaria em Sevilha nessa altura nesse momento se eu não tivesse casado com ela, portanto o livro O Evangelho segundo Jesus Cristo escreve-se porque nós nos encontrámos, escreve-se porque ela era de Sevilha, escreve-se porque eu atravessei uma rua naquele momento determinado, porque sem isso não haveria Evangelho segundo Jesus Cristo. Da mesma maneira que também, enfim, isto só é importante para nós, se nós nos encontrámos e nos casámos foi porque ela leu O Ano da Morte de Ricardo Reis. Portanto há aqui uma ligação entre vida e obra que passa até enfim pela intimidade mais extrema. Ora bem, estando eu em Sevilha e atravessando uma rua na direcção dum quiosque de jornais, olhando em frente porque o trânsito vinha dum lado e doutro e enfim eu tinha de atravessar com bastante cuidado mas olhando em frente e ao lado eu leio, e peço que acreditem naquilo que eu vou dizer, leio distintamente no conjunto de jornais suspensos e de revistas que caracteriza qualquer quiosque de venda de jornais e de revistas, leio distintamente em português O Evangelho segundo Jesus Cristo, Em português, ainda por cima, em português. Passei, atravessei a rua, continuei a andar, dez metros adiante paro e digo, Isto não é possível, mas enfim para saber se era possível ou não voltei atrás para verificar e o que eu vi foi que nem estava Evangelho nem em português, nem em espanhol, nem em italiano, nem de forma nenhuma, não estava nem Jesus, nem estava Cristo. Quer dizer, eu tive uma, não é uma alucinação, não, não vamos pôr a questão assim, eu tive simplesmente uma ilusão de óptica. A outra hipótese é que Deus tenha querido que eu escrevesse este livro e portanto colocou ali miraculosamente, foi um milagre, as letras que depois desapareceram.»

Isto que ele descreve como ilusão óptica também se podia chamar de revelação, ou ao menos de visão. O nosso autor pretendia é ser racionalista e “não cair em ideias de carácter transcendente”, assim que preferia falar em termos exclusivos da Física e da Anatomia. Entendia que a literatura tem o seu alicerce no inefável mas penetrar neste assunto era metafísico demais. Ele gostava de escrever e assim, pragmática antes do que teoricamente, o cometido mais profundo da literatura tinha lugar como um milagre que pode ser vivido sem necessidade de o exprimir.

Saramago retratou a sua família reconhecendo que a sua “atitude de espírito” lhe rogava para que atuasse como vassoura da memória, uma atitude que significava ressaltar através da arte escrita o valor humano da gente que ele amava. Sendo sua humanidade um farol que se erguia por sobre a sociedade para iluminar o melhor dela própria.

Reconhece também que os personagens que ele criou foram os seus mestres de vida, os que mais intensamente lhe “ensinaram o oficio de viver”. E este facto só é possível se entendermos função do escritor como o de um médium, alguém que possui o conhecimento da vida no momento em que por ele passa e só através dele se traduz em literatura, entrando pela cabeça de não sabemos quais ignotos arquivos humanos, sendo providos no coração de emoções universais e ornamentados no cérebro por quaisquer artifícios mais ou menos retóricos, para em fim ser vertido através dos dedos para uma caneta e um papel.

Portanto, essa reconhecida contradição não foi um defeito, não foi um erro, pois foi definitivamente resolvida escrevendo, criando, deixando que toda essa humanidade que ele possuía fosse harmonicamente florescida na comunicação com o outro, deixando o seu coração governar a razão e se abrir passo por entre as sombras do mundo, iluminando mediante a arte aquilo que a musa, tão impossivelmente racional, lhe dizia ao ouvido.

Concluo, portanto, que é difícil ser-se artista e se não ser espiritual. A razão disto ─sejamos ao menos um bocado racionalistas─ é facto de o inefável constituir a essência da arte. O mestre falou e tinha razão, muito embora fosse contraditório. Se calhar, não é possível a arte se não assumirmos essa fulcral contradição. Porque o paradoxo pode bem ser, no fundo, a mais velha expressão poética do inefável.

*

Notas: Palestra de Alfredo Ferreiro Salgueiro na mesa “Reflexões à volta de José Saramago” ~ III Festa da Literatura de Chaves (14 a 17 de novembro de 2018); Cf. “Uma conversa com José Saramago”; Caricatura de Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui).

{Palavra Comum}

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III Festa literária de Chaves

Alfredo Ferreiro: Palestras de José Saramago (edição espanhola)

Alfredo Ferreiro: Palestras de José Saramago (edição espanhola)

Mais um ano coube-nos a honra de desfrutar da Festa Literária de Chaves, organizada pelo Clube dos Amigos do Livro ao abrigo da Rotary Clube entre 14 e 17 de novembro de 2018. Com presença de Pilar del Río, Maria Graciete Besse, Amélia Muge, Michales Loukovikas e muitos outros vultos da cultura, tivemos a honra de participar este ano três galegos: Estefânia Blanco (cantora), Pedro Casteleiro (poeta) e eu próprio.

A ousadia minha foi maior do que nunca, uma vez que me atrevi a falar do processo de escrita do José Saramago a partir dalgumas declarações que ele deixou publicadas em textos de palestras e similares.

Também dissemos poesia, desfrutamos da voz de Amélia Muge e conhecemos a nova revista que em breve virá a luz, Via XVII, da mão de José Leon Machado e Ernesto Areias.

III Festa Literária de Chaves

Amélia Muge na Festa Literária de Chaves 2018

III Festa Literária de Chaves

Ernesto Areias e José Leon Machado na Festa Literária de Chaves 2018

O nosso contributo terminou numa inspirada mesa moderada pelo eficiente Filipe Delfim Santos sobre os conceitos de “fronteira”, “identidade” e “inspiração” (com Telmo Fidalgo Barreira, Pedro Casteleiro e Lídia Machado dos Santos).

III Festa literária de Chaves

Telmo Fidalgo Barreira, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Lídia Machado dos Santos e Alfredo Ferreiro Salgueiro na Festa Literária de Chaves 2018

E tudo no quadro da lindíssima Chaves, com o tempero da cortesia e o privilégio da hospitalidade das suas gentes (obrigado nomeadamente à Maria Manuela Santos Rainho, à Laura, e à presidência do Rotary Club de Chaves).

Jantar com Estefânia Blanco, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Michales Loukovikas, Amélia Muge, Maria Graciete Besse, Ernesto Areias e Laura na Festa Literária de Chaves 2018.

Jantar com Estefânia Blanco, Pedro Casteleiro, Filipe Delfim Santos, Michales Loukovikas, Amélia Muge, Maria Graciete Besse, Ernesto Areias e Laura na Festa Literária de Chaves 2018.

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A Galiza de Saramago

A noticia do pasamento de José Saramago fainos lembrar aquela entrevista realizada en Compostela en galego e/ou portugués ao escritor por uns rapaces universitarios que xa demostraban perspicacia e talento infrecuentes. Era 1990 e viña á luz na Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica, I, 2, con responsabilidade de Antom Fernández Malde e Pedro Casteleiro. Hoxe relembramos aquele excerto sobre a cuestión galega publicado no post “A Galiza de Saramago en 1990“.

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A Galiza de Saramago en 1990

saramago_desenho-do-rui.jpegRecentes intervencións nos blogues Aspirina B, Coroas de pinho, Opaco e As uvas da solaina así como no PGL a causa dunha entrevista a José Saramago me lembraron unha outra realizada en Compostela en galego e/ou portugués ao escritor por uns xovens universitarios que xa demostraban perspicacia e talento infrecuentes. Era 1990 e viña á luz na Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica, I, 2, con responsabilidade de Antom Fernández Malde e Pedro Casteleiro.

Rescatamos aquí un excerto sobre algunhas das cuestións tratadas nestes días:

«[…] Tem você algum contacto com a literatura feita na Galiza?

Não, quer dizer, a literatura feita na Galiza é para nós uma grande desconhecida. Se tiramos os nomes conhecidíssimos —mas mesmo assim com altas e baixas a respeito da divulgação deles—, se tiramos um Castelão, uma Rosalia, um Cunqueiro, um Blanco-Amor e alguns poetas como Manuel-Maria… A regra é o grande desconhecimento. E é um desconhecimento que não sei como é que se pode resolver.

É muito fácil dizer: —Temos que correr, ir por um lado, ir pelo outro… Isso é muito fácil dizer, mas como é que isso se faz é muito mais difícil, porque isso passa por uma coisa que se chama distribuição do livro, venda do livro, colocação do livro nas livrarias, interesse do público de um lado e doutro e isso já sabemos que está muito mal.

Claro que o problema é que em Portugal quando se fala da literatura dos nossos dias, o que nós vemos é a literatura espanhola. E não pensamos se é de Catalunha ou da Galiza ou de Andaluzia. É literatura que vem da Espanha. Há uma atitude involuntária reducionista que apaga as nacionalidades, que apaga as expressões literárias nacionais e que as reduz a uma linha única que é a Espanha. Pode acontecer que um autor galego, se for traduzido em Portugal, provavelmente dirão que é um autor galego; dirão que é um autor espanhol. E tudo isto acaba por confundir. Claro que, nalguns casos, quando são literaturas com expressão mais forte, relativamente mais forte em termos de divulgação, como é o caso da catalã…

Mas da Galiza é realmente difícil termos uma ideia clara do que aqui se passa. Certos jornais em Portugal dão alguns excertos, mas são tão poucos que melhor é dizer que é um ou dois. Dão, de facto, alguma atenção, mesmo assim bastante reduzida acerca do que é que se passa aqui. Mas eu acho que a culpa talvez seja vossa… Se vocês querem sair desta penumbra em que a Galiza vive —porque a Galiza tem vivido em penumbra até do ponto de vista do resto da Espanha…— Como é que não há-de viver em penumbra do ponto de vista de Portugal?

Mas isso é estranho teoricamente, porque nós não falamos a mesma língua que os espanhóis, mas sim a mesma língua que você?

É evidente, mas falta fazer não sei quê se me perguntarem, o que é que é preciso fazer para que tenhamos todos a consciência de que praticamente falamos a mesma língua, porque falamos a mesma língua, e por que é que então não…

É claro que do ponto de vista do poder central espanhol, qualquer aproximação entre a Galiza e Portugal, mesmo no plano linguístico, no plano cultural e tudo isto, eu acho que é vista com maus olhos. Madrid não gostaria que por cima do rio Minho se lancem todas as pontes possíveis e imagináveis, e que a Galiza seja uma espécie de prolongamento natural de Portugal… Mas também não vejo que tal e como as coisas estão, que Madrid… Eu não me apercebo de que haja acções do governo de Madrid no sentido de serem contrárias a isto, também não as há no sentido de favorecer…

Sim, têm talvez que jogar ao iberismo, têm que jogar ao europeísmo, têm que jogar com isso.

Não, olha, eu acho que a situação se pode modificar radicalmente…

Talvez no 92, que é a abertura das fronteiras na Europa…

Não, não, a Europa não. A Europa iria acabar com a Galiza, com as Astúrias… Não espero nada de bom da Europa. Aquilo que eu acho é que a situação pode modificar-se muito a partir do momento em que ache uma Espanha federativa, em que a Espanha não seria mais já esta coisa híbrida que não se sabe se é um país só, se é um conjunto de nacionalidades, e em que as autonomias se vão conquistando muito lentamente, e pouco a pouco. A solução para a Espanha é chegar à figura de uma federação. Então as relações entre Portugal e a Espanha deixariam de ser, como são, predominantemente relações bilaterais, entre Estado e Estado, para se tornarem relações multilaterais, relação entre Portugal e Catalunha, entre Portugal e Andaluzia, entre Portugal e a Galiza. Neste processo, sobretudo do ponto de vista cultural, neste processo circular em tudo comunica com tudo, então penso que a situação aí se modificará.

Agora também, com tudo isto, além de passar pelo marketing, passa também por uma vontade política. A questão que se põe é esta, é saber que é o que a autonomia galega pensa… (bom, quando digo a autonomia galega, digo os seus representantes políticos superiores), o que é que pensam de uma aproximação com Portugal. Embora por outro lado, eu acho que se devia reflectir sobre coisas tão significativas como esta:

Há alguns anos eu estava em Madrid, entrei numa livraria e havia um livro de Castelão. Comprei o livro de Castelão, cheguei ao hotel, abri o livro, olhei-no e comecei a ler… E disse: que é o que estou lendo…? Estava lendo uma tradução espanhola, uma tradução castelhana do galego, da língua galega que o Castelão tinha usado. E então interroguei-me… Como é que é possível isto? Então é que a Espanha precisa —certa Espanha, a Espanha castelhana—, precisa de traduzir um livro de Castelão para que…

Ora bem, entre Portugal e a Galiza isso não é necessário; um livro de Castelão pode ser lido, embora não seja lido por qualquer pessoa, mas mesmo assim há a dificuldade de entrar numa língua, que sendo a mesma, não a escrevem igual…

Bom, para nós…, quer dizer, se eu tomo um livro de Castelão há muitas coisas que não entendo, porque são dialectalismos…

Pois são questões de dialectalismos, são questões de regionalismos muito estreitos, e isto está bem. Isso também acontece comigo, por exemplo, se leio um livro de Aquilino Ribeiro, algumas vezes tenho que ir a um dicionário muito bom, muito rico, para encontrar lá termos que ele usou.

Mas de facto acontece isto que é extraordinário: chegar aqui um escritor de Portugal para fazer um colóquio, tem trezentas pessoas que o recebem e o ouvem… Mas à inversa não se daria. Se fosse um escritor galego a Lisboa, isso não aconteceria. Iriam não sei quantas, mas muito poucas pessoas. Quer dizer, nós não vos vemos a vocês. A Espanha, a ideia da Espanha está antes. Antes de que nós consigamos ver à Galiza temos que ver antes à Espanha, que se levanta ocultando a Galiza. E isto, esta relação é que é preciso inverter. Não é esquecer ou apartar a Espanha, é tornar a Galiza mais visível.

Havia uma frase de Castelão quando na Segunda República Espanhola se falara tanto do iberismo e da futura confederação, e que não entenderam bem os castelhanos: “Bom, falam vocês muito de iberismo e demais, mas esquecem que única chave para abrir Portugal é a Galiza”.

Ora bem, nessa altura seria, mas agora não há chaves, há gazuas…., que se chamam a invasão económica dos espanhóis, a compra de empresas pelos espanhóis, e tudo isso. Mas isto não é nada que não tivesse acontecido já antes. Porque toda a gente se surpreende agora com a invasão dos espanhóis, mas ninguém se surpreendeu até agora com a invasão dos norte-americanos, que têm as empresas, que vendem Coca-Cola, que vendem camisetas com “Universidade de Boston”, e que são vestidas por pessoas que nunca irão à Universidade de Boston, e que nem sequer sabem onde é que fica Boston. Esse é sim um domínio, e a única coisa que temos que pedir nós próprios é capacidade para invadirmos nós a Espanha.

Há talvez um certo complexo de inferioridade em Portugal a respeito da Europa, e a respeito do mundo? Um complexo que para os galegos nos parece muito estranho, porque o argumento que nós temos sempre é Portugal.

Eu não diria exactamente um complexo de inferioridade. Cada um tem de ter consciência daquilo que vale, e nós temos consciência que somos um pequeno país; não vale a pena de entrar em delírios de megalomania. Nos séculos XV e XVI de facto Espanha e Portugal possuíam uma tecnologia que nenhum país da Europa tinha. E foi essa tecnologia a que nos permitiu termos uns barcos e irmos por aí fora. Eu não falo já de “espírito de aventura”, não tem que ver com isso; a tecnologia ninguém a tinha, e nós a tínhamos e fomos. E agora não temos.

O que acontece é isto; enquanto a Espanha sempre teve, mais ou menos, uma ideias imperiais que ficaram do Império, a verdade é que para nós essa história do Império nunca teve um grande significado, nunca no povo português, e também não nas classes sociais mais altas se criou a ideia, nem nos intelectuais nem em nada disso, que nós tínhamos o Império. Então nós vivemos sempre na própria dimensão, conscientes da nossa debilidade, da nossa perspectiva, evidentemente, sabendo que militarmente não somos nada, sabendo que economicamente somos muito pouco, e não o chamaria complexo de inferioridade, mas consciência do que de facto somos.

Em relação à Espanha, enfim, são velhas histórias, são velhas histórias que assentam em preconceitos, evidentemente, mas também é verdade que até isto tem que ser entendido. Porque quando nós olhamos para o mapa da Espanha e está ali um, eu penso que os espanhóis não gostam de ver a Península Ibérica, não gostam de olhar para o mapa da Península Ibérica, porque de duas uma: ou a reproduzem inteira nos seus mapas, e então aquele bocado que está ali não é Espanha; ou então, como às vezes fazem, retiram Portugal de ali, e então a Espanha fica toda desarrumada… Há uma falta ali acima…

Temos que entender que a presença de Portugal aqui criou nos espanhóis ao longo do tempo uma certa instabilidade, que superou ou substituiu por um sentimento de indiferença: o que está ali não existe!

Portanto, para além dos conflitos que houver, os conflitos militares, os problemas dinásticos —que evidentemente se resolvem—, agora estamos em vias de não pensar mais nessas histórias de Aljubarrota, e Filipes e tudo isso. O que é necessário é que pelo nosso lado se perca esse sentimento de desconfiança em relação à Espanha, onde até nós temos um refrão que diz: “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Eu tento de desmentir isso, porque é que estou casado com uma espanhola e, portanto, nós temos que perder esse sentimento de temor, esse sentimento histórico de temor… E a Espanha tem que perceber que dez milhões de pessoas aqui ao lado, com uma cultura e uma história, e uma identidade e uma personalidade próprias, têm que ser reconhecidas e respeitadas, e que se perca essa ideia de que o português é…

Você que tem como matéria prima de trabalho a Língua Portuguesa, que pensa do estado actual desta em toda a Lusofonia, e em concreto na Galiza e Portugal?

Bom, eu conheço mal a questão; sei que o problema aqui, a questão não é pacífica, isso já o sei. Que há lusistas muito determinados, há outros grupos que tendem, pelo contrário, para a continuação da castelhanização do galego…

Julgo que, ao contrário do que é que acostumo dizer, nestes casos eu estou de acordo com o radicalismo. Porque uma atitude de meias tintas, de meias águas, acabará com certeza por prejudicar a própria identidade do galego, não já no que se refere apenas à língua, mas também à sua própria identidade cultural. E penso que essa tentativa de aproximação da norma portuguesa, que muitos defendem com muita força, pode não ser alcançável, quer dizer, pode até eventualmente não ser útil, completamente útil. Mas penso que os que defendem essa aproximação tão radical, aquilo que no fundo estão a fazer é a querer defender-se do castelhano. E a verdade é que o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português.

Então, essa atitude tão radical que em si mesma pode, e acredito que sim, criar tensões aqui na Galiza, polémicas entre gente que não se fala uns com os outros, que se começou uma guerra. Isso eu julgo que é legítimo, que é natural, e que é mesmo desejável. Porque é justamente, na medida que essa tensão em cada um esteja muito consciente, daquilo que defende e daquilo que quer, só daí é que poderá resultar um encontro para uma solução, que defenda o galego do castelhano. […]» (Para ler a entrevista enteira ligar para Çopyright – pensamento, crítica e criação, 67)

Revisión: “Saramago dixit, por Xavier Alcalá.

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