«Das ruínas do mundo às minas do ser», por José António Lozano

(Sobre a Teoria das Ruínas de Alfredo Ferreiro Salgueiro)

“Escrever poesia não tem nada a ver com o número de livros que você leu ou o conhecimento que temos sobre a escrita. Em vez disso, como gotas de água transportadas por ondas do mar que saltam fora das rochas, são os sentimentos espontâneos que surgem a partir de matéria externa e pensamentos internos”

(Palmo, poeta tibetana contemporânea)

De um fragmento tecemos uma totalidade em aberto e o propósito do poema surge da sua ressonância, a significação expande-se como as ondas das águas em que caiu uma pedra. Uma pedra atirada do nosso próprio coração. E aquilo que pensamos atirar longe, muito longe de nós, ressoa na nossa consciência, explode no interior da nossa própria recordação. Pura lei física de ação e reação. Lembremos, pois, este princípio.

A leitura de Teoria das Ruínas [Poética Edições, Braga, 2019] obriga-nos a pensar e repensar desde uma consciência lúcida, interrogativa, meditativa. A poesia não é aqui um luxo estético nem uma comprazente palavra de beleza arcádica. Não. Constitui a beleza áspera de uma palavra arrancada ao corpo, à conflitiva e paradoxal contradição de uma existência viva que se acha arrojada a um mundo muito longe de um ideal de liberdade e justiça que o poeta leva como missão íntima, como promessa e palavra da condição poética. As ruínas são sempre esse “mundo” onde o ser humano mora. Uma deslocação do mundo da cultura, da morada humana ao âmbito da “natura”, mas no sentido de uma barbárie, de uma degradação em que os objetos se aproximam, perdendo também a sua humanidade.

Pode ser assim? Só até certo ponto. O poeta sabe das ratas que ecoam entre as ruínas do ser e do mundo:

São escuros animais que roem / a madeira em que talhamos a consciência / percebem as fendas da solidão, / entram pelos buracos da confiança / e envenenam os poços do amor.

O poeta sabe das moscas que zoam e, provavelmente, zombam dele no recanto do café, das suas amargas contradições que docemente sorvem. Mas o poeta sabe também outras cousas. E aquilo que o poeta sabe é uma forma de interrogar e uma maneira de conduzir a sintaxe que produz faíscas e paradoxos, que é capaz de introduzir uma ordem dilacerada. Alfredo Ferreiro constrói estrofes, versos, poemas sobre a base de uma enunciação direta, quase narrativa, mas sustentada numa luminosa cascata de metáforas surpreendentes. Que quer dizer isto? Há uma proposição continuada de sentidos, uma narração, como um conto. Há também uma sabedoria nascida da observação apurada que se mostra ousada, elevando-se em metáforas que transformam a simples facticidade do mundo. Nesse jogo, nessa dialética entre a intimidade e as ruínas do mundo, entre o possível e o impossível, a poesia emerge como uma lança que trespassa os limites e vai além de esse dualismo. De este jeito, o mistério e o enigma do cosmos, da nossa vida, da nossa existência está presente. Não se trata de uma exaltação da mesma ou da construção de um tema, mas uma presença cúmplice que irradia a leitura dos poemas cheios de uma metaforização rica, presente quase em cada verso, transformando-se, metamorfoseando-se. Há uma evolução do mundo na semente da palavra e um processo cósmico na consciência do poeta. Assim:

Entre um mar de imagens vago / bêbedo nas paisagens interiores / da madrugada / Lembro os cavalos que um dia montei / num poema improvisado. / Cavalos que saltavam a incerteza / e a carne acumulada da solidão. / Lembro as casas sem luz, estranhas / que um dia ergui com palavras. // Agora sou aquele construtor / mais velho, mais lavrado // seu coração de pedra / mais limpo e menos pesado, / livre das lascas que arrancaram / o amor e o mar, / as garras do medo e o vento. / Sagrado cinzel do amor, / dá-me tempo / para olhar a imagem esculpida / da verdade que levo dentro.

De modo que a proposição poética de Alfredo Ferreiro é uma fonte meditativa, uma maneira de pensar que nos obriga a retomar o fio de uma interpretação diferente do ato de leitura e de criação. Mais do que uma interpretação, corresponde a um gosto, a um sabor em que devemos fazer transitar a significação longe das determinações que prendem o sentido poético a um lugar estabelecido e comum, quer histórico, quer familiar ou mesmo contextual. Assim funda-se uma hermenêutica que recolhe o sentido de aquelas palavras de Luís de Camões:

E sabei que, segundo o amor tiverdes,

Tereis o entendimento de meus versos.

Desenho 1 de Alberto Esperante para a Teoria das ruínas de Alfredo Ferreiro

Pode que a proposta hermenêutica não seja comum nos âmbitos acadêmicos, é claro, mas é a base mesma não só de todo o propósito humano quanto dos alicerces do alento poético ao que o poeta se deve. Contrariamente aos modos em que as diferentes críticas tentam situar a compreensão do ofício literário determinando características ligadas a correntes, modas, situações históricas, intenções ideológicas de todo tipo… na verdade, a poesia começa a ser compreendida, a realidade mesma, quando somos capazes de ir além e aquém de essas determinações. Esse é o sentido da arte poética: a transmutação do que nos é dado. Um exemplo notável do próprio autor acha-se no seu livro Metal Central. Aí encontramos essa transformação da experiência vital, cinco anos de trabalho numa siderúrgica, crescendo como uma flor extraordinária entre os ferros e a inconsciência do processo fabril, duro e alheio à sensibilidade mais humana. Mas aí está o resultado como uma operação alquímica, uma operação orgânica e vegetal que é capaz de digerir um mundo inorgânico e dotá-lo de vida.

O mundo académico e literário está submetido a uma série de interesses e preocupações em que poucas vezes tem tempo para compreender qual é a base e o sentido do que estão a fazer. De modo geral, o tempo real é sempre adiado e as questões essenciais são sempre preteridas. Seria lastimoso tomar consciência de qual é a motivação subjacente da maioria das críticas: inveja, ciúmes, afã de notoriedade, defesa de um território simbólico, promoção de uma tendência ou ideologia, enfim, características inevitáveis num contexto cultural e social cuja finalidade básica é a autoperpetuação ou reprodução mais do que o desenvolvimento da consciência e a natureza humana. E onde todas as manifestações das diferentes egomanias (em diferentes estilos, nisso há muita arte) dominam completamente. De modo que dizer certas verdades simples deixa-nos como ao rapazinho diante do rei nu. O imperador está completamente despido, e não porque precisamente seja a expressão do amor, pois tem a pretensão de ter um belo trajo (o amor é nudista lembra-nos Alfredo Ferreiro). Mas, tu dissimula, rapaz! Ainda és muito novo, já aprenderás. Neste mundo convencional de uma corrupção patente, armamo-nos de cultura e sofisticação para não menear a barca demais. O certo é que aqui, como galegos deveríamos sabê-lo, certa rusticidade é vivificante. Como chamar a tudo isto: simplesmente uma forma parasitária de existência que se alimenta das ruínas do mundo. O cinismo e a resignação confundem-se com a sabedoria, ou pragmatismo ou quem sabe que! Entretanto, a criatividade, a disciplina, a intenção sincera, o talento estão aí…e encontra as suas vias. No fundo, o velho poder que se ergue em cátedras e capelas começa a perceber que lhe acontece como ao velho idoso que roubou à bela jovem da família humilde: nunca terá o seu amor, e ainda por cima, acabará sendo um cornudo impenitente. E estas são as ruínas do mundo: um velho decrépito querendo possuir uma jovem donzela.

Mas o amor está aí. Não se trata só de um sentimento. É a paciência, a correção, a elegância, o estilo, a concentração, a generosidade, a criatividade, a confiança. E a tudo isso e muito mais é ao que chamamos de “amor”. Para isso é preciso ofício. Amar significa desenvolver a nossa humanidade como artesãos, voltar ao mundo dos artesãos. Polindo o nosso ser, o nosso espírito, pondo o nosso coração na matéria dos nossos sonhos faremos como Geppeto e, algum dia, esse rapaz mentireiro, que se mete em mil e um problemas recobrará a sua humanidade, a madeira será matéria viva e surgirá uma lágrima.

No princípio / houve unha lágrima. / Uma fila de lágrimas / endureceu / e deu nos ossos. / Os ossos arderam / e da sua chama / surgiu a carne. / A carne fez-se leve / e da sua levedação / nasceram os cabelos / Os cabelos como vento / não queriam ficar presos / e pelo aéreo sentimento / pairou a alma. / A alma morava só / no cume da montanha, / mas quando outra topou / sorriu / e dela manou / uma lágrima.

Desenho 3 de Alberto Esperante para a Teoria das ruínas de Alfredo Ferreiro
Desenho 3 de Alberto Esperante para a Teoria das ruínas de Alfredo Ferreiro

Teoria das Ruínas é uma proposta de reconstrução da consciência e do mundo, um trabalho de restauração ao que se nos convida, ao que estamos chamados. Os vínculos, as amizades, as ressonâncias das comunidades habitam em nós desde uma finalidade misteriosa. E esse mistério, essa consciência íntima da nossa finitude, esse ter nascido num mundo em ruínas, já acabado, oferece-nos uma perspetiva diferente: aprender a ser sem refúgios, na intempérie dos elementos, num mundo que é de graça e pela graça.

Espero que a leitura de Teoria das Ruínas acenda uma chama no coração do leitor. Uma boa maneira para ler é deixar-se levar pelas ressonâncias, desapegar-se de preconceitos, esquecer que conhecemos ou que temos alguma ideia sobre o autor. Podemos lê-lo de princípio a fim, lê-lo ao acaso, tratá-lo como um livro oracular e permitir que nos diga algo para ruminar. Podemos deixá-lo aí à nossa vista e invocá-lo, falar-lhe em voz alta ou desde os nossos pensamentos. Devemos animá-lo, mostrar-lhe o nosso carinho e respeito. Que carácter terá para ti: será como um gato, como um corvo, como um pássaro da noite, como um golfinho perdido? Irá passando por diversas transformações? Quem sabe?

Estamos perante algo desconhecido, enviado de muito longe, como uma mensagem engarrafada e atirada ao mar, ecoando na consciência ao longo dos tempos. Este livro continuará comunicando-se com os nossos amigos desconhecidos quando ninguém de nós esteja no mundo.

Mas nós e eles estamos em contacto e a pedra lançada longe, muito longe é a lágrima real que brota do nosso coração.

Cervás-Ares, a 12 de Julho de 2016

*

Nota: O evento contará também com a intervenção do poeta português Tiago Alves Costa.

{Palavra Comum}

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“Herberto Hélder e a poesia galega dos 90”, por Luís Mazás López

«Neste artigo, quero fazer memória de retalhos biográficos que aconteceram na Crunha dos anos 90. Foram os anos de juventude, dos que tenho agora saudade, estando servidor a ponto de cumprir os cinquenta. De facto, fui testemunha e partícipe de como se geriu um grupo de poetas herdeiros e continuadores da lírica galaico-portuguesa.

Na faculdade de filologia estudámos a poesia trovadoresca. Ensinaram-nos que os séculos XIV e XV foram o final do esplendor. Os Séculos escuros aconteceram desde o XV ate o XVIII, época na que, no nosso país, a criação literária em língua galega fora nula.

Foi no século XIX, no ressurgimento, quando Carolina Michaëlis de Vasconcelos , Teófilo Braga, Manuel Murguia e Noriega Varela reconheceram a devida contraída das primeiras manifestações líricas.

Eu próprio, como filólogo amante da poesia, quero constatar esta dívida pela lírica galaico-portuguesa. Tenho que agradecer às pessoas coas que compartilhei recitais, leituras comentadas de muitos textos de literatura e cultura galego-portuguesa. Tudo isso motivou a minha intenção de ser um modesto continuador desta lírica.

Aos começos dos noventa, era membro do conselho de redação da revista universitária Gaveta. No número dois da revista, em 1991, publicáramos uma secção de poesia lusófona com poemas de Pedro Casteleiro, Iolanda Aldrei, Ângelo Brea e Alfredo Ferreiro. Read More

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«O teu corpo a oriente e a ocidente», de Pedro Casteleiro

O teu corpo de Pedro CasteleiroA vontade da Deusa, da Grande Mãe ou da Amada Eterna presidem o livro. Não se admirem, leitoras e leitores, se este livro semelha à vez moderno e antigo. Porque há cousas que não mudam embora nunca ofereçam a mesma figura, como factos diversos sob os quais subjazesse um único gesto divino.

Falarmos em termos de espírito é, todavia, raro nestes tempos. Somos velhas vítimas do autoritarismo eclesiástico e não se torna fácil trazer para a mesa os instrumentos com que a nossa sociedade foi torturada durante séculos, e que são a causa de que muitas pessoas confundam Igreja e religião. Mas nós devemos saltar por cima destes obstáculos referenciais e falarmos abertamente do conteúdo religioso ou, por palavras mais exatas, gnóstico desta obra. Não estamos obrigados a menos, se queremos é transmitir alguma perceção sincera do que é ou pode ser O teu corpo a oriente e a ocidente.

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Raias Poéticas: Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento

Raias Poéticas 2017: Luís Serguilha

No passado fim de semana tive a oportunidade de participar no Raias Poéticas ~ Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento fazendo parte de uma delegação galega composta por Ramiro Torres, Teresa Moure e Tiago Alves Costa. Este é o primeiro do cinco vídeos que compõem o nosso contributo plural.

Este evento nasceu, segundo as palavras o produtor e coordenador do evento o poeta Luís Serguilha, há seis anos para
«_________potencializar a criatividade artística, o pensamento como experiência dançante, a interrelacionalidade, a sismologia das sensações, as mutabilidades, as correntezas transfronteiriças das línguas poéticas ibero-afro-americanas, os movimentos giratórios da interrogação estética
_________aproximar a diversidade, as forças das resistências-vivas, as geografias do nomadismo, as intensidades migratórias, as heterogeneidades dos fluxos cortantes.
_________ecoar as multiplicidades, as redobras, a profusão das diferenças, os espelhos dos entre-cruzamentos, criando uma zona de vozes singulares, vozes-devires________holomovimento antecipador da vida.»

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A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro

Apresentação d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero

«Esté é o vídeo da apresentação do livro do Mário J. Herrero Valeiro A razão do perverso (Ajuste de contas) (Caldeirón, 2016), que venceu no X Prémio de Poesia Erótica Ilhas Sisargas. Com gravação de Táti Mancebo e edição de Alfredo Ferreiro. A seguir, publicamos o texto lido pelo Mário na apresentação da Crunha em 21 de abril de 2017 no coworking Eléctrica, com a presença do autor, do editor Paco de Tano e do poeta Alfredo Ferreiro

{Palavra Comum}

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