A inefável contradição de José Saramago (apontamentos à volta do processo criativo)

José Saramago, por Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui)

Em verdade é ousado vir aqui falar da contradição de um mestre como José Saramago, eu sei. Mas é para a ousadia que nestes dias, como sempre, nos convoca a Festa Literária de Chaves. Porque, não cabe dúvida, é o medo que devemos enfrentar se queremos seguir o ensinamento de um mestre. Para assim acharmos um dia o nosso caminho.

Na conferência A estátua e a pedra, o nosso autor diz:

«Mas a verdade é que eu duvido mesmo que se possa falar de literatura como duvido que se possa falar de pintura ou que se possa falar de música […]. E é como se eu desejasse que tudo acabasse por limitar-me a uma contemplação muda pela consciência que eu tenho de que, de uma certa maneira, em todos estes domínios da arte da literatura, estamos lidando, estamos tentando relacionar-nos com aquilo a que chamamos desde há muito tempo o inefável. O inefável, uma vez que é inefável, é o que não pode ser explicado, é o que não pode exprimir-se, havendo em todo o caso o cuidado de, a partir disto, não cair em ideias de carácter transcendente onde tudo encontraria uma explicação que seria exactamente não ter explicação nenhuma.»

Saramago não deseja “cair em ideias de carácter transcendente”, e reconhece entrar diretamente no terreno da contradição. Segundo as suas palavras:

«Esta atitude não parece racional, porque não parece racionalista uma contradição à primeira vista e é uma contradição numa pessoa que se considera a si mesmo racional, quer dizer que eu tento fazer passar tudo pela razão. Isto não quer dizer que eu tente também fazer passar pela razão os sentimentos que vivem ao lado da razão, embora não haja grande migração de um lado a outro […].»

Com certeza, afirmar um escritor que a literatura trata sobre o que não pode ser exprimido com palavras é uma contradição tamanha. Porventura, não é a literatura a arte que se exprime através das palavras? Mas a literatura acontece, e até há pessoas, por exemplo o Saramago, fazem desta atividade criativa a sua vida e até têm o máximo reconhecimento mundial. Como é isto possível? A resposta a esta pergunta está na vida do homem, mas não no que ele diz.

Acho que José Saramago tentou, mais do que realmente foi, ser racional. A razão impõe uns limites muito rijos para enfrentar a vida, e como a literatura é um modo permanente de nos aproximar aos mistérios vitais, esta constantemente excede as fronteiras do racional. O escritor reconhece outros planos quando referencia o Fernando Pessoa (o sentir ao lado do pensar), mas para ele funcionam como opostos: «Enfim reportando-nos a um verso do Fernando Pessoa quando ele dizia “O que em mim sente está pensando”, eu propunha que esta frase, no fundo mais um jogo de palavras dos muitos com que o Fernando Pessoa se entretém e nos entretém, em vez de dizermos “O que em mim sente está pensando”, e parece que há de facto uma tendência nessa direcção, talvez devêssemos dizer “O que em mim pensa está sentindo”.» Pelos vistos, não só reconhece dois PGLplanos, senão que entende que o racional está por cima do sentimental. Isto é coerente com se reconhecer racionalista, mas tenho para mim que o discurso a seguir demonstra bem o contrário.

Continua a relatar o seu percorrido literário do seguinte modo: «Acontece que, tendo eu começado a minha vida literária muito cedo, uma vez que aos vinte e cinco anos publiquei um romance que não é bom e que só vinte anos depois voltei a publicar, isto leva muitas vezes algumas pessoas de boa vontade a perguntarem-me se decidi ficar calado durante vinte anos para ganhar experiência, para depois começar a trabalhar com mais seriedade. E eu sempre digo que não, porque ninguém tem a certeza de viver mais vinte anos e seria absurdo dizer “Vou agora esperar vinte anos”, como se os tivesse garantidos para depois disso começar a escrever com mais seriedade. Não foi assim e de resto toda a minha vida foi feita sem planos, sem projectos, sem estratégias, sem definir caminhos para chegar a determinados objectivos e isso tem que ver também e talvez sobretudo com a minha própria actividade literária.»

Saramago partilha aqui a sabedoria do mestre sufi Idries Shah, quando diz que vivemos apoiados em pseudocertezas, e a maior delas é que amanhã seguiremos vivos. Mas estima que o pensamento, quer dizer, a atividade cerebral, é superior ao coração, isto é, a vida sentimental. E aqui é quando o seu próprio relato vital e literário ressalta de modo evidente o pouco racional que na verdade era Saramago:

«Verdadeiramente eu nunca tive projectos na vida, há que deixar isto bastante claro e quero demonstra-lo desta maneira. Se eu, em 1976, quando eu escrevi, quando eu estava a escrever o Manual de Pintura e Caligrafia, tivesse escrito num papel aquilo que eu gostaria de vir a fazer, encontrar-me-ia com uma página branca, quer dizer, teria uma página branca que não seria capaz de encher porque eu não tinha projectos nenhuns para o futuro. Ao contrário de Balzac, e quando eu digo Ao contrário de Balzac é ao contrário em tudo, claro está, e mesmo ao contrário de, por exemplo, Fernando Pessoa, que tem listas, que escreveu listas de obras a realizar, eu nunca tive aquilo a que se chama A Obra a Realizar.»

Então, permitam-me perguntar agora: através de que sorte de racionalidade a sua obra conseguiu florir? Vejamos como lembra a composição de vária das suas obras:

«O Memorial do Convento nasceu duma circunstância fortuita e que eu posso contar-vos em meia-dúzia de palavras, que um dia, estando eu em Mafra, com algumas pessoas que me acompanhavam, ou a quem eu acompanhava, e estando diante do convento, os que conhecem o Convento de Mafra sabem que é uma coisa imensa, enorme, e eu disse em voz alta “Gostaria um dia de pôr isto num romance”. Provavelmente se eu não tivesse dito em voz alta, se eu tivesse pensado e calado, a própria dimensão da tarefa provavelmente intimidava-me tanto que eu não tinha escrito o livro. Só que ao pronunciar em voz alta aquilo que eu tinha pensado duma certa maneira senti-me obrigado perante as pessoas que me tinham ouvido que inevitavelmente me iriam perguntar “Então, sempre escreves o romance sobre o Convento de Mafra?”»

«O Ano da Morte de Ricardo Reis foi publicado em 1984, mas a verdade é que a ideia do Ano da Morte de Ricardo Reis é anterior ao Memorial do Convento. O que acontece é que, enfrentando-me com o Ricardo Reis, que é a mesma coisa que dizer enfrentando-me com o Fernando Pessoa, entrou-me um tal pavor, um tal medo de desafiar as iras dos especialistas do Fernando Pessoa, eu que não tinha diplomas nem atributos nem méritos conhecidos para me meter nesse mundo pessoano, que, tal como terá dito outro, Afastai de mim esse cálice, eu disse-me a mim mesmo, Afasta de ti essa tentação.»

A História do Cerco de Lisboa defende «que os cruzados não tivessem efectivamente ajudado os portugueses a conquistar Lisboa. O que é que o autor que sou eu desta confusão toda, porque reconheço que para um leitor desprevenido, o leitor confunde-se nestes diferentes planos narrativos, quis dizer com isto? Também o autor não tem obrigação nenhuma, nem provavelmente se lhe deve pedir, perguntar o que é que quer dizer com isto. Mas como estamos aqui justamente para falar do que se fez e do porque se fez, então aquilo que eu pretendo dizer é precisamente o contrário daquilo que faria o romancista histórico. O romancista histórico faria romances históricos, e com este livro que aparentemente é o mais histórico de todos, o que eu quero dizer é que a verdade histórica não existe.» Então, escreve esta obra para dizer que a verdade histórica não existe? Onde o racionalismo? Ele até afirma:«A verdade histórica, não é que ela não exista, mas provavelmente existe num lugar inacessível, onde não é possível chegar.» Se não é possível chegar, nunca ninguém terá podido escrever certo sobre a verdade histórica, não é?

E continua assim:

«O Evangelho segundo Jesus Cristo, que é um livro que causou muita polémica e que é responsável por eu estar a viver em Lanzarote, é um romance que pelos ecos que me chegaram foi lido em Israel com uma atenção extraordinária devido, digamos, ao próprio carácter humano da figura de Jesus, profundamente humano, totalmente humano. É um livro que eu não projectei, nunca, nunca me passou pela cabeça vir a escrever uma vida ou reescrever uma nova vida de Jesus havendo tantas e tantas de todo o tipo desde as insultuosas às interpretações malévolas, às críticas ferozes ou pelo contrário ao mais comprometido do ponto de vista do dogma. Enfim, sobre esse pobre homem tudo se disse e portanto parece que não fazia falta um livro mais. Simplesmente eu fui obrigado pelas circunstâncias a escrever esse livro, e as circunstâncias foram estas. Estando eu em Sevilha, e aqui estas coisas ligam-se todas, quer dizer, eu estava em Sevilha com a minha mulher, minha mulher é sevilhana, eu não estaria em Sevilha nessa altura nesse momento se eu não tivesse casado com ela, portanto o livro O Evangelho segundo Jesus Cristo escreve-se porque nós nos encontrámos, escreve-se porque ela era de Sevilha, escreve-se porque eu atravessei uma rua naquele momento determinado, porque sem isso não haveria Evangelho segundo Jesus Cristo. Da mesma maneira que também, enfim, isto só é importante para nós, se nós nos encontrámos e nos casámos foi porque ela leu O Ano da Morte de Ricardo Reis. Portanto há aqui uma ligação entre vida e obra que passa até enfim pela intimidade mais extrema. Ora bem, estando eu em Sevilha e atravessando uma rua na direcção dum quiosque de jornais, olhando em frente porque o trânsito vinha dum lado e doutro e enfim eu tinha de atravessar com bastante cuidado mas olhando em frente e ao lado eu leio, e peço que acreditem naquilo que eu vou dizer, leio distintamente no conjunto de jornais suspensos e de revistas que caracteriza qualquer quiosque de venda de jornais e de revistas, leio distintamente em português O Evangelho segundo Jesus Cristo, Em português, ainda por cima, em português. Passei, atravessei a rua, continuei a andar, dez metros adiante paro e digo, Isto não é possível, mas enfim para saber se era possível ou não voltei atrás para verificar e o que eu vi foi que nem estava Evangelho nem em português, nem em espanhol, nem em italiano, nem de forma nenhuma, não estava nem Jesus, nem estava Cristo. Quer dizer, eu tive uma, não é uma alucinação, não, não vamos pôr a questão assim, eu tive simplesmente uma ilusão de óptica. A outra hipótese é que Deus tenha querido que eu escrevesse este livro e portanto colocou ali miraculosamente, foi um milagre, as letras que depois desapareceram.»

Isto que ele descreve como ilusão óptica também se podia chamar de revelação, ou ao menos de visão. O nosso autor pretendia é ser racionalista e “não cair em ideias de carácter transcendente”, assim que preferia falar em termos exclusivos da Física e da Anatomia. Entendia que a literatura tem o seu alicerce no inefável mas penetrar neste assunto era metafísico demais. Ele gostava de escrever e assim, pragmática antes do que teoricamente, o cometido mais profundo da literatura tinha lugar como um milagre que pode ser vivido sem necessidade de o exprimir.

Saramago retratou a sua família reconhecendo que a sua “atitude de espírito” lhe rogava para que atuasse como vassoura da memória, uma atitude que significava ressaltar através da arte escrita o valor humano da gente que ele amava. Sendo sua humanidade um farol que se erguia por sobre a sociedade para iluminar o melhor dela própria.

Reconhece também que os personagens que ele criou foram os seus mestres de vida, os que mais intensamente lhe “ensinaram o oficio de viver”. E este facto só é possível se entendermos função do escritor como o de um médium, alguém que possui o conhecimento da vida no momento em que por ele passa e só através dele se traduz em literatura, entrando pela cabeça de não sabemos quais ignotos arquivos humanos, sendo providos no coração de emoções universais e ornamentados no cérebro por quaisquer artifícios mais ou menos retóricos, para em fim ser vertido através dos dedos para uma caneta e um papel.

Portanto, essa reconhecida contradição não foi um defeito, não foi um erro, pois foi definitivamente resolvida escrevendo, criando, deixando que toda essa humanidade que ele possuía fosse harmonicamente florescida na comunicação com o outro, deixando o seu coração governar a razão e se abrir passo por entre as sombras do mundo, iluminando mediante a arte aquilo que a musa, tão impossivelmente racional, lhe dizia ao ouvido.

Concluo, portanto, que é difícil ser-se artista e se não ser espiritual. A razão disto ─sejamos ao menos um bocado racionalistas─ é facto de o inefável constituir a essência da arte. O mestre falou e tinha razão, muito embora fosse contraditório. Se calhar, não é possível a arte se não assumirmos essa fulcral contradição. Porque o paradoxo pode bem ser, no fundo, a mais velha expressão poética do inefável.

*

Notas: Palestra de Alfredo Ferreiro Salgueiro na mesa “Reflexões à volta de José Saramago” ~ III Festa da Literatura de Chaves (14 a 17 de novembro de 2018); Cf. “Uma conversa com José Saramago”; Caricatura de Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui).

{Palavra Comum}

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palavra comum por marcos ferreiro

Volta a nosa revista galega lusófona: “É com a Palavra que edificamos o Mundo”

palavra comum por marcos ferreiro

Fotografia de Marcos Ferreiro, novo curador na PC

«A Revista Palavra Comum está de volta. Vem renovada nas vontades. Ao mais distraído pode parecer estranha, ligeiramente diferente. Mas é ela, a de sempre, a Comum: inquieta, livre e do Mundo. Nela mantém-se a voz de um tempo, os seus sentidos e as suas ânsias. Os seus caminhos longos e de horizontes largos. Há traços do seu corpo rebelde, há ensejo da paixão. Fronteiras que se desfazem ao seu passo. Vínculos que se fortificam. Eterna busca e territórios de experimentação. Há vida! Porque ela sabe: comovemo-nos com o absurdo de estarmos aqui trespassados por uma urgência. Farejamos esse último aroma, essa sensação de duração, essa assombrosa e impiedosa maquinaria da beleza. Erigimo-nos para nos defender da barbárie. Porque o mundo sufoca. O tempo atomiza-se. E por isso ela vem para demorar-se nesta sua nova etapa. Reagindo a uma “época de pressa”, ao efémero. Por isso ela é Palavra, Comum. Motor do sonho. Instante de deslumbramento. Ninguém poderá estar mais vivo quando dela se acercar. Talvez assim se explique a sua ansiedade, a sua rebeldia, o seu fulgor. Perscrutando talvez o impossível…

A Revista Palavra Comum está de volta, venham juntar-se a ela!»

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Eufeme ~ magazine de poesia

Este ano que está para terminar, tem-me proporcionado muitas emoções, embora não todas sim algumas delas muito positivas. Entre elas, no quadro das sempre adoráveis visitas às amigas e amigos portugueses, foi das melhores ter conhecido a revista Eufeme ~ magazine de poesia e o seu responsável, Sérgio Ninguém, através do que desde há dúzias de anos foi o meu factotum das relações lusófonas, o inspirado e insuficientemente reconhecido poeta Amadeu Baptista.

No número 5 (já esgotado, segundo a editorial) desta formossísima revista portuguesa podem encontrar-se, para além do meu, outros de nomes que bem conhecerão ou deveriam conhecer, se gostarem da boa poesia: Ana Horta, António José Queiroz, Domingos da Mota, Edgardo Xavier, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Francisco Cardo, Gilles Fabre, Gisela, Gracias Ramos Rosa, Jack Galmitz, Jorge Arrimar, Lee Gurga, m. parissy, Maria F. Roldão, Mila Vidal Paletti, Rui Tinoco, Sónia Oliveira e Zlatka Timenova.

Os poemas que publiquei e aqui apresento constituem um avanço do meu novo livro Teoria das ruínas, em breve no prelo da chancela portuguesa Poética Edições, da escritora e já amiga Virgínia do Carmo.

*

CAÇADOR

Nada me compraz tanto observar
como a dourada luz dos astros a desenhar
a placenta embalsamada do mundo.
Num tapete de animais remotos sentir
a força gravitante da espinha dorsal
no percurso de uma dança antiga.
Cantar coa copa cheia
de sangue ritual,
indicar com precisão o lugar
de uma doença velha,
saltar o valado para o primeiro amor
e principiar a vida nesta vida,
no redondo horizonte
de um mar em calma.
Porém, eu sou,
fugitivo da injustiça,
um homem que rouba em sua casa
e logo se perde na névoa
do seu próprio jardim.
Caçador de sonhos,
mato sem sabê-lo
as peças que alcançaram refúgio
no meu coração.

* Read More

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Fotografia Luz aprisionada por Paula Gomez del Valle

“Luz aprisionada”, Paula Gómez del Valle & Alfredo Ferreiro

Fotografia Luz aprisionada por Paula Gomez del Valle

Nossa amiga Paula Gómez del Valle vém de associar esta fotografia sua a um poema meu do livro Versos fatídicos (1994-2010), editado pelas Edicións Positivas em 2011.  O poema faz parte de um pequeno grupo de três textos automáticos que, sob o título “A aliá que nos mostra o caminho ~ Homenagem a Viola”, nasceu a partir da obra do pintor Manuel Viola. A fotografia, que não tinha título, por acordo mútuo passa a levar como título o segundo verso do poema que a seguir reproduzimos:

Caminho da trovoada
uma luz aprisionada.
Um instante de luxúria
antes do amanhecer do metal.
Uma catedral de gozo
e na mão o medo
fechando a compostura.
A lâmpada do coração a piscar
como uma torre quase extinta.
A distinção é precisa.
O ângulo, adverso.
A amizade dos astros,
demasiado custosa.

{Palavra Comum}

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Manifesto O fim do Apartheid

“O fim do Apartheid” na Corunha

O manifesto “O fim do Apartheid”, em favor de maior tolerância gráfica para a língua galega, continua ganhando adesões. São já por volta de 1.100 pessoas preocupadas com a decadente deriva da cultura, reintegracionistas ou não, que têm apoiado o texto com sua assinatura consciente. Porque este manifesto, não tendo que ser por razões de estilo igualmente satisfatório para tod@s, tem a incontestável virtude de ser muito claro no que às suas intenções diz respeito: reclamar o fim da invisibilidade para uma perspetiva da língua que tem sido marginalizada nas últimas décadas embora alguns dos maiores vultos da intelectualidade do país tenha erguido no seu seio grandes obras e o galeguismo referencial do século XX tivesse reconhecido a sua pertinência.

No passado 17 de novembro os avanços do manifesto fôrom apresentados na Corunha, contando com a presença do professor da Universidade da Corunha Xosé Ramóm Freixeiro Mato e da poetisa Eli Rios. O debate posterior não eludiu ressaltar algumas incoerências do mundo cultural galego, mas decorreu no ambiente de fraternidade e respeito que só @s mais conscientes dos crus tempos que vivemos sabem alimentar. Como dizia meu avó, lavrador de trás-Deza que houvo de fazer vida na Corunha de pósguerra: «Paciência, ratos, que ardeu o moínho». E diria eu: daí para diante tod@s a ajudar.

{Palavra comum}

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Teresa Barro: «Un galego ríxido e acartoado, como unha tradución mal feita do castelán»

Teresa Barro PardoTeresa Barro: «[…] Cando os escritores do século XIX como Rosalia decidiron escreber e resucitar unha língua que estaba abandonada, perdida ou desprezada como o galego, fixérono ¨de ouvido¨, porque non había tradición escrita da língua, e inventaron unha grafía que mais ou menos respondía ao que eles escoitaban no galego falado. Daí o ¨unha¨, en vez do ¨una¨ do castelán, para reflectir o son nasal que ten o galego, e daí as equis e os apóstrofos para reflectir sons que non ten o castelán. Se os escritores fosen conscientes e coñecedores do portugués, posivelmente terían optado por escreber con grafía portuguesa, mas, polo alonxamento histórico entre Portugal e Galiza que se produciu a partires da independenza de Portugal, eran tan poucos os vínculos có país veciño que iso non sucedeu, e empezou unha tradición, que segue hoxe, de inventar como se escrebe o galego. E cando o idioma galego se oficializou, non se quixo admitir a historia verdadeira da língua e, transformada en arma política e símbolo da nazón, ¨a língua de Galicia¨ apresentouse como se tivese nacido nun manancial na propia Galicia desde o comezo do mundo en lugar de ter saído do latín como o castelán, o francés e o catalán, e como se non tivese que ver con nengunha outra, e menos que nengunha có portugués. Nun contexto politizado e de comparación continua e pouco acertada có catalán, botóuselle a culpa ao franquismo dunha perda da língua que empezara moitos séculos atrás e tapouse a realidade por xulgala vergoñenta e sinal ¨de non sermos capaces de defender a nosa língua como fan os cataláns¨, cando era o mais natural do mundo e o que tería sucedido en calquer país nas mesmas circunstancias. Iso tivo como resultado un galego ríxido e acartoado, sen vida, e que é como unha tradución mal feita do castelán […]».

{Ler mais em “A historia do galego”, Desde Albión para Galiza}

Nota: Teresa Barro é colaboradora habitual da Palavra Comum.

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