Entrevista a Renato Roque: “Também as memórias necessitam ser salvas”

Renato Roque por Henrique Borges (excerto)Renato Roque apresentou em Morille (Salamanca) e em Carviçais (Trás-os-Montes), no contexto do PAN 2016, um trabalho fotográfico que implica um estudo das similitudes e diferenças faciais das pessoas. Como agora somos amigos, vamos lhe pedir que nos conte em que consistiu exatamente. Por favor, Renato, fala à vontade do projeto…

Renato Roque: Arquivo de Babel / Espelhos Matriciais é um projecto fotográfico desenvolvido no contexto de um mestrado Multimédia, entre 2007 e 2009, em torno do conceito de identidade, associada à imagem distintiva de cada rosto humano. Como reconhecemos um amigo? Que diferença existe entre o meu rosto e o do meu vizinho? Qual a diferença entre um rosto de homem e de mulher, de um europeu e de um africano, ou de um asiático? Que informação nova existe num rosto que nunca vimos antes? Estas são algumas das perguntas que o projecto pretendeu colocar em cima da mesa desde o início, procurando atingir o essencial da informação identificadora num retrato de uma face humana. Foto de Renato Roque Arquivo de Babel / Espelhos Matriciais 1Descobrimos que todas as questões enunciadas acima estão de facto relacionadas com um conjunto de mecanismos que os seres humanos parecem ter desenvolvido durante o processo evolutivo, criando áreas especializadas no cérebro para conseguir uma identificação/ reconhecimento rápidos e extremamente eficazes.

No projecto que desenvolvemos usámos uma Base de Dados (BD) com 439 retratos, realizados na Universidade do Porto: alunos, professores e funcionários, de ambos os sexos, com idades entre os 18 e os 65 anos. […] Ler mais

Share

Magia à beira do oceano

 Muitas vezes minha filha me tem perguntado se acredito em fadas, ou na magia, o que vem dar na mesma, e sempre lhe tenho dito que sim, como agora mesmo acredito, embora em certos contextos limite a minha asseveração ou eluda uma resposta direta por medo à incompreensão de um público pouco propenso ao poético. Para mim o poético é mais abrangente que o racional, inclui este e o transcende vinculando o mensurável aos inúmeros mistérios da vida, e aí tento ter sempre presente o legado surrealista assim como as mais antigas tradições. O verdadeiro conhecimento consiste em descobrir essas ligações, e a atitude mais sábia intuirmos a sua existência.

 A foto que hoje ofereço não representa para mim tão só um instante, mas um sentimento globalizante que parte de mim e abrange a terra e o mar, as pessoas com seus limites e potências, a vida como uma conta que não deixa de somar e da que convém lembrarmos os resultados mais positivos. Foi mercê ao projeto Cultura que Une que conhecemos a Táti Mancebo e eu a Inês Sampaio (música e poeta) e o José Pinto (poeta e performer) em Vila Real, que logo veio juntar-nos de novo em Ponte-Vedra em volta de mais um recital. A continuação partilhámos novas experiências juntos em Coristanco (recital musical improvisado na casa do Júlio e a Sónia, degustação do polvo à feira pescado e cozinhado pelo poeta Xosé Iglesias…).

A compreensão mútua foi tanta, a harmonia na perceção poética tão grande que a magia não podia senão fazer-se presente quando acudimos à Praia de Repibelo. Nesta foto podeis ver como perante a Táti a Inês está a acarinhar a energia poética do Atlântico norte e o José consegue mesmo apresar uma porção da força criadora do oceano.  Hoje o José Pinto está em Cabo Verde e a Inês Pedrosa em Amarante, ambos os dois, se calhar, como nós, alimentando a inspiração com os tesouros que apanhámos juntos durante o verão.

Foto: Táti Mancebo, Inês Sampaio e José Pinto em Arteijo (Galiza), por Alfredo Ferreiro.

{Palavra Comum}

Share

Pedro Casteleiro e Igor Lugris, em foco desde Portugal

Sefer Sefarad, de Pedro CasteleiroParadoxal e felizmente, as alegrias que nos proporcionou no âmbito lusófono A vida conclusa, de Mário Herrero, não concluírom e de novo o Prémio Literário Glória de Sant’ Anna põe em foco a poesia galega. Trata-se das obras de dous prezados amigos e melhores poetas, o Pedro Casteleiro (também colaborador deste blogue) e o Igor Lugris, de quem temos referenciado seus projetos sempre que tivemos ocasião. Os três poetas acima referidos, mas o membro do júri que também contamos entre os amigos poetas, o Xosé Lois García, todos partilham espaço de colaboração na Palavra Comum.

«Continuando a “tradição” desde que o certame foi aberto a galegos e africanos, Igor Lugris e Pedro Casteleiro estão entre os 8 finalistas do certame literário Glória de Sant’Anna 2016. O autor ganhador será anunciado próximo 11 de maio.

Curso de linguistica geral de Igor Lugris 250Igor Lugris é um dos finalistas com a sua última obra, Curso de Linguística Geral, publicada no passado mês de janeiro pola Através Editora. Comparte candidatura com o também galego Pedro Casteleiro com a obra Seferd Sefarad, publicada por Azeta Edicións.

A notícia chega um ano depois de Mário Herrero ter ganhado o certame de 2015 com a obra Da vida conclusa, editada por O Figurante Edicións. […]»

Para ler mais, no PGL: Igor Lugris e Pedro Casteleiro, finalistas no Glória de Sant’ Anna

 

Share

Homenagem a um amigo que retorna

Fotografia Gatos da Pedreira por Alfredo Ferreiro

Gatos da Pedreira, primavera de 2016.

Para A. Pedrosa, traficante de sonhos e tapetes

Ó amigo, lembro-me de ti
agora que morreste
e vejo que floresce
o tempo na tua mão,
e que vens para me fazer
saltar sob o passado
sobre o presente
e por entre os ramos
de um futuro em que os dous
juntaremos nossos corações
ambivalentes
no berço do que nos é comum
ontem, agora e sempre.

{Palavra Comum}

Share

Cultura que Une: Letras Galegas 2016

Proximamente acudiremos a Alhariz e Vilar de Santos para falarmos da nossa revista palavracomum.com e do último projeto de edição do Grupo Surrealista Galego.Cultura que une: Letras Galegas 2016

Share

Na herança templária

Castelo de Tomar

Entrada do castelo de Tomar

A passear por Tomar, por acaso entrei no jardim da Mata Nacional dos Sete Montes, a sul do castelo dos templários. Comecei a caminhar intuitivamente até que topei com um cartaz que anunciava a direção da “Fonte do sangue”. Então pensei: isto é providencial, vou caminho da Fonte do Sangue e eu vestido com a minha camisola de motivos históricos, um dragão e um leão como os que provavelmente teriam usado os descendentes da dinastia galaica que há muito ergueram este castelo na conquista das terras a sul do reino. Assim, sentia, tudo eram felizes indicadores para a minha primeira visita ao castelo templário. Uma visita esotérica sob o sol comum que aos visitantes vulgares aquece.Porém, o caminho perto do castelo nunca chegou a revelar-me a fonte do que quer que fosse aquilo, e o castelo mesmo não quis mostrar-me sua entrada, fazendo-me permanecer sempre por fora de seus muros. O tempo acabava-se enquanto eu andava perplexo o perímetro, e já devia baixar sem demora para comprar o pão na vila. Ao tempo, a minha camisola de profundos alicerces históricos se tornava um fato de simplicidade turística, e as minhas pretensões desejos de tele-novela.

No final da manhã entrei numa livraria de velho em que achei uma edição portuguesa do poeta galego Ernesto Guerra da Cal. O livro tinha uma dedicatória para alguém que o não conservou, ou a quem lhe foi roubado, ou espoliado. Poesia de um galego escrita em português, editada em Portugal e dedicada à Galiza, e o meu país nem sabe nem quer saber o quanto os seus filhos a amam, seus autênticos filhos e não aqueles que a herdam para a malbaratar nos becos que Madrid destina às anomalias e às não declaradas colónias, até por essa colonização tiver começado antes de a colonização ter sido iniciada. E para além desses becos em Madrid não há nada de bom, só deserto e excrementos. Mais além há de novo gente, com certeza boa gente de novo, na ausência da cidade.

diana

Diana, princesa de Poço Redondo

Penso por um instante em comprar o livro do Guerra, mas finalmente dá-me nos olhos uma antologia de poesia portuguesa 1940-1977. Então sim compro, decidido a beber nas fontes do Guerra e deixando este ficar na estante para algum dia voar para a mão de quem precisar descobrir o poeta de além-Minho que se converteu num dos mais reconhecidos especialistas na obra de Eça de Queirós, um galeguinho que fugiu das garras de Franco para lecionar longo tempo nos EUA. Conhecia a antologia, e gostava muito dela desde que o poeta Amadeu Baptista no-la tinha presenteado há muitos anos, e achava que não tinha sido reeditada. Apanhei-na, abri a capa e na portada vi escrito em letra manuscrita o nome de um dos autores da antologia, E. M. de Melo e Castro. Outro espólio, ou talvez o desinteresse dos descendentes de quem tanto amou a poesia.

Deduzi de tudo isto que devia ser uma obra que visa a fraternidade entre poetas, devido a toda a energia poética que contém e a tanta com que deveu ser elaborada. Em verdade, no exato momento em que a vi já sabia a quem a havia de entregar como presente. Assim foi, eu senti imediatamente que acabava de comprar um livro que não havia de permanecer muito comigo, um livro com trinta e cinco anos que ainda pretendia rumar para um outro destino e repousar ainda nas mãos de outro poeta. E não ia ser eu que lhe empecesse o caminho.

*

Para Linda, Gijsbrech e Carlos
regentes do parque de campismo
de Poço Redondo
À burra Diana
Aos cães Sexta-Feira e Sábado
Aos póneis Barby, Kent e Carlotta
Aos gatos
Aos insetos que se deixaram salvar na piscina

Resistência? Salvação?
Vontade? Patriotismo?
Devemos é queimar os montes
do nosso egoísmo.
Existe a nação
ou é só um xarope intelectual?
Ouço gritar um burro todas as manhãs
tão orgulhoso que semelha cantar.
Um burro pagado de si
gritando a pleno pulmão
é uma potência natural agradável,
a afirmação de uma espécie
em perigo de extinção
mas que ainda não esquece
seu lugar no mundo.
Brama o burro como um barco
que volta ou retorna ao mar-maior,
afirmando ele ser
o mais fundo peito da serra ou da ria.
Barcos galegos e burros portugueses
semelham dinossauros preservados
pelos erros do capitalismo.
E a mim, ainda, escritor galego e poeta
já pouco me falta para ser
um animal mitológico
que um dia alguém julgará
não ter existido nunca.
Aquele dia em que o barco descansará
para recreio dos peixes
e os burros continuarão a bradar
por séculos sem conta,
muito além do que possa ficar
da minha memória.

Camping Redondo (Poço Redondo, Junceira), 5-7/9/2015.

{Palavra comum}

 

Share

Encontro na Ribeira Sacra

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.VAVieira_Gina_XLGarcia_AFerreiro_800

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. LivrosXLGarcia_VAVieira_AFerreiro_600Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

{Palavra comum}

Share

4 voltas

4voltasA experiência da leitura remete para a reflexão sobre a essência do humano através da procura dos mais ocultos arcanos, aqueles que estabelecem fórmulas de convívio entre o vegetal, o animal e o racional. Assim o papel grosso, rugoso, a madeira e a pedra nos assaltam como de época pré-histórica, pré-intelectual, pré-científica, pré-racional, profundamente primitiva, focando a vida numa etapa pré-consciente. Mas existe qualquer experiência mental prévia à consciência? Não é isso que quotidianamente se revela como intuição, como sendo um conhecimento «de série» anterior a toda a aprendizagem ou uma associação de ideias prévia a qualquer estudo de campo?

Efectivamente, estamos no âmbito do acto ritual, em que o caos do mundo se torna fórmula apreensível, e os fenómenos naturais, de partida caóticos e insondáveis, fenómenos significativos que é possível decodificar: “entrar no mundo danzando” porque “danzar é acordar”. “Dans le cercle où je deviens”, diz o eu poético, porque o nosso caminho é nos converter num “chercheur d’or”.

Mas o mundo material é trapaceiro, sempre o disse a Tradição que o Platão elevou a filosofia. Porém, a grande trapaça a descobrir não reside nos objetos, mas no sujeito: “ici le brume s’épand au fond de l’oeil”. Porque o órgão de visão limita a percepção e desta depende, de partida, a interpretação. Por isso o trabalho primeiro consiste na apuração íntima e inexcusável de encontrar a essência do eu: “O val atópame espido”.

Manchas de cor, letras como vestígios de criação poética primigénia, palavras como restos de placenta poética fossilizados, grafemas em relevo como «grafoglifos» que o acaso nos trai e que nos provocam a «reminiscência», a lembrança do ser essencial que transmutado em poeta desde o início dos tempos conecta o passado e o presente, o que somos e o que nunca deixamos de ser. Lemos esta obra como se das «Tábuas da lei poética» se tratasse, um documento ancestral escrito sob a influência do “sorriso da Moura”, para depois, quando alçarmos a vista, descobrirmos “l’univers serein”.

4 Voltas, de François Davo, Tono Galán e Rubén Fenice. «Livro de artista», Taller Milpedras, 2014.

{Palavra comum}

Share

A Geração Fénix

Poucas entrevistas vi ultimamente que me animassem deste modo a encetar novos projetos e a acreditar em que um outro modo de agir, longe da permanente negatividade que nos lançam desde os meios, é possível. Kingsley Dennis é já, para a nossa honra, um colaborador habitual da Palavra comum, que no dia de onte cumpriu o seu primeiro ano de vida.

Share

Nanã, para Begoña Caamaño

Hoje quero relatar um percurso emocional e intelectual que começou há aproximadamente uma semana. Tudo começou com a lembrança de uma canção que, lá no mês de Julho me tinha impressionado: Nanã, interpretada por Elza Soares. A canção, que a seguir reproduzo, causou em mim uma grande turvação,

tanto pela voz da cantora, que vindes de ouvir, quanto pela letra, que diz assim:

NANÃ
Esta noite quando eu vi Nanã
vi a minha deusa ao luar.
Toda a noite eu olhei Nanã
a coisa mais linda de se olhar.
Que felicidade achar enfim
essa deusa vinda só pra mim,Nanã.
E agora eu só sei dizer
toda a minha vida é Nanã.
É Nanã…

A canção faz referência à Nanã Buruku, que no Brasil resulta ser um «orixá das chuvas, dos mangues, do pântano, da lama, senhora da morte, e responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne)». Mas estas referências à noite presidida por uma lua acesa e a plenitude íntima que aqui se descreve traz à minha memória algumas teorias sobre a antiquíssima origem das Virgens negras do Românico europeu, que as relacionam com cultos pré-cristãos vinculados a uma fascinante retícula de relações conceptuais em que dançam juntos os atributos da Mãe Tríplice dos celtas, a Isis dos egípcios, a Ishtar dos acádios, a Inanna dos sumérios, a Venus dos Romanos e a Sta. Brígida dos irlandeses, se não mais.

[…] Ler mais

Share