Plantar Rosas na Barbárie, por Luís Serguilha

«Plantar rosas na barbárie», poesia da falésia

«Pois bem, que assim seja! Que minha guerra contra o homem se eternize, já que cada um de nós reconhece no outro sua própria degradação… já que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitória desastrosa ou sucumbir, o combate será belo; eu, sozinho contra a humanidade».
Lautréamont, Cantos de Maldoror

Plantar Rosas na Barbárie, por Luís SerguilhaTodos o poemas do livro de Luís Serguilha semelham um único objeto mutante, como que evidenciando as inúmeras perceções que experimentamos do mundo. Há nesta obra um combate contra a moral poética, um desacato ao sentido institucional do verso, e não só da perspetiva formal – por escrever poesia em prosa – , mas também quanto ao sentido percebido, que se torna um autêntico e constante torvelinho semântico. E há até um combate frontal contra a Academia e seus carros de combate, quer dizer, os géneros literários. Devido a isto, já nos atrevemos a vaticinar que o sucesso crítico não vai vir dos âmbitos mais institucionais, ou o que é o mesmo, das retículas clientelares do sistema literário.
Porque Plantar rosas na barbárie implica uma reflexão profunda sobre a nossa perceção do mundo e, neste quadro, mediante a amostra de tantas relações em convívio louco e frutuoso, defende a impossibilidade poética de aquela perspetiva eminentemente racional a que o Sistema pretende vincular-nos. Nada há no mundo de verdadeiramente interessante que se possa perceber racionalmente. Ao contrário, todo o que nos interessa realmente é misterioso, paradoxal, proibido pela moral ou a lei, impronunciável, inabarcável, imensurável… mas profunda e definitivamente desejável.
O desejo e sua fome permanentemente insatisfeita é um dos alicerces desta escrita em que tudo pretende abarcar-se, poetizar-se, mas nunca caçar-se, possuir-se ou controlar-se. O discurso literário surge como nascido de si próprio, e em plena liberdade desenvolve-se mediante um efeito de autogeração mágica. Nada parecido como as fórmulas catalogadoras do Poder. Nada, portanto, desejável para ele. Tudo, como acontece na vida, sempre a bordo da falésia.

{Palavra Comum}

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Eufeme ~ magazine de poesia

Este ano que está para terminar, tem-me proporcionado muitas emoções, embora não todas sim algumas delas muito positivas. Entre elas, no quadro das sempre adoráveis visitas às amigas e amigos portugueses, foi das melhores ter conhecido a revista Eufeme ~ magazine de poesia e o seu responsável, Sérgio Ninguém, através do que desde há dúzias de anos foi o meu factotum das relações lusófonas, o inspirado e insuficientemente reconhecido poeta Amadeu Baptista.

No número 5 (já esgotado, segundo a editorial) desta formossísima revista portuguesa podem encontrar-se, para além do meu, outros de nomes que bem conhecerão ou deveriam conhecer, se gostarem da boa poesia: Ana Horta, António José Queiroz, Domingos da Mota, Edgardo Xavier, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Francisco Cardo, Gilles Fabre, Gisela, Gracias Ramos Rosa, Jack Galmitz, Jorge Arrimar, Lee Gurga, m. parissy, Maria F. Roldão, Mila Vidal Paletti, Rui Tinoco, Sónia Oliveira e Zlatka Timenova.

Os poemas que publiquei e aqui apresento constituem um avanço do meu novo livro Teoria das ruínas, em breve no prelo da chancela portuguesa Poética Edições, da escritora e já amiga Virgínia do Carmo.

*

CAÇADOR

Nada me compraz tanto observar
como a dourada luz dos astros a desenhar
a placenta embalsamada do mundo.
Num tapete de animais remotos sentir
a força gravitante da espinha dorsal
no percurso de uma dança antiga.
Cantar coa copa cheia
de sangue ritual,
indicar com precisão o lugar
de uma doença velha,
saltar o valado para o primeiro amor
e principiar a vida nesta vida,
no redondo horizonte
de um mar em calma.
Porém, eu sou,
fugitivo da injustiça,
um homem que rouba em sua casa
e logo se perde na névoa
do seu próprio jardim.
Caçador de sonhos,
mato sem sabê-lo
as peças que alcançaram refúgio
no meu coração.

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