Auschwitz em Mucela por Alfredo Ferreiro 2019

Amanhecer no rio Alva

Ponte d’Arte

Num fim de semana em outubro de 2017 as chamas engoliram quilómetros e quilómetros de florestas de eucalipto e pinheiro em Portugal. Os incêndios mataram 63 pessoas na região de que faz parte Ponte da Mucela (Arganil). Algumas ficaram presas enquanto tentavam fugir em seus carros. Dezenas ficaram feridas e milhares foram evacuadas de suas casas. Muitos edifícios foram destruídos —incluída a grande oficina de camiões de Ponte d ‘Arte e, com ele, uma quantidade substancial de obras de arte e pertenças.

Ponte dArte por Alfredo Ferreiro 2019
Ponte d’ Arte por Alfredo Ferreiro 2019

Mas Celia e Kris desafiaram o futuro e decidiram assumir riscos, reconstruirem e seguir em frente. Dois anos após o incêndio, apresentaram o que será uma galeria de arte construída a partir das suas prezadas ruínas. Durante uma residência de 12 dias, vários artistas e um escritor foram convidados a criar obras in situ como um palimpsesto, contextualizando o acontecido na região e refletindo a partir da resiliência da sua comunidade. Assim, juntos “sobrescreveram” os traços da paisagem e os numerosos remanescentes do inferno, enquanto exploravam a maneira mais eficaz de expressar o desastre e a recuperação da vida.

As Bouças de Mucela por Alfredo Ferreiro 2 2019
As Bouças de Mucela por Alfredo Ferreiro 2 2019

Várias perspetivas criativas estiveram disponíveis nas instalações e nos espaços imediatos disponibilizados por estes professores de arte. Contaram com os resíduos e as abundantes relíquias que ficavam à espera de ser exploradas. Os detritos queimados e a chuva que se seguiu ao lume produziram tons, tonalidades e texturas surpreendentes, marcas corrosivas e formas contorcidas e fixadas que o público, assim que temperadas pelo talento, pôde descobrir.

Caminho da Moura Morta por Alfredo Ferreiro 2019
Caminho da Moura Morta por Alfredo Ferreiro 2019

Podemos dizer, após esta experiência de convívio artístico, que a memória não é um cofre para guardar as lágrimas senão um forno para cozinhar a dor do passado e fazer um pão novo com que alimentar a alegria de viver. Nestes dias de trabalho inspirado temos compartilhado reflexões artísticas com pessoas de vários países (França, Itália, Letónia, Coreia, China, Uruguai, Bélgica, Galiza, África do Sul…), mas também cozinhado produtos locais e desfrutado juntos, sempre contando com o apoio e o interesse dos vizinhos de Ponte de Mucela. A todas ficamos gratos e por isso a todas quisemos mostrar os frutos do esforço realizado, quer dizer, a nossa vontade de apurar o talento artístico e convertê-lo num recurso proveitoso para todos.

A escrever sobre a cinza

Quanto a mim, escritor em residência, tinha chegado da terra verde de além-Minho convidado a um convívio criativo com o propósito de refletir poeticamente sobre o conceito de resiliência no que diz respeito dos incêndios. Descrever a desolação do monte calcinado, a solidão das pedras despidas e a esforçada vontade das árvores jovens num deserto de cinza era talvez a tarefa mais evidente. Mas logo que comecei a escutar ou, melhor, que comecei a sentir os efeitos da tragédia nos corações das pessoas, houve de entender que aquele cataclismo compartilhado se tinha tornado uma experiência particularmente marcante em cada indivíduo.

As Bouças de Mucela por Alfredo Ferreiro 2019
As Bouças de Mucela por Alfredo Ferreiro 2019

2017 era a data funesta, e eu próprio nem podia esquecer de que modo para mim na altura uma vida acabou e outra distinta deu começo.

Na minha Galiza estes incêndios são comuns, se calhar pelas mesmas razões económicas e a causa das mesmas criminosas intenções, porém a minha conexão poética foi mais profunda: devia é falar em termos de incêndios interiores, catástrofes pessoais, lumes que abrasam o que nos rodeia enquanto a alma fica paralisada…

Rio Alva em Moura Morta por Alfredo Ferreiro 2019
Rio Alva em Moura Morta por Alfredo Ferreiro 2019

No entanto, como incluir o conceito de resiliência após um acidente que põe em xeque a nossa vida? Se calhar só é possível, por duro que possa parecer, assumir que nem sempre o que desaparece de vez, sob o lume ou por outra causa, acontece para o nosso mal. Se calhar só cabe entendermos a desaparição da realidade conhecida como uma oportunidade que a vida nos dá para pôr a prova a nossa energia criadora, uma energia que sempre é capaz de nos fazer ressurgir se for preciso, uma energia universal, porque cósmica, à que sempre devemos estar conectados. Com estes vimes foi que teci este poema:

AMANHECER NO RIO ALVA

Quanto vale uma casa
se não for construída
com as nossas mãos?
Podemos carregar
os pesados tesouros do passado
e logo um incêndio desalentador
vir-nos despojar daquilo
que nos arrastava ao fundo,
um incêndio devastador
para aquilo que nos sobrava
até porque desconhecemos a escravidão
do que sempre servimos como condenação,
aquilo que só a nós cabe
e que só por nós se cumpre
na nossa casa e fora
no que sempre sonhamos que não podia ser
porque mesmo os sonhos nasciam
para nos enganar com lágrimas doces.

O espírito criador não se conforma
com desfrutar do alheio
porque o velho traz uma luz
que não esclarece a vida
não ilumina o caminho
de um presente sempre a mudar
que cresce na surpresa de cada dia
que floresce em cada expiração
e em cada latejo é nossa sempre
como se um novo ser surgisse do nada
para o longínquo futuro do que somos
do que sempre fomos
apesar das âncoras que nascem dos sonhos
para nos alagar nos desejos de outrem,
pedras que viajam connosco
na carreta que não deixamos de empurrar.

Mas um dia descobrimos que o nosso destino
sempre esteve associado ao lume.
Desde que nascemos ardemos cada dia
e nem por isso deixamos de nos surpreender
quando as brasas queimam a nossa pele.
O lume consome a memória.
Por isso tudo é novo após o incêndio
por isso o lume é purificador
sendo o único que a cinza deixa
a vontade dum novo amanhecer.
Em cada fogueira celebramos o ritual
e sem sabermos um lume avança
sob os nossos pés
mas ninguém repara
nessa presença espiritual
no seu valor como representante enviado
pelo coração da Terra,
pois tudo enfim eclode
como um vulcão aparece,
assim todos os que nascemos
dum útero terrestre.

O fogo é aquilo que nos aquece
desde o amanhecer no rio
até o pôr-do-sol no oceano.
Só à noite a lua arrefece
a vida enquanto acende
as sombras que contornam os sonhos,
dos desejos suas sementes.
Ó venerada Moura,
prostrado a teus pés
presto homenagem à tua memória,
Senhora que desatas os nós do mundo,
por ti os caminhos não acabam
nem as fontes se esgotam
nem os corações desamam.

Ponte de Mucela (Arganil), 13 de outubro de 2019

*

Nota: Estes textos foram lidos na festa de clausura do “In Situ3 – Workshop 1” da Ponte das Artes.

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{Palavra Comum}

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Eufeme ~ magazine de poesia

Este ano que está para terminar, tem-me proporcionado muitas emoções, embora não todas sim algumas delas muito positivas. Entre elas, no quadro das sempre adoráveis visitas às amigas e amigos portugueses, foi das melhores ter conhecido a revista Eufeme ~ magazine de poesia e o seu responsável, Sérgio Ninguém, através do que desde há dúzias de anos foi o meu factotum das relações lusófonas, o inspirado e insuficientemente reconhecido poeta Amadeu Baptista.

No número 5 (já esgotado, segundo a editorial) desta formossísima revista portuguesa podem encontrar-se, para além do meu, outros de nomes que bem conhecerão ou deveriam conhecer, se gostarem da boa poesia: Ana Horta, António José Queiroz, Domingos da Mota, Edgardo Xavier, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Francisco Cardo, Gilles Fabre, Gisela, Gracias Ramos Rosa, Jack Galmitz, Jorge Arrimar, Lee Gurga, m. parissy, Maria F. Roldão, Mila Vidal Paletti, Rui Tinoco, Sónia Oliveira e Zlatka Timenova.

Os poemas que publiquei e aqui apresento constituem um avanço do meu novo livro Teoria das ruínas, em breve no prelo da chancela portuguesa Poética Edições, da escritora e já amiga Virgínia do Carmo.

*

CAÇADOR

Nada me compraz tanto observar
como a dourada luz dos astros a desenhar
a placenta embalsamada do mundo.
Num tapete de animais remotos sentir
a força gravitante da espinha dorsal
no percurso de uma dança antiga.
Cantar coa copa cheia
de sangue ritual,
indicar com precisão o lugar
de uma doença velha,
saltar o valado para o primeiro amor
e principiar a vida nesta vida,
no redondo horizonte
de um mar em calma.
Porém, eu sou,
fugitivo da injustiça,
um homem que rouba em sua casa
e logo se perde na névoa
do seu próprio jardim.
Caçador de sonhos,
mato sem sabê-lo
as peças que alcançaram refúgio
no meu coração.

* Read More

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Revista DiVersos ~ Poesia e tradução nº 25

Apresentação da revista DiVersos no Porto, em Santiago e na Corunha

Nesta semana, na quarta 22 de março em Santiago (20:00 hs. na livraria Chan da Pólvora) e na quinta 23 na Corunha (no café-livraria Linda Rama), a revista DiVersos – Poesia e tradução será apresentada na Galiza. São já 20 anos desde a sua fundação (1996-2016) e mais de 300 nomes da poesia que foram aqui publicados, em língua original ou traduzidos. Contaremos nos dous eventos com a presença do seu editor, o amigo José Carlos Marques, da Edições Sempre-Em-Pé, assim como com a do escritor e professor Carlos Quiroga em Santiago e o poeta Ramiro Torres na Corunha. O nosso propósito será, para além de apresentarmos uma revista de que tanto gostamos e na que nos orgulhamos em participar, tentarmos estabelecer as bases para uma colaboração permanente entre galegos e portugueses.

O vídeo oferecido cá responde ao evento que celebramos no Porto no passado 3 de março. Animamos @s amantes da poesia a acudir aos encontros previstos para esta semana na Galiza.

*

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Galiza e Portugal qual fronteira A

Galiza e Portugal qual (quais) fronteira (s)? ~ Debate no Porto

São muitas as interrogantes que uma pergunta assim faz remexer no miolo. Até porque há muito que não posso deixar de pensar “quais as fronteiras da Galiza?”. E não só a respeito de Portugal, essa irmã gémea que se criou sem as tutelas opressoras do colonizador Reino de Castela, mas a respeito do mundo. Porque para emigrar a Galiza não teve fronteiras, mas para crescer orgulhosa de seu corpo e espírito, livre de normas e preconceitos aniquiladores, é que sempre encontrou obstáculos por toda a parte. Há uma questão de psicologia social, se calhar, que talvez deve ser abordada de um novo modo. É isto uma intuição ou uma necessidade deduzida da queda incontestável da sua cultura? Deixo uma versão para as mentes espiritualistas e outra para as racionalistas.

A Galiza precisa de Portugal, porque é nele que se conserva um sangue compatível para uma imprescindível transfusão. Portugal não sei que é que precisa, mas não assumir seu passado galego será reconhecer que existe um trauma ou um problema identitário sem resolver. Hoje sabemos, depois de ser-nos ocultado por séculos sem conta, que a Galiza medieval, a visigótico-sueva, a romana e a celta é um território vivencial transminhoto que só nos corresponde reivindicar se o honramos fazendo-nos merecedores de seu legado. Um tesouro por descobrir, e talvez a chave de um futuro que até agora nos foi vedado. Read More

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Terra coletanea publicada de fotografos e poetas galegas e portuguesas publicada por Cultura que une 2015

Terra, edição de “Cultura que une”

Terra é um livro coletivo editado pelo projeto transminhoto «Cultura que une», uma aposta galego-portuguesa por fazer da antiga cultura galaica comum, muito mais extensa do que os limites políticos e territoriais da atual Galiza, uma experiência do nosso tempo. Não se trata de mover ou eliminar fronteiras mas de viver como se elas não existissem, nem de concorrer pelos méritos do passado ou do pressente mas desfrutar do convívio natural a que uma mesma terra nos convida desde há milénios.

É nessa sequência que nasceu a primeira publicação de Cultura que une, um livro iluminador que tudo o conta já no título: Terra. Consiste numa coletânea de fotógrafos e poetas galegas e portuguesas que partilham por pares suas particulares maneiras de ocupar a folha em branco. De partida, as fotografias foram propostas e a seguir os poemas, inéditos e não só, foram aconchegados para fornecer outros pontos de fuga.

Fotografia: António Pinto, Anxo Cabada, Catarina Almeida, Diogo Cardoso, Fernando Ribeiro, Iván Merayo, João Madureira, Maribel Valdivieso Varela, Santi Amil, Xosé Luís Alonso.

Poesia: Alfredo Ferreiro, Amadeu Baptista, António Fortuna, Berta Dávila, Carlos Da Aira, João Madureira, José Braga-Amaral, Ramiro Torres, Virgínia do Carmo, Yolanda Castaño.

Uma versão áudio-visual dos conteúdos pode achar-se no Canal Culturaqueune.

Disponível na Galiza na livraria Aira das Letras de Alhariz e em Portugal na Traga-Mundos de Vila Real.

Fotografia Frigindo os rojoes no pote por Joao Madureira

Frigindo os rojões no pote, por João Madureira

ARDER

Arder, aquecer no pote
o tempo e perceber o doce sabor
de aquilo que nasce
aquilo que morre
aquilo que mora no bordo da existência,
como um fungo que raramente aparece
e logo se oculta, fugitivo insensato
na derme sacra da terra
nas leves asas do vento
nas iriadas brânquias do mar,
que em nenhum lugar permanece
por ser apátrida sempre
onde outros erguem bandeira
e defecam pomposamente.
Caminhar sem tempo
alargadamente num único latejo
pela imagem da lua que dança
na marisma de um pensamento cordial,
maravilha do sacro no quotidiano.

Alfredo Ferreiro. Inédito

*

«A Galiza e o norte de Portugal, filhos de uma mesma cultura que ficou truncada, não tanto na época em que D. Afonso Henriques proclamou a independência do Condado Portucalense, mas sim quando foram implantados os tratados de limitação de fronteiras por estados liberais fortemente jacobinos e centralistas ao longo do século XIX.
Nas duas primeiras décadas do passado século XX, intelectuais e criadores galegos e portugueses falaram da necessidade do reencontro. Mas as violências do século XX, nomeadamente as ditaduras, a Guerra Civil Espanhola, a repressão, as dificuldades económicas que afectaram os povos ibéricos pareceram silenciar este diálogo que, na forma de encontros entre arqueólogos, escritores, filólogos, etc., continuaram à margem do discurso oficial.
Amarante é um referente para este reencontro e também encontro. A figura de Teixeira de Pascoaes, grande admirador de Rosalía de Castro (Pascoaes escrevia a Risco que haveria de se lhe fazer uma homenagem) foi um referente simbólico para uma intelectualidade galega. E não só Pascoaes. Também Leonardo Coimbra, Santos Júnior, Carlos de Passos, Hernâni Cidade, Rodrigues Lapa, Vicente Risco, Viqueira, Noriega Varela, Castelao, Filgueira, Jenaro Marinhas del Vallhe, Valentín Paz Andrade, Carvalho Calero, são um bom exemplo de intelectuais que, em algum momento da sua vida, trabalharam para o reencontro.
Mas se é necessário o reencontro também é igualmente necessária a redescoberta de um património cultural que teve origem no território da Gallaecia romana e que teve na língua galaico-portuguesa a sua fonte de criação. O património comum galaico-português faz parte do acervo da humanidade em criações tão singulares como as cantigas medievais da nossa lírica que transparecem uma rica tradição oral onde beberam os trovadores. A cultura popular comúm que manteve a sua vitalidade até ao presente, apesar da fronteira política, debe obter o seu maior reconhecimento mediante a inscrição na Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.
A aprovação a 11 de Março de 2014 pelo Parlamento Galego da Lei Valentín Paz-Andrade, fruto de uma Iniciativa Legislativa Popular, publicada no DOG de 8 de Abril de 2014, convida-nos, e até certo ponto obriga-nos, a aprofundar o esforço do reencontro.
Para contribuir para fazer da Lei realidade, damos impulso às seguintes actividades a desenvolver em Amarante e na Corunha nesta edição de 2015, que esperamos que não seja a última. A eleição destas duas cidades para a presente edição não é arbitrária. Se Amarante tem a força simbólica de Pascoaes, a cidade da Corunha é onde está a sede da Academia Galega, instituição civil constituída por aqueles que pensavam no ressurgimento da Galiza.
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{Cultura que une}

Proximamente culturaqueune.com

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