Amadeu Baptista vence XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante? Read More

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