Lembrança da professora de literatura

Porque a vida consiste em sucessivas mutações do amor, a Maria Díaz Vidal, in memoriam

Ó Maria, acho menos as tuas coxas
carregadas de poesia,
teus lábios de vénus aloirada
e teus quadris para sempre rimados
no meu coração.
Teus andares sinestésicos
forneciam a métrica semanal
do tambor literário que ardia
no meu peito, adolescente encavalgado
na metáfora encarnada
que às vezes imaginava
sob as meias florais de um sonho.
Porque é assim o amor e assim
se reveste de sexo para apontar mais alto
e fazer-nos vibrar
sobre os estúpidos cumes do convencional.
Porque o erótico é o grande catalisador
de tudo aquilo que cresce,
mesmo se não se tratar
das calças de um adolescente.
Agora sei que morreste, Maria,
e fico triste por não ter chegado a tempo
de te dizer o muito que gostava
das tuas pernas e das aulas de literatura,
e de como umas e outras
são só uma e a mesma cousa:
o desejo que provém da carne
e o prazer de escrever um verso que arde.

{Palavra comum}

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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