«Há uma ferida que se aquieta»

(O meu agradecimento ao Maurício Vieira da revista Arvoressências pela publicação deste poema)

Há uma ferida que se aquieta
no fundo de uma branha,
há uma branha profunda
como uma ferida inquietante
que penetra a pele da terra
em sangue e auréolas
de lágrimas incessantes,
uma tristeza que se expande,
um sentimento líquido em que nascem
juncos como filhos
de uma tristeza grave
que já ninguém quer lembrar.
Há uma tristeza na branha
que nos molha e nos penetra
como uma pneumonia crónica
que de tão antiga já nem magoa,
porque está feita do mesmo barro
com que se fazem os olhos,
as vaginas
e as glândulas salivares.
Porque a branha é a nossa
cara humidade penetrante,
nossa sacra terra molhada,
nossa mãe no momento de parir-nos,
nossa placenta,
nossa própria alma
no dia em que vibramos
com a primeira palavra.

*Nota: Na Galiza “branha” significa “terreno pantanoso abundante em juncos e pastos” (Cf. https://estraviz.org/branha).

Do livro inédito de Alfredo Ferreiro Salgueiro Estrangeiros na noite

*

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

One thought on “«Há uma ferida que se aquieta»

  1. Graciela Rabuñal

    Uma tristeza prufunda e um mistério oculto nesta poesia tem a ver com a origem mesmo da vida e coa consciência da morte também. Muito para pensar e partilhar. Obrigada por isso ¡Parabéns ao escritor e amigo!

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