Letras Galegas, enfim um futuro possível

O galego era, portanto, simplesmente um falar. Por isso, não compreender que o povo precisava de língua a sério é estar errado no essencial. E abandonar os falares galegos porque portam o estigma da miséria não é um ato de auto-ódio mas, tudo pelo contrário, é um ato de amor. Do mesmo modo que muitos pretos em épocas passadas terão desejado que seus filhos tivessem nascido brancos, muitos dos homens e mulheres da Galiza desejam ou permitem hoje que seus filhos não falem galego. É preciso abandonar o lastro da indignidade e abraçar uma hipótese certa de futuro. A tanto obriga o amor pelos filhos, a tanto obriga a vida quando por sobre todos os obstáculos precisa de abrir-se caminho.

No entanto, não alimentar os filhos com a língua em que o sangue fala tem um preço muito alto. Desdenhar os valores ancestrais, desarraigar-se até o ponto de desprezar a cultura que desde um passado excelso, embora desconhecido, nos conduziu ao presente, tem consequências na psicologia social. Como ser-se um povo que acredita no futuro se no passado só se reconhece vergonha e carência? Como atrair para nós a abundância e a criatividade sem sentirmos que pertencemos a uma estirpe universalmente digna que nunca deixou de convocar as forças cósmicas para tirar da Terra o frutos que nos são sagradamente destinados?

Esses falares galegos, por centenas de anos sem forma escrita e continuamente influídos pela língua imperial espanhola, chamados de língua galega assim que forçados na modernidade a uma norma culta híbrida academicamente construída e só ritualmente usada pelo Poder e os meios de comunicação, são qualquer cousa que o povo continua sem amar, até porque não podem se sentir ainda como uma língua, e muito menos como própria. Não é própria de quem a fala sem coração e só durante umas horas perante o microfone para ganhar um salário, e não é própria de quem mamou outra cousa do peito de sua mãe, qualquer cousa de autêntica embora não ter consideração de língua. Portanto esse falar elevado artificialmente a culto, por muito que como língua possa ser vendido na Academia, ninguém quer comprar, e assim a dita língua galega atual foi indo à míngua sem remédio.

Promovido por Ricardo Carvalho Calero, houve na décadas de 70 e 80 a consolidação do velho projeto de reintegrar a língua galega no sistema linguístico que lhe é próprio por direito, até porque a língua portuguesa nasceu historicamente da sua matriz. E não há maior direito no universo do que aquele que provém da mãe. Mas seguindo esta alegoria do familiar, se calhar cabe pensar que os galegos, se bem temos por mãe cultural aqueles falares galegos que nos fornecem do aspeto telúrico essencial, temos hoje dous pais no que diz respeito das línguas que servem para conquistar e amar o mundo: o castelhano e o português. Da relação da Terra com o castelhano surge o vínculo com a hispanofonia e da relação com o português, surge a lusofonia. Nenhuma das duas opções tem, a meu ver, consequências fáceis de harmonizar, é certo, mas esta diversidade de caminhos tem de ser assumida como riqueza antes do que como irresolúvel contradição. O nosso futuro como sociedade está em causa, e devemos dar passos para a frente em lugar lamentar permanentemente um passado obscuro. Até porque do mais obscuro na noite é que nasce um novo amanhecer.

Nesta linha, nos últimos tempos há propostas que tentam salvar as estratégias que se têm revelado como infrutuosas, e novas atitudes que visam a convergência das energias mais positivas são capazes de se sentarem ao lado para trabalhar. Assim, celebramos que enfim a figura de Ricardo Carvalho Calero, por dezenas de anos afastado do reconhecimento universal que sua vida e obra merecem, suba à palestra dos maiores homenageados das Letras Galegas. Fizeram falta muitos anos e muitos esforços para que este reconhecimento tivesse lugar (lembremos a defesa permanente da sua homenagem oficial pela Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega), e agora é que vai ser preciso alargar, necessariamente, o conceito de Letras Galegas: não poderão ser unicamente as letras castelhanas aquelas em que se pode grafar o galego, mas também aquelas com as que o galego vestiu as sua primeira literatura na Idade Média e que hoje ostenta com universal privilégio a língua portuguesa. Por isso celebro hoje, no meio duma crise sanitária mundial as decisões a que uma crise cultural, centenária mas enfim enfrentada na Galiza, deu lugar: o desvendamento da figura do velho professor que, como outros também desdenhados pelo poder pela mesma causa, ansiava recuperar toda a dignidade a que a língua galega tem direito, para uso dos galegos e do mundo inteiro (cf. Carvalho Calero 2020).

Para finalizar este texto tantas vezes imaginado e só agora escrito, quero parabenizar a Associação Galega da Língua, a Real Academia Galega e a Junta da Galiza, por terem sabido trazer para a cima da mesa muito do que como galegos nos une, na tentativa talvez inédita de pôr realmente de acordo, no sentido etimológico, as “tribos” da Galiza. É um caminho que sem dúvida custará seguir, mas que com certeza nos levará à união de forças, ao aproveitamento da imensa criatividade que nos desborda e a uma abundância de recursos que só poderá conduzir ao bem estar social.

{palavracomum.com

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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