Letras Galegas, enfim um futuro possível

Carvalho Calero 2020
Carvalho Calero 2020

Os galegos somos um povo iletrado porque temos uma língua sem letras. Essa foi a preocupação na maturidade do professor Ricardo Carvalho Calero, de que hoje celebramos a obra. O erudito de Ferrol foi cientista, escritor e político preocupado com o porvir da língua galega, a que só via futuro se enquadrada no âmbito da lusofonia. Mas porquê se preocupar por uma língua que, segundo a romanística europeia do século XX, está viva desde há mais de mil anos e é divulgada por vários continentes ao largo de mais de 250 milhões de gargantas?

O galeguismo do século XX, empenhado com a dignificação da língua galega, acusou o povo de desprezá-la e desse modo mostrar uma sorte de patologia social que se traduzia na assunção do castelhano, língua alheia, em detrimento do galego. Mas o povo não abandonava uma língua quando deixava de falar em galego, porque o tal galego, se bem olhado, não semelhava ser língua: não era usado para falar com o médico, nem com o jurista, nem com o farmacêutico, nem era a língua ensinada pelo professor, nem a língua louvada como de literária. Era a língua que por costume, não por ciência, tinham os labregos, era a língua dos que abaixavam o lombo de sol a sol, a língua dos que pouca ou nenhuma terra tinham, a língua dos que na escola eram castigados recebendo com a régua nas mãos por não saberem falar castelhano. Era a língua, em definitivo, dos que não tinham língua.

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Alfredo Ferreiro nasceu na Corunha em 1969. Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua. Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas, entre elas Anto e Saudade, sob a direção de António José Queiroz. Na atualidade é membro do Grupo Surrealista Galego. Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial, para além de em diversos projetos digitais. De 2008 a 2014 dirigiu, junto com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Desde 2006 é asíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. Atualmente colabora no jornais Praza Pública e Sermos Galiza. A inícios de 2014 fundou, junto com Táti Mancebo e Ramiro Torres, a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono. Desde outubro de 2015 é coodenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteixo.

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