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Saramago: «o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português»

José Saramago por Rui Rodrigues de Sousa (Desenhos do Rui)

Neste mês de novembro está a ser celebrado o centenário do falecimento de José Saramago, um vulto das letras universais que não deixou de olhar para a Galiza. Há muitos anos, quando bem ativo e já muito renomeado, visitou Compostela e um dos colaboradores mais antigos deste blogue, Pedro Casteleiro, acompanhado do seu sócio na altura na Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica Antom Malde, não perdeu a oportunidade de entrevistá-lo e pedir-lhe opinião sobre algumas questões ainda hoje muito relevantes da política cultural galega. Como a entrevista é dum fôlego invulgar, desejamos referenciá-la mais uma vez, que ainda haverá pessoas interessadas a desconhecê-la:

«…Sei que o problema aqui, a questão não é pacífica, isso já o sei. Que há lusistas muito determinados, há outros grupos que tendem, pelo contrário, para a continuação da castelhanização do galego…

Julgo que, ao contrário do que é que acostumo dizer, nestes casos eu estou de acordo com o radicalismo. Porque uma atitude de meias tintas, de meias águas, acabará com certeza por prejudicar a própria identidade do galego, não já no que se refere apenas à língua, mas também à sua própria identidade cultural. E penso que essa tentativa de aproximação da norma portuguesa, que muitos defendem com muita força, pode não ser alcançável, quer dizer, pode até eventualmente não ser útil, completamente útil. Mas penso que os que defendem essa aproximação tão radical, aquilo que no fundo estão a fazer é a querer defender-se do castelhano. E a verdade é que o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português.

Então, essa atitude tão radical que em si mesma pode, e acredito que sim, criar tensões aqui na Galiza, polémicas entre gente que não se fala uns com os outros, que se começou uma guerra. Isso eu julgo que é legítimo, que é natural, e que é mesmo desejável. Porque é justamente, na medida que essa tensão em cada um esteja muito consciente, daquilo que defende e daquilo que quer, só daí é que poderá resultar um encontro para uma solução, que defenda o galego do castelhano. […]» (Para ler a entrevista inteira ligar para Çopyright – pensamento, crítica e criação, 67)

Aliás, para quem tiver curiosidade pelo que eu próprio me atrevi a escrever sobre alguma contradição do mestre português, posso recomendar «A inefável contradição de José Saramago (apontamentos à volta do processo criativo9» publicada inicialmente na Palavra Comum (ler texto completo):

«[…]Reconhece também que os personagens que ele criou foram os seus mestres de vida, os que mais intensamente lhe “ensinaram o oficio de viver”. E este facto só é possível se entendermos função do escritor como o de um médium, alguém que possui o conhecimento da vida no momento em que por ele passa e só através dele se traduz em literatura, entrando pela cabeça de não sabemos quais ignotos arquivos humanos, sendo providos no coração de emoções universais e ornamentados no cérebro por quaisquer artifícios mais ou menos retóricos, para em fim ser vertido através dos dedos para uma caneta e um papel.

Portanto, essa reconhecida contradição não foi um defeito, não foi um erro, pois foi definitivamente resolvida escrevendo, criando, deixando que toda essa humanidade que ele possuía fosse harmonicamente florescida na comunicação com o outro, deixando o seu coração governar a razão e se abrir passo por entre as sombras do mundo, iluminando mediante a arte aquilo que a musa, tão impossivelmente racional, lhe dizia ao ouvido.

Concluo, portanto, que é difícil ser-se artista e se não ser espiritual. A razão disto ─sejamos ao menos um bocado racionalistas─ é facto de o inefável constituir a essência da arte. O mestre falou e tinha razão, muito embora fosse contraditório. Se calhar, não é possível a arte se não assumirmos essa fulcral contradição. Porque o paradoxo pode bem ser, no fundo, a mais velha expressão poética do inefável».

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