“A filha do contador de histórias”

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Um dos livros mais notáveis que li ultimamente intitula-se A filha do contador de histórias (The Storyteller´s daughter), de Saira Shah, jornalista británica de origem afegã, autora também dos documentais Beneath the veil, Unholy war e Death in Gaza em colaboração com o seu amigo James Miller (assassinado por soldados israelitas durante a elaboração deste último documental). O livro pode-se encontrar em Edições Asa na categoria de Documentos e narra a experiência de uma jovem criada e nascida na Grão-Bretanha mas originária de uma ancestral família afegã cuja linhagem se remonta mais de mil anos atrás. Saira Shah situa-nos na órbita inspiradora do seu pai, quem a seduze e embebe das mil e uma histórias que lhe falam de um Afganistão perdido mas povoado e habitado pela memória e a imaginação. Fala-nos da chegada da adolescência e da necessidade de viajar à India e conhecer parte da sua família, com o contraste inevitável oriente-ocidente, da sua incursão com vinte e um anos na guerra dos mujahidin disfarçada de homem e de certa tristeza do seu pai quando este lhe diz que não vaia ao Afganistão, pois se realmente soubesse e aprendesse das histórias não precissaria de ir lá. Conta-nos como chegou até o Hindu-Kush, ao Nuristão, onde viviam gentes alheias ao Afganistão em guerra, como se encontra com o poeta Majruh (do que já falei aqui) e como é afectada pelo seu assassinato, os seus conflitos com os diferentes bandos, o seu olhar sobre a condição feminina e masculina, a chegada dos talibães e o seu valor ao passar e introduzir-se num hospital com o burka … Em definitivo, uma história real escrita com talento, inteligência sensibilidade e humor que fai cair muitos mitos sobre a maneira de focar a vida e a condição humana, longe de dicotomias simplistas e ideológicas. Como a própria autora diz algures, lembrando Rumi (continuamente evocado no ínicio de cada capítulo junto a Saadi ou Hafez): “Mais alto, mais alto, eis aí o espírito humano” Deixo-vos, pois, com este convite que não seria má leitura para o verão, do que não há tradução espanhola (que eu saiba) e da que, porém, dispomos numa boa tradução portuguesa.

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Recordando a Jacob Burckhardt

Jacob BurckhardtO outro dia prometi trazer ao blog uns pensamentos do historiador e crítico de arte Jacob Burckhardt com o propósito de esclarecer a ideia de cultura ou, polo menos, de reflectir sobre os condicionantes que delimitam o sentido desta palavra. Foi uma pequena casualidade o que me levou a trazê-lo a colação. Passeava polos cantões corunheses há pouco quando deparei no chão, à beira dum quiosque, um volumoso livro intitulado Historia de la cultura griega, de Jakob Burckhardt. Estranha ironia, pensei, a que nos oferece a sociedade contemporânea: os clássicos jazem aos pés de nós, ociosos citadinos, polo módico preço de 18 euros mas, quem dos que por aqui passam (e poderia ficar durante horas ali) conhece quem é Jacob Burckhardt, o admirado catedrático da universidade de Basileia? Para não desiludir-me, quiçá ,seria preferível continuar na ignorância. Senti, confesso-o, uma súbita emoção ao recordar a sua amizade com Nietzsche e como este sempre o considerou um grande mestre, sem variar nunca a sua opinião sobre ele (como sim acontecera, por certo, com Richard Wagner).

Burckhardt (1818-1897) entendeu a actividade do historiador fora das concepções mais academicistas do idealismo hegeliano assim como do historicismo. Defendeu a história como uma tarefa que tinha como objectivo o próprio aperfeiçoamento da pessoa, tentando-a compreender desde categorias que a percebiam como uma forma de modelação estranha ao conceito de progresso. Em certo sentido, e contra o historicismo, Burckhardt entende a função idiográfica, singular, da ciência histórica: percebe-a como a construcção de uma narração em que o próprio historiador se realiza como artista e, sobretudo, como a história não é uma questão do passado mas do presente, misteriosamente presente. Há toda uma raiz ética implicada que não pode substentar-se numa suposta objectividade baseada em simples “factos”. Suspeitamos que se decantaria em favor de Samuel Butler contra o determinismo de Henry Festin Jones. Diz Jones: “Nem Deus pode cambiar a história”. Responde Butler: “ Não, Jones, só os históriadores podem fazê-lo” .

Viu na própria sociedade industrial e na modernidade (e aqui com ambiguidades e paradoxos) um princípio de dissolução e destruição que não parecia resolver-se numa superação, como pretendiam todos os “optimistas” hegelianos, positivistas e , em geral, a ideologia decimonónica. Era duramente criticado polo facto de que não estava ao dia das últimas descobertas e discussões académicas da sua disciplina. Mas a sua obra A cultura do Renascimento na Itália é um modelo de estudo duma época, mantendo-se perfeitamente actual. Mas o que o traz aqui são algumas frases sobre o contexto no que se joga a compreensão da “nossa época”e a maneira de opor o nacionalismo alemão (e outros) ao sentido antigo da cultura. No contexto está também o problema do filisteísmo e o seu compromiso com o êxito fácil ao serviço de uma identidade nacional, que não precissa compreensão apurada e profunda mas consignas que elevem o orgulho e a auto-estima. Para um suiço como ele quando todos estavam de acordo em algo era o momento de apanhar distância e ver que se passava aí propriamente. Nunca viu como um bem para a cultura alemã a unificação forçada pelas necessidades modernas do Estado, nem um bem a vitória alemã contra França . E esta visão influirá decisivamente em Nietzsche, como veremos num futuro post.

Temos aqui algumas das suas reflexões.

Depois de se dedicar à política uns quatro anos, Burckhardt diz:

Sobre a gente da minha índole não se podem construir os Estados. De aqui em diante, enquanto dure a minha vida, desejo ser um homem de bem, solícito para os semelhantes e boa pessoa privada… Não podo mudar o meu destino, e antes de que irrompa a barbárie universal (que me parece iminente), continuarei o meu aristocrático e deleitoso trabalho de cultura, para servir polo menos de algo o dia da inevitável restauração… Fora dos deveres inapeláveis, não quero mais experiências com o meu tempo, se não é o de salvaguardar quanto me seja dável o património da velha cultura europeia.”

O anti-estatalismo será também uma constante no pensamento de Nietzsche e a ideia de barbárie que maneja Burckhardt foi já utilizada por Goethe para referir-se aos alemães. A cultura prusiana, o Reich, quixo promocionar a Burckhardt a catedrático em Berlim, mas este declinou o convite. Preferiu a sua Suiça natal, um ambiente familiar e cívico onde um homem como ele podia dedicar-se a contemplar com distância o que considerava o início do “desastre” alemão:

Desengane-se a triste nação alemã se sonha que asinha poderá arrimar o mosquete e dedicar-se às artes da paz e à felicidade. Os dous povos mais civilizados do Continente condenaram-se a abdicar da cultura. Muito do que interesava e deleitava aos homens em Julho de 1870 resultará indiferente em 1871” (no contexto da guerra franco-prusiana).

Em vez da cultura, volta a estar sobre a mesa a simples existência. Por muitos anos, ao simples capricho do que se chamam melhoras responderá-se com a referência às imensas dores e perdas sofridas. O Estado voltará a assumir em grande parte a alta tutela sobre a cultura e mesmo a orientá-la novamente, em muitos aspectos, segundo os seus próprios gostos. E não está descartada a possibilidade de que ela mesma lhe pergunte ao Estado cómo quere que se oriente. Perante tudo, haverá que recordar à indústria e ao comércio, do modo mais cru e constante, que não são o fundamental na vida do homem. Talvez morrerá uma boa parte de toda essa folhagem luxuriosa da investigação e as publicações científicas, e também das artes; e o que sobreviva terá que impor-se um duplo esforço… Adjudicará-se ao Estado entre os seus deveres sem cessar crescentes, tudo aquilo que se crê ou se suspeita que não o fará por si só a sociedade. Tenho uma premonição que, ainda que pareça insensatez, não podo afastar da minha mente, e é que o Estado militar que se avizinha vai convertir-se numa grande fábrica. Essas hordas humanas dos grandes centros industriais não podem ficar abandonadas indefinidamente à sua fome e à sua codícia. Por força sobrevirá, se há lógica na história, um regime organizado para graduar a miséria, com uniformes e ascensos, em que cada dia comece e acabe ao toque do tambor”.

O dito acima foi exprimido 50 anos antes de Hitler e o III Reich. Quiçá para algo pode valer a história. E ainda:

Há tempo que estou convencido de que mui pronto o mundo terá que escolher entre a democracia total ou um despotismo absoluto e violatório de todos os direitos. Tal despotismo não será exercido polas dinastias, excessivamente sensíveis e humanas ainda para esse extremo, mas polas chefias militares de pretendido cariz republicano. Verdade é que custa muito imaginar um mundo cujos directores prescindam totalmente do direito, o bem-estar, a ganhança lícita, o trabalho, a industria, o crédito, etc., e apliquem um regime alicerçado exclusivamente na força. Mas esta ralé de gente terá de vir parar ao poder, por efeito do actual sistema de concorrências e participações da massa na deliberação política” (13 de Abril de 1882).

Democratas e proletários vão ficar submetidos a um terrível e crescente despotismo, ainda que se defendam com tremendos esforços, pois o nosso século não está chamado a realizar a verdadeira democracia”.

É necessário fazer comentários? Não é uma preclara visão do que foi o s. XX? Felizmente os homens melhoramos, não é?

Como curiosidade (mas provavelmente não casualidade) dizer que Titus Burckhardt, o estudoso da filosofia perene e tradicional, era o seu sobrinho-neto.

Bom , amigos, sabe-me a pouco mas vamos deixá-lo por aqui.

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Dous poemas de Hafez

HafezShamsuddin Hafez nasceu em Shiraz em 1320 e faleceu em 1389. Foi um talento excepcional em diversos campos como a filosofia mística, a poesia ou a teologia. Chegou a aprender o Alcorão de cor, que é o que significa o seu nome (Hafez, o que recorda). Revolucionou a poesia persa na forma do ghazal (poema corto e amoroso, clássico nos trovadores persas e árabes) ao introduzir vários temas numa mesma composição sem perder a harmonia e o ritmo do mesmo. Foi contestado pola ortodoxia religiosa, acusado de sensual e herético. Ele pola sua parte não se cansou de ridicularizar a falsa piedade, a hipocrisia religiosa e a retórica racionalista.

 

GoetheGoethe escreveu o seu Divão oriental e ocidental inspirado em Hafez, assombrado pola sua liberalidade, ousadia e, sobretudo, pola sua paixão no canto do amor. Nietzsche dirá: “Hafez realmente é aquele que conhece e desfruta” Há que dizer, porém, que a influência sobre o ocidente foi cultural e literária mas não iniciática. Nota-se no próprio Goethe, pois não há sempre uma compreensão adequada das metáforas e símbolos da tradição oriental. Tende-se a confundir sensualidade, sentimentalidade e espiritualidade. Esta equivocidade afectou ao próprios contemporâneos do poeta persa, e mesmo a sua vinculação com formas organizadas da mística persa não está clara. Ele mesmo não duvida em ser critico com algumas formas de entender o sufismo e nisto assemelha-se com ibn Arabi de Murcia (1165-1240), poeta, místico e filósofo, que foi considerado como um exemplo de hipócrita e conformista por muitos dos seus contemporâneos mas que era, na verdade, o mais grande mestre da sua época.

 

Seria interessante, mas ficará para outro dia, pensar a questão trovadoresca, a mística e a cavalaria iniciática, em relação com a Demanda e com toda uma Espanha herética e heterodoxa com a que nos sentiríamos francamente em mais agradável companhia para espanto de Don Marcelino Menéndez y Pelayo, pois o pobre, que se lhe vai fazer, não dava mais de si.

De Hafez podemos encontrar 101 Poemas na Editorial de Oriente y el Mediterráneo ou bem na edição de Rafael Cansinos Asséns, recentemente reeditada em Edições Arca intitulada: Antología de poetas persas.

 

A CASA DA ESPERANÇA

A casa da esperança ergue sobre areia

Os cimentos da vida no ar sustentam

Vem, pois, vinho na minha mão derrama

Para por fim a toda pena.

Deixai que seja escravo da vontade do homem

Que sob a abóbada turquesa do céu

Das anímicas confusões

Logrou libertar-se e continua-o fazendo.

Excepto que a mente siga emaranhada

Com aquela cuja radiante beleza

A evocar o amor e a lealdade,

Liberta a mente de toda fadiga

Ontem à noite andei a beber

Na taberna e uma mensagem

Do mundo invisível agora vos conto

Que me trouxe o belo Gabriel

Falcão de sobranceiro prestígio

de ninho elevado e olhar altivo

esta cidade da aflição

não é própria para passar os teus dias”

E que não ouves que te chama o assobio?

Desde os muros do céu aclamou.

Não compreendo como é que foi

Que este engano seja a tua prisão”

Ouve o conselho que agora te dou

Que as tuas acções determina:

Estas são as frases que eu recebi

Daquele que foi meu ancião guia.

Contenta-te com o destino e a vida

não voltes cenhoso o teu rosto

aqui abaixo a porta da liberdade

não está fechada para nós”

Não tentes achar fidelidade

Neste mundo de tão fraco apoio

Antes que a ti, esta velha bruxa

Traiu a milheiros de noivos

Não acredites em mostras de pura intenção

Nem que a rosa sorri sincera:

Laia-te, amante rouxinol:

Há muito motivo de pena.

Porquê gemes e invejas de Hafez,

Pobre poetinha, a facilidade?

Só Deus é que pode conceder

O dom musical e a graça feliz.

TODO O MEU GOZO

Todo o meu gozo é beber vinho

Dos amados lábios,

O prazer máximo já obtive:

Só Deus seja louvado.

O Destino, meu velho inimigo,

Nunca deixou ir à minha amada;

Dai-me pois áureo vinho

E os seu lábios escarlates

(Clérigos fanáticos, velhos

que o caminho extraviaram

De nos murmuraram:

São bebedores, borrachos”

Que o asceta viva lôbrego

Não quero saber nada dele,

Se o monge tem de ser piedoso

Que Deus perdoe a sua fé)

 

Querida, que podo contar

Da minha pena, se te foches

Senão as minhas ardentes bágoas

E um centenar de suspiros?

Que não contemple um infiel

A amargura silenciosa,

A tua beleza vê o cipreste

O teu rosto a lua ciumenta

O desejo dos teus beijos

Obriga a Hafez a isto,

Que já não se preocupa

De orações nem leituras

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A noite acesa de Bahaudin Majruh (II), por José António Lozano

Ufánanse los necios y alardean / llenos de orgullo y altivez, de una / insulsa libertad, tediosa y yerma. / Orgulloso yo estoy, por el contrario, / de ser de una tirana encantadora, / el más sumiso y venturoso esclavo. (Hafiz, tradução de Rafael Cansinos Assens)

A lucidez e a procura da liberdade total são o motivo do Viageiro de meia-noite. Os diferentes totalitarismos de esquerdas e direitas, o fanatismo religioso, o cancro da submissão sob diferentes formas são o alvo deste viageiro que percorre cidades e desertos, montanhas e cárceres: vadiagens de territórios sem fim na procura de si e dos seus, perante o terrível espectáculo do ego-monstro. Realmente Majruh é um sufi. Nas suas próprias palavras: “o sufi é espontaneamente inconformista. Dissidente que defende a sua liberdade individual, troça sem cessar do despotismo e a sua única referência é a sua disciplina. Respeita as leis que não ameaçam o seu caminhar. Reza mais e melhor que qualquer homem de fé, não por ostentação mas para alcançar o domínio de si próprio. Jamais se compromete com a mentira e a iniquidade. Se a sociedade se corrompe até ao ponto de proibir-lhe alguma acção útil para com outro, abandona a cidade. Retirado ao deserto, elige, ali como em qualquer outra parte, a solidão e a liberdade”.

Segundo Majruh se Deus é expulso da cidade dos homens -que é a cidade da alma- acontecerá uma catastrofe: o ego do homem abatirá-se sobre a cidade da alma. Imagina proceder de um poder discreccional e aspira a possuir algo parecido. Pretende ser Deus na Terra. A pouco e pouco a incontrolada vontade de poder leva à demência. Uma demência muito razoável por outra parte, que é capaz de uma astucia maquiavélica à hora de disfarçar a sua verdadeira condição.

Tanto o Viageiro da meia-noite como o Riso dos amantes são o percurso inclassificável de Majruh na intra-história do Afgenistão, uma alegoria profética e visionária. Começada antes da invasão soviética e acabada antes da chegada ao poder dos talibans parece pressagiar através dos signos do presente o terrível desenlace da barbárie sem limites que depara o futuro. Ainda que isso não seria mais que algo acessório. O essencial está no seu oferecimento na procura do oceano do sentido: o amor. Um dos momentos mais intensos é a história (que sem dúvida evoca uma história real vivida pelo poeta) de Gulandam e Delazad. Dous namorados que visitam ao filósofo-poeta e que representam a beleza, o amor e a liberdade. A ele se dirigem com franqueza e amizade e lhe confiam os seus anelos. Majruh tece com eles palavras de sabedoria e de pesquisa. Viviam no mesmo campo de refugiados que Majruh. Um bom dia foram apedrejados até a morte por uma massa enfebrecida, no mesmo campo em que o próprio Majruh também morreria assassinado não muito mais tarde. Majruh escreve:

Quando chegou tudo tinha rematado. A multidão dispersava-se lentamente.

Um pouco aparte dos demais, alguns dignitários religiosos luziam as suas lúgubres barbas. Os turbantes e as negras túnicas rodeavam-nos com uma aura mais fúnebre que de costume.

O Viageiro chegou ao centro da praça.

Meio sepultos numa montanha de pedras, jaziam um homem e uma mulher novos, cobertos de sangue e de fango.

O Viageiro ficou petrificado.

Eram Gulandam e Delazad”

Depois de carregar os seus corpos o Viageiro improvisa com as suas próprias mãos uma sepultura para os amantes. Majruh clama contra os miseráveis e dirigindo-se aos seus amigos diz:

Oxalá, amigos, não leveis convosco nem um chisco do ódio abjecto pelo que os fixeram assassinar! A vossa existência demonstra que a vida não pode limitar-se a um inacabável lamento, nem a um ininterrupto duelo como agoiram os vossos carrascos. Não: graças ao vosso passo pela terra, a vida ofereceu-se como o que é: o riso de um instante, o anúncio alegre de um novo mencer, a mensagem de seiva da primavera…” e mais adiante: “Piedade, dixo o poeta, para o coração que não recebeu o mínimo sinal de Ti! Morto, o corpo sem mensagem da alma/Estéril, a palavra de amor estranha ao sofrimento/A Miriam da alma não engendrará luz/se o segredo compartido não passa/de intimidade a intimidade.

Dadas as limitações do espaço cortei muito texto de real interesse, mas isto é só uma notícia realmente.

Em outra ocasião Majruh fala, através do viageiro, dos cárceres onde os “camaradas” mantinham também a velhos sábios e homens espirituais. Um exemplo está no caso do capítulo intitulado: “Entrevistas no coração da noite” onde o viageiro descreve assim ao seu “venerável amigo”, companheiro de cela numa lúgubre cadeia: “Quase sempre sorria. Apesar do infortúnio, sorria. Nele reflectia-se a lembrança de um mundo perdido, de uma humanidade acolhedora e transparente. Naquela cela, apareceu-se-me como a terra habitada ao final de uma noite sem esperança”. Este velho amigo conta-lhe ao viageiro o interrogatório ao que foi submetido por um dos poderosos de Tiranópolis:

-Eminência, perguntou-me com ironia, na tua opinião, o vasto universo tem um criador?

Sim, respondi, existe um poder infinito e eterno.

-Demonstra esta afirmação!

Fiquei calado. Que podia dizer? Que mensagem poderia dizer a um profissional do terror? Mas tinha que falar, assim que me escutei a mim mesmo dizer o seguinte: (aqui há um pequena exposição filosófico-teológica, que é rebatida com as seguintes palavras)

-Acaso não sabes, Eminência da Miséria, que o teu Deus foi destituído, morto, aniquilado, e que nos deixou livres para exercer todos os poderes?

-Dizeis que tendes ganhado a liberdade que vos permite reinar. Ignorantes! Ao converter-vos em estrangeiros de Deus, vos tendes afastado da liberdade para entrar na cadeia do poder. Pois só Deus, liberdade infinita, dá sentido às demais liberdades. Não percebeis que ainda que Ele tenha abandonado as ruínas das vossas almas e as tenha sumido nas trevas, ilumina sempre a Cidade da Alma dos seu amigos e organiza nela todo tipo de festas? Não percebeis de que o facto de que alguns vivam na escuridão não implica que não exista o fogo? Não veis que a luz ainda existe ainda que o mundo de alguns cegos esteja cheio de trevas? Ó ignorantes! Sabei que estais baixo o poder de um feitiço demoníaco, de um dragão que se deleita devorando-os e que se devora a si próprio enquanto desfruta, pois a aniquilação e a morte são a sua lei e o seu fim.

-O acusado é perigoso. Levai-no e que esteja preparado para o interrogatório final.

E finalmente alguma das histórias de Rir com Deus, onde Majruh recompila histórias dos clássicos sufis e mesmo alguma do mestre contemporâneo e amigo, Ustad Khalili.

Falsa oração

Um sufi, no silêncio do seu retiro, teve a visão súbita de uma mulher, entregando-se ao jogo do amor, numa casa de encontros.

Senhor, – suspirou o sufi- pela Tua graça, concede-me a essa mulher!

-Não – dixo a Voz- porque não me pediste que te entregasse a ti a ela?

O turbante

Um louco de Deus tinha o costume de levar descoberta a cabeça polas ruas de Ghazni. Alguém perguntou-lhe porque não se dignava levar um turbante.

-A menos que ele me faga chegar um desde o alto- respondeu-, jamais porei uma cousa assim sobre a minha cabeça.

Um dia, quando passava por uma rua estreita, alguém lançou-lhe uma casca de meio melão desde uma janela alta.

Este chapéu improvisado caiu sobre a parte superior do crânio, ao que se ajustava maravilhosamente.

Por fim tinha recebido o seu turbante celestial.

Tomou-no, observou-no de perto e, lançando-o cara as nuvens, exclamou:

– Se isto é todo o que me podes enviar, toma-o e põe-no Tu!

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A noite acesa de Bahaudin Majruh (I). O suicídio e o canto, por José António Lozano

O suicidio e o canto - B. Majruh

O poeta e filósofo afegane Bahaudin Majruh é o autor de uma extraordinária obra literária em língua pastu, além de um símbolo da resistência afegã que se enfrentou tanto aos ocupantes soviéticos como aos fanáticos islamistas. Exilado desde 1980 en Peshawar é o criador de uma série de livros que permaneceram inéditos durante muito tempo, alguns deles publicados postumamente. Nascido em 1928, faleceu assassinado em 1988, o dia anterior a cumprir os sessenta anos, por sicários da facção fundamentalista de Gulbuddim Hekmatyar (que está na origem do movimento talibã, e que foi apoiado pola C.I.A e os serviços secretos paquistaneses). Foi decano da Faculdade de Letras de Kabul e fixo o seu doutoramento em filosofia na Universidade de Montpellier. Mantivo um incansável apoio aos Muyahidim que luitaram contra os soviéticos através da Agência Afegã de Informação, que dirigia. Reflecte-se na sua obra a experiência dos mestres sufis clássicos: Rumi, Hafiz, Hakim Sanai, Attar, assim como as influências de Montaigne, Sartre, Heidegger, Nietzsche com os que dialoga. Ainda que a força dos mestres tradicionais se imponha, nas maneiras e no estilo, ao verniz universitário. Junto com a sua irmã e cunhada recopilou os cantos das mulheres afegãs, os landais, poemas breves onde se recolhe toda a paixão e a força oculta nas mulheres pastuns, elementos sacrificiais de uma cultura ancestral que denigra a condição feminina até limites inimagináveis. Neles transparece a consciência e a ousadia, a nobreza e aristocracia do espírito que se revela contra a imposição atávica da cultura. O suicidio e o canto é o título deste livro, onde o tabu do amor é uma e mil vezes posto em questão. Amor e morte são as duas caras de um mesmo assunto. Proclamar o primeiro é, inequivocamente, ganhar-se o segundo por direito próprio:

Ardo em segredo, em segredo choro,

sou a mulher pastum que não pode desvelar

o seu amor.

Esconderas-te atrás da porta,

e eu acariciava os meu seios nus

e tu olhaste-me.

 

Vem, amado, rápido, vem a mim

o espantalho dorme e podes

beijar-me.

Deus, é verdadeiramente pecado?

tu fixeste o jardim deste mundo

e eu apanhei a flor que em verdade

mais gostava.

O espantalho fai referência a um velho ou a um neno do matrimónio obrigatório. As leis de relações entre clans marcam este tipo de casais amanhados. Os landais são como relâmpagos límpidos, como facas, as vezes flechas, em que a sexualidade, a morte e o humor se combinam em tranças delicadas e sagazes. Majruh soube mostrar através desta recolecção a face oculta que as fotografias dos burka não vão mostrar nunca. Um certo paradoxo aflui ao lermos os textos. Enquanto a cultura ocidental se sinte livre e democrata, em muitos aspectos infelizmente autocomprazente, desconhece a pureza e a força que se destila do verdadeiro sentido da liberdade. Era Nietzsche o que dizia que o amor como paixão denotava uma origem aristocrática. Referia-se ele ao contexto trovadoresco que estava nos alicerces da cultura francesa. Era dele também a frase em boca de Zaratustra: “A sabedoria é uma mulher, ama unicamente a um guerreiro”. A mulher pastú pode ser submetida de multiples maneiras mas nunca ao fundo da sua consciência, na sua dimensão moral. O trágico da situação liga-se à própria tragédia afegã no s. XX: a irrupção brutal do mundo moderno que descompensou o sempre dificil equilibrío das relações tribais de um país cujos parámetros não tinham nada a ver com a dos estados planificados. O veneno do estado, o frio monstro de aço fixo estragos num pais orgulhoso e antigo. E como dizia um velho indio sioux: a destruição da cultura sioux só foi possível quando chagaram ao seu coração, quer dizer, a mulher sioux. Majruh percebe como a onda de fanatismo e destruição que invade o seu amado país quere chegar também ao coração da sua mulher. Só ha, então, o suícidio ou o canto. Diz Majruh:

Perante este estado de cousas, esta ancestral picota, como pode reagir?. Aparentemente, é a submissão total. Realiza o trabalho como um relógio. Aceita e padece o sistema de valores que a convirte num objecto. Mas se observarmos mais de perto, vê-se que, no seu interior, alimenta a rebeldia. De este protesto fechado, endurecido dia tras dia, não da, finalmente, mais que duas testemunhas: o seu suicídio e o seu canto.

Sabemos que o código de honra tribal considera o suicídio uma cobardia e que o islão o proíbe. Nenhum varão pastum recorre a ele. Aliás, eliminándo-se deste jeito desonroso, a mulher proclama tragicamente o seu ódio à lei comunitária. Mesmo os meios utilizados para matar-se sublinham o sentido icinoclasta do sacrifício: só se suicidam envenenándo-se ou afogando-se… Com o fusil o homem caça e guerreia, com a corda ata o gado, enlia os feixes e puxa as cargas pesadas.

A mulher pastum impõe, com o seu suicídio, um acto socialmente irrecuperável, mas com o seu canto desenvolve um desafio de idéntica natureza que pode também, á sua maneira, resultar fatal, pois as suas melodias exaltam incansavelmente três temas que sabem a sangue: o amor, a honra, a morte”.

Comenta Majruh como a mulher pastum apanha o código de honra tribal e o leva até as últimas consequências: empurra aos homens a que assumam as consequências extremas dos seu próprios princípios, resultando uma inversão. Os homens acabam comportando-se segundo “a olhada que a mulher deita sobre eles, preso do seu próprio código de honra” :

Oxalá morras no campo da honra

meu amado!

Para que as raparigas cantem a tua glória

Quando vaiam à fonte.

Ai, meu amor. Se tremes tanto

nos meu braços

que farás quando brotem mil relâmpagos

do choque das espadas?

Meu amor, vai primeiro vingar o sangue

dos mártires

antes de merecer o refúgio dos meus seios.

Hoje, na batalha, o meu amante voltou-lhe

as costas ao inimigo.

Sinto-me humilhada por tê-lo beijado

Ontem.

Volta perforado polas balas

dum tenebroso fusil

eu coserei as tuas feridas

e darei-te a minha boca

Até aqui, por hoje, esta incompleta notícia de Majruh, ou das mulheres afegãs. Fica para próximas entregas (e eu espero que o levantador de minas permita que levantemos umas poucas do Afgenistão, um dos países mais minados do mundo) falar dos livros propriamente de Majruh. A epoeia do Ego-Monstro: O viageiro da meia-noite, e O Riso dos amantes, cimeiras da literatura afegã do século XX. Também de Rir com Deus, recopilação de histórias dos mestres sufis, onde o riso e o humor são a expressão íntima da relação com Deus.

José António Lozano

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Notícia de Agostinho da Silva, por José António Lozano

Agostinho da Silva, Colóquio Internacional em CompostelaCelebrou-se em Compostela, na Faculdade de Filosofia, os passados dias 30 e 31 o Colóquio Internacional Agostinho da Silva e a Cultura Galaico-Portuguesa” na que participantes de Portugal, Brasil e a Galiza nos falaram sobre a obra e o pensamento deste homem singular e extraordinário, que tivo um especial contacto e interesse pola nossa terra. Nas suas próprias palavras: “Contínuo a ver a Galiza como a “chave” da abóbada peninsular, a feição capaz de levar Portugal a participar como uma das unidades autónomas da nova Ibéria, não só esta aqui, dos Pirinéus para baixo, mas a que anda também por África, Ásia e América do Sul.”

De qualquer maneira que olhemos a vida e a obra de Agostinho da Silva uma cousa fica clara para qualquer: é irredutível a um esquema, a um estilo ou a uma perspectiva unidireccional. Deste jeito a sua influência chega a todo tipo de pessoas e lugares mas com um ponto em comum: a absoluta necessidade da libertação humana para além de etiquetas ideológicas, culturais ou religiosas. Podemos nomear algumas características básicas, mínimas e parciais, das inumeráveis que poderiam ser ditas:

  • 1. Tal como em Pessoa a sua Pátria é a língua portuguesa.

  • 2. Os três “esses” como garantias básicas dos direitos e a dignidade humana: suntento, saber e saúde. O capitalismo é concebido como uma expropiação do património e da dignidade humana.

  • 3. A necessidade absoluta de sinceridade para com os próprios ideais, porque deste jeito nos veremos obrigados a nos pôr uma e mil vezes em questão, melhorando-nos.

  • 4. A política e os politiqueios são um substituto da accção real de transformação do homem. Não se devem confundir os meios com os fins: e a finalidade é a completude humana, quer dizer, todas as acções devem inspirar-se e dirigir-se à consecução de um objectivo espiritual.

  • 5. Eis aquí o V império, o reino do Espírito Santo de Joaquim de Flora, reino transcendente que ao mesmo tempo se vive na imanência e na iminência do presente que já é futuro. O futuro começa aqui, agora.

Muito se poderia aqui dizer de Agostinho da Silva mas uma cousa fica clara: a quase absoluta ignorância que na Galiza existe sobre a sua pessoa e a sua obra o que, penso, é muito sintomâtico de que aqui se gosta muito da consigna, do compromisso ignorante e do nacionalismo obtuso mas pensar, pensar e agir com inteligência é um outro cantar: para isso não há tempo, estamos excessivamente ocupados nas nossas trapalhadas!

AGOSTINHO DA SILVA (FRAGMENTOS)

Sobre a Galiza

Antes de 1974, visitei muitas vezes a Galiza, aprofundei o meu conhecimeto da história e da cultura galegas, o que fortaleceu uma ideia minha de que devemos repensar a fundação de Portugal. Não no sentido de buscar informação nova ou de propor informações diferentes, mas para questionar o que se poderá chamar os erros da história de Portugal.

Não teria sido um erro a forma que tomou o gesto fundador de Afonso Henriques, agredindo a mãe, repelindo com violência o Conde de Trava para o reino de Leão? Muitas vezes me interrogo se Portugal não terá de ser fundado outra vez. (Entrevista com Agostinho da Silva, in Dispersos, pág. 65)

ICALP- … Isto é, há casamento entre noivos, entre Portugal e Galiza, um abarca e outro arca? Como é?

A.S.– Aí põem-se dois problemas. Um é o problema da própria origem de Portugal. No estado actual, a minha impressão com Portugal (eu estou a falar com toda a liberdade e franqueza, depois pegam numa tesoura e cortam aquilo que não for publicável segundo os vossos critérios) é a impressão de que quando uma pessoa se engana na paciência, ou está a fazer um jogo com outro e a coisa se atrapalhou: é preciso baralhar e dar de novo. Então o baralhar e dar de novo começa polo princípio, e o princípio, para nós é o Condado Portucalense. Então quais as relações que poderia ter havido entre o Condado Portucalense e o Condado Galego? É evidente que o D. Afonso Henriques era um menino e tinha toda a impaciência da meninice. Hoje podemos ver que talvez tivesse havido uma precipitação de manobra. O negócio “maquiavélico, no bom sentido, era manter as possibilidades do Condado Portucalense e do Condado galego seguirem juntos um caminho na História.

A coisa não deu. Mas, como se trata do tal baralhar e dar de novo, temos aí um problema: ver como é que nos podemos voltar às origens e rever toda a história de Portugal. O que nos levanta uma outra questão: como nós não sabemos qual é a verdadeira máquina da história, como é que as coisas funcionam, toda a vontade que nós temos de dizer que na história alguma coisa foi errada, ou certa, é inteiramente acientífica. Só podemos dizer que na história houve tal acontecimento. Se ele foi bom ou mau, não sabemos. O que sabemos é que sucedeu daquela maneira, naquela altura.

Portugal seguiu a sua evolução, a Galiza fè-lo para o lado de lá; são de facto os noivos que os pais não deixam casar, de um lado e outro do rio. De maneira que o problema quanto às origens é um e o da relação Portugal-Galiza é outro. Deixemos então o primeiro porque ele vai ser implicado pelo outro, o do futuro. (Entrevista do prof. Agostinho da Silva ao ICALP, in Dispersos, pág. 92-93)

ICALP – Neste retalho de culturas existirá portanto, de qualquer modo, uma relaçao privilegiada com a Galiza?

A.S. – A única região que já é ibérica do futuro é a Galiza. Exactamente porque é uma região de língua fortemente Minhota, se não quisermos dizer Portuguesa, de herança Celta, se quisermos ir para alguma adivinhaçao pré-histórica; e ao mesmo tempo, pela paixão de Isabel, a Católica, pela Galiza, é uma região que também apanhou muita coisa da cultura que poderiamos chamar Espanhola, predominantemente castelhana. De maneira que, se olharmos a Galiza, ela poderá ser o ponto da Península em que já duas culturas se entendem e, poderíamos dizer, começam a ter alguma mestiçagem. O que tem um aspecto curioso, quando muitos escritores ou intelectuais Galegos acham que seria muito interessante que o galego se fosse aproximando do Português – pelos menos o falado, se isso for possível, e o escrito, sobretudo por causa da área que vai ser abrangida pela Língua Portuguesa; que deixa hoje de ser portuguesa para ser uma língua galaico-luso-afro-brasileira, se tivermos em conta, por exemplo, aquela proposta do Padre Santalha, de um dicionário geral.

ICALP – (…)

A.S. – É uma aproximação puramente cultural, a que os políticos podem dar significação política, na medida em que isso for necessário. Mas o político precisa de aprender certas coisas: que a sua base de trabalho é a cultura e não ao contrário. É aprendendo cultura e inserindo-se na cultura que ele pode fazer uma política decente. Porque senão ele está arranjando uma receitas que servem para matar o rato que aparece mas não para a desratização completa… (Entrevista do prof. Agostinho da silva ao ICALP, in Dispersos, pág. 95-96)

Nunca se devia ter abandonado a Galiza; se havia que morrer, havia que morrer junto com ela; Portugal tem culpa das lágrimas de Rosalía, e cada emigrado que não volta a ele o acusa. (Considerando o Quinto império, in Dispersos, pág. 192)

Religião e espiritualidade

As religiões, portanto, além de tudo porque falam, e como falam, se declaram históricas: tiveram um principio, vimos que de algumas houve fim, outras terão porventura e igualmente o seu fim. Fundadas sobre o não-separar, tão forte lhes foi a história que muitas delas acabaram por se dividir, e por aí terminaram como religiões, só são verdadeiramente religiosas aquelas que, para além de toda dissonância, sempre afirmaram a fundamental unidade, aquelas que sempre puseram acima de tudo a fraternidade, aquelas para as quais mais vale ser bom irmão do que excelente sábio. Quanto às outras, se realmente existem, será seu fatal destino o de negociarem uniões como os países negociam tratados de comércio, por um oferecer e um recusar, por um pedir cem para obter cinquenta, pelas manhas da diplomacia e não pelos abraços que fecundam…

… É o Espírito o que une Pai e Filho, dos quais vem tudo o resto, como criação da redenção; é o Espírito a fonte indefinível de onde a vida pode fluir sob quaisquer formas, aquelas que eu conheço e venero ou não, e aquelas de que nem sequer posso ter uma ideia; é o Espírito que anima os que estão comigo e os meus adversários; foi o Espírito quem me trouxe Cristo e quem a outros trouxe Buda, Maomé e Lao-Tseu, foi o Espírito quem me deu Eckhart e quem me deu a geometría analítica; nele se reconciliam Aristóteles e Platão, nele se acabam as geografias ou políticas, que separam Ocidente de Oriente.(Ecumena, in Dispersos, pág. 228-229)

A ordenação religiosa, e não tomo aquí a palavra num sentido puramente sacramental, vai ser uma necessidade absoluta do mundo futuro. Não poderá, porém, ser uma ordenação de determinada corrente religiosa com exclusão de outras, e aquí acode o espírito português com a sua religião do Espírito Santo, em que entravam Mouros e Judeus; não poderá ser de forma alguma burocrática e centralista… (Considerando o Quinto Império, in Dispersos, pág. 195)

… lamentamos muito que o nosso bom senso nos impeça a sua loucura [en refêrencia a Sampaio Bruno, mas somos tão sebastianistas como ele, com o acrescento de que há um D. Sebastião morto em cada um de nós vivo e desejamos que ele surja depressa de seus nevoeiros, só, solicitamos, com mais senso táctico e estratégico do que o pobre do Rei. Pensamos que todo caminho filosófico debe ser teológico, para afirmar ou negar Deus, pois Deus é e não é ao mesmo tempo; pensamos que esse, o do Asoluto pode ser centro de ecuménico, de um ecuménico primeiro português depois mundial, com cristãos, budistas, muçulmanos ou animistas o adorando em suas particulares línguas religiosas, numa igreja pela primeira vez universal. (Barca d’Alva. Educação do Quinto Império, in Dispersos, pág. 492)

Sobre a política

Da política nem vale falar: é processo que se adaptou mal a gentes não modeladas pelos padrões anglo-saxonicos ou que poderia quando muito organizar em linhas eficientes a vida material da acção, mas falta-lhe, por um lado, convicção interna…, por outra parte, e acompanhando-se aqui o movimento geral do mundo, o desinteresse público pela política é quase total, não, como se costuma supor, pela baixa qualidade dos políticos ou por excessivo comodimo pela parte do povo, por egoismo seu, mas porque os instintos mais profundos e um sentido geral da evolução da história fazem entender que a política passou a ter uma importancia mínima; à falta de convicção interna e talvez como interdependente, veio a a juntar-se a falta de convicção externa: a política é inoperante por ser afinal, se se me permite uma imagem absurda, um vácua actuando no vácuo.

Nos voltamos, naturalmente, para a ideia de que a identidade de fins e meios, a preminência de objectivo e as condições de que partimos, o fulcro indispensável do movimento resida numa intuição de carácter religioso, ou, visto sob u aspecto colectivo, num movimento místico de massas (…) Seria evidentemente ocioso querer prever de que modo esse movimento religioso se poderá processar, já que a invenção inesperada e a novidade dos caminhos lhe terão de ser primordiais características (…) se fosse lícito empregar símile histórico, nos lembrariamos de alguma coisa semelhante que foi, com Maomé e seus sucessores, a irrupção dos árabes no mundo antigo ou, num aspecto mais conservador, a organização dos monges cavaleiros. (in Dispersos)

Acho graça às homenagens

Que me prestam

Excelente sinal de ilusões

Que a eles restam;

Sou tão humano quanto os outros,

Com qualidades e defeitos

E mais as manhas que se escondem

Em seus peitos,

Se a hora mo facilita

Já resplendo,

Mas, se estreita é a passagem,

Me defendo;

Audácia nunca me falta,

Com ela ataco,

Mas também já teno dado

Parte de fraco

Só pura sorte me tem levado

Ao melhor de mim,

Nem sempre os meios de que me sirvo

Valem o fim,

Sinto que os êxitos são o que tinha

De acontecer,

Comigo ou outro tudo seria

Igual vencer;

Mas sempre é isto o que sucede

Com toda a gente,

De baços astros rolando vagos

Luz aparente;

De nós nada mais deixamos

Que vãs memórias,

Só Deus é grande, só Deus é Santo

E o demais histórias.

Praça do Chile, 02.06.1981

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Breve antoloxía da poesía galega de 90: José António Lozano (V)

JOSÉ ANTONIO LOZANO. Coruña, 1967.A leitura dos seus textos supón a entrada nun mundo de sensacións e, en grande medida, de suxestións. Mergullados nun contexto de carácter onírico que semella ser presentado como o verdadeiramente relevante, os poemas parecen exercicios conducentes ao coñecemento profundo do individuo através dunha maior abertura dos sentidos. Así, os poemas en ocasións semellan receitas para atinxir unha visión máis ampla, para mellor entrar na esencia das cousas. E o conxunto parece destilar case unha programática vital tan intensa, que só pode ser transmitida en chave poética.
Na forma, destaca a técnica do pintor expresionista, con versos construídos a pincelada marcada e curta. No imaxinario, bloques conceptuais do negativo (amargo, negro, noite, sombra…) son confrontados con bloques positivos (farol, luz, calor, fósforo…), encanto certas imaxes parecen ser unha declarada proposta de interpretación intuitiva (penas coloridas, rosa, lenha verde…). No final, fican establecidos, através do pensamento poético, unha sorte de vasos comunicantes entre o mundano e o transcendente, no marco dunha intuída sabedoría antiga.De Nocturnos indígenas, no libro colectivo Sete poetasp. 53
Ritual

Persegue a luz eléctrica
lá dentro do café
onde as vellas madeiras fingem o cansaço
alça os lábios
como uma fonte
como um livro antiquíssimo
a seduzir o tempo
procura no mármore o café
e pousa o teu olhar no gato
que pensa o que tu pensas
e agora bebe esse café
e fecha os olhos.

p. 54
Ensonho

Entra no cântico onde as mulheres dormem
na vasilha intensa ao redor da casa
na música
Não temas as madeiras, ébrias na voz
sob os frágeis dedos
onde a amarga sombra descansa
extensa no calor das formas

-Mulheres dormem
deitadas
à cor da planície.

p. 56
Iniciação

A espada no fio da noite
é unha estranha melancolia
de lenha verde

a voz se apaga por momentos
no farol dos teus olhos
entre barcas lentas

a espada no fio da noite
é unha velha amiga
de mares vazios

o sal dos espelhos tão verdes
reclina aos ossos da noite
o teu corpo morto.

p. 58
Conselho antigo

Caminhas dormida,
filha,
rumo á Casa das Danças
acordarás entre cores de quetzal
e ouvirás a serpente mágica
Não chores, minha filha
quando estejas no mundo
quando de regresso
na Casa das Sombras
o amargo vinho dos homens
te quebrante o coração

-Pequena vaga-lume
oculta no fósforo
do amor.

p. 59
Poema

Somos as raparigas pintadas
os óleos amargos
entregues ao coração

Vestidas de penas de quetzal
o nosso amor se quebra
no anelo da rosa:
adormecemos na Casa do Mistério

Cheias de pinturas
nos inclinamos à dança.

-Somos as raparigas do pintor amargo.

p. 61
Poema

Ao caminhar descalça pelas aguarelas
um porto perdido espreita
os pequenos fósforos
pelas aguarelas
e um olhar de criança
é o que me faz pintora
perdida entre os malecões
entre um cais de prata
a pintar
de negro e de negro
o vazio dos barcos
ardendo nos fósforos
pelas aguarelas.

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