Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Read More

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Traição a Rosalia de Castro

150Cantares1No dia de hoje, 24 de fevereiro, coincidindo com o Dia de Rosalia de Castro, foi publicado o livro digital 150 Cantares para Rosalía de Castro, uma iniciativa de Suso Díaz em que tive a honra de participar com mais uma traição, que agora aqui publicito numa nova versão galego-portuguesa conforme à edição de Cantares galegos da Academia Galega da Língua Portuguesa. O livro pode-se descarregar desde a página da Fundación Rosalía de Castro, que desde já alberga esta obra coletiva. A publicação, que ia ser apresentada publicamente na Casa de Rosalía de Castro no próximo sábado 7 de março, ás 18 hs, fica adiada sem data devido a causas pessoais.

Traição a Rosalia de Castro

Ai, se não me levais pronto, bafos
demoníacos, airinhos da minha terra;
se não me levais, airinhos
e alentos sepulcrais onde o mar
se esgota e a terra se queima,
nem demos lindos nem anjos banais
quiçá já não me conheçam.
Que a ledice que comigo medra,
que a febre que de mim come,
uma faz com que sobre o monte voe,
outra vai-me consumindo lenta.
E no meu coraçãozinho
que amores e maldições acolhe,
uma libera-me nas asas do vento,
outra também traidora se ceiva.

Nota: Em itálico figuram os versos originais de Rosalia de Castro.
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História de um guarda-chuva vermelho

«A música de Karlheinz Stockhausen, pertencente à obra Tierkreis, da qual se extrai este Gemini (1975), foi interpretada na XLI Semana de Música do Córpus de Lugo, pelo Black Cage Ensemble (com Antonio Badenas, oboé, e Alejandro Troya, saxo tenor) com videoprojeções de Xacobe Meléndrez. Do mesmo jeito em que se estabelece um diálogo entre música e imagem, produz-se a conexão do vídeo com o poema de Alfredo Ferreiro, o resultado é uma peça artística multidisciplinar sugestiva e ambígua, que aprofunda na identidade e a experiência e se abre a múltiplas interpretações.
Xacobe Meléndrez Fassbender»

História de um guarda-chuva vermelho from NoTobo do Raposo on Vimeo.

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Nova lei

Dissecar um corpo para abri-lo como um estandarte, eis a última recomendação da Associação das Facas Unidas. É preciso liberar-nos da opressão das costelas, uma prisão de osso derivada duma reminiscência calcária demasiado antiga e falaz. Não precisamos esses espartilhos antediluvianos, assim que procedamos já. Quem tiver sua faca pronta, não deve aguardar mais; quem não, consulte seu farmacêutico ou seu sacerdote, ao mesmo dá, mas nunca tome suas decisões só. Lembre: seu corpo não lhe pertence e deve dar graças pelo fato de o poder usar. É a Lei do Livre Comércio de Cidadãos.

{Grupo Surrealista Galego}

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