Poemas na Eufeme, magazine de poesia

«No dia 13 de Janeiro de 2020 fica disponível o magazine de poesia Eufeme n.º 14 (Jan/Mar). Esta edição conta com a participação dos poetas: Alfredo Ferreiro Salgueiro; Catarina da Costa; Eduardo Quina; Fady Joudah (trad. Sérgio Ninguém); José Manuel Teixeira da Silva; Lena Khalaf Tuffaha (trad. Sérgio Ninguém); Maria Quintans; Silva Trstenjak (trad. Sérgio Ninguém); Vítor Pais; Yvette K. Centeno (Poetas&Poetas) e Rui Tinoco (Khroniká).

Com o preço habitual de 7€. Os pedidos podem ser feitos através de: Eufeme: eufeme.magazine@gmail.com; Livraria Poetria (Porto); Livraria Flâneur (Porto); Livraria Snob/Cossoul (Lisboa)».

Nesta revista publiquei poemas inspirados na exposição coletiva Exit, dirigida em 2019 por Gosia Trebacz e protagonizada por Ana Alonso, Bego Tojo, Begoña Pastoriza, José Fonticoba, Lola Saavedra, Luisa Valdés, Malena Carballo e Rosa Catoira:

Obra de Begoña Pastoriza
I
Ocultamos o espírito
com um corpo de papelão.
Às vezes, o amor rasga
o fato de trabalho
e a luz que nos conserva eternos
repara as costuras, os gestos
com que nos cremos sublimes
não sendo mais do que marionetas
tísicas, freneticamente instituídas,
talvez humanas, até.
Então é que o sangue fala,
e entre os seus coágulos
a verdade mana
empoladamente secular.
Nada mata melhor,
agora sabemos,
do que essa palavra
impronunciável.
Obra de Bego Tojo

II

Auscultamos o céu
permanentemente
como se tivéssemos perdido as moedas
necessárias para viver.
Mas no céu tudo muda de lugar,
tudo se transforma em nuvem
em vento ou em chuva
e nada do que deitamos lá
nasce para permanecer
no quadro da expectativa estelar.
Chega então uma trovoada
e uma saraiva de desejos
cai na nossa mão extenuada.
Os olhos saem ao encontro
dos pássaros que
nos acordam de manhã
enquanto uma lágrima brota
do nosso coração emplumado.

Obra de Luisa Valdés

III

No fundo do rio
há um pássaro adormecido.
Seus cânticos remontam a corrente
e seu ninho irisado
é abalado num remanso escondido.
Mas o dia da eclosão
dos ovos surgem desejos
e num torvelinho de paixão
as águas botam a voar
e uma chuva ascende ao céu.
Isto acontece em primavera,
cada quatro mil anos,
sempre que uma virgem
entrar nas águas a assobiar
a música do amor.

Obra de Lola Saavedra

IV

A nossa olhada sustém-se em ruínas impossíveis,
fogos falsos e erradas temperaturas.
O olho é um instrumento do perverso
cérebro que nos coroa,
o nariz irriga-nos tristeza
e os lábios nos provêem da preguiça necessária
para morrer.
Nada há tão sujo como o que se pensa
nem tão limpo como o que foi sentido
nas pradarias do coração.

Obra de José Fonticoba

V

A minha alma semelha
um desejo desvanecido
num urinário público.
Com sua face impertérrita
nos mijos velhos sucumbe
e em nada pode pensar
além de em sua má sorte
e nos odores pútridos que nascem
da sua axila espectral.
Minha alma dessangra-se
e canta
o seu triste final.

*

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Eufeme ~ magazine de poesia

Este ano que está para terminar, tem-me proporcionado muitas emoções, embora não todas sim algumas delas muito positivas. Entre elas, no quadro das sempre adoráveis visitas às amigas e amigos portugueses, foi das melhores ter conhecido a revista Eufeme ~ magazine de poesia e o seu responsável, Sérgio Ninguém, através do que desde há dúzias de anos foi o meu factotum das relações lusófonas, o inspirado e insuficientemente reconhecido poeta Amadeu Baptista.

No número 5 (já esgotado, segundo a editorial) desta formossísima revista portuguesa podem encontrar-se, para além do meu, outros de nomes que bem conhecerão ou deveriam conhecer, se gostarem da boa poesia: Ana Horta, António José Queiroz, Domingos da Mota, Edgardo Xavier, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Francisco Cardo, Gilles Fabre, Gisela, Gracias Ramos Rosa, Jack Galmitz, Jorge Arrimar, Lee Gurga, m. parissy, Maria F. Roldão, Mila Vidal Paletti, Rui Tinoco, Sónia Oliveira e Zlatka Timenova.

Os poemas que publiquei e aqui apresento constituem um avanço do meu novo livro Teoria das ruínas, em breve no prelo da chancela portuguesa Poética Edições, da escritora e já amiga Virgínia do Carmo.

*

CAÇADOR

Nada me compraz tanto observar
como a dourada luz dos astros a desenhar
a placenta embalsamada do mundo.
Num tapete de animais remotos sentir
a força gravitante da espinha dorsal
no percurso de uma dança antiga.
Cantar coa copa cheia
de sangue ritual,
indicar com precisão o lugar
de uma doença velha,
saltar o valado para o primeiro amor
e principiar a vida nesta vida,
no redondo horizonte
de um mar em calma.
Porém, eu sou,
fugitivo da injustiça,
um homem que rouba em sua casa
e logo se perde na névoa
do seu próprio jardim.
Caçador de sonhos,
mato sem sabê-lo
as peças que alcançaram refúgio
no meu coração.

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