Os valores de uma civilização

Quando ouço falar em Grécia como berço da civilização ocidental pergunto-me até onde influiu a cultura clássica no modo de ser dos vários povos de Europa, entre eles a Galiza. Atribui-se aos gregos o mérito de nos conquistar com sua mente racional e filosófica, com suas colunas de complexos efeitos óticos, com sua estética do vertical sobre o horizontal, com seu espírito masculino sobre um tépido e domável mar, e não sei onde isso tudo se pode achar na história e na idiossincrasia do meu país, aquele que sempre destacou por albergar ancestrais tradições mágicas, pola criação poética, polo protagonismo de seus inúmeros rios e requintados portos de mar, pola estética da viçosa e anárquica floresta, polo seu espírito feminino à beira de um generoso, infindo e bravo oceano.

Reparo, em definitivo, no Pártenon e não vejo nada comparável salvo a sensibilidade que implica venerar o Monte Pindo como um tributo da terra ao mar, um lugar de encontro que só uma mente subtil, milenária e sábia é capaz de apreciar, como um diamante que não foi talhado porque o seu valor era percebido sem necessidade da nossa intervenção.

{Sermos Galiza}

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Terra coletanea publicada de fotografos e poetas galegas e portuguesas publicada por Cultura que une 2015

Terra, edição de “Cultura que une”

Terra é um livro coletivo editado pelo projeto transminhoto «Cultura que une», uma aposta galego-portuguesa por fazer da antiga cultura galaica comum, muito mais extensa do que os limites políticos e territoriais da atual Galiza, uma experiência do nosso tempo. Não se trata de mover ou eliminar fronteiras mas de viver como se elas não existissem, nem de concorrer pelos méritos do passado ou do pressente mas desfrutar do convívio natural a que uma mesma terra nos convida desde há milénios.

É nessa sequência que nasceu a primeira publicação de Cultura que une, um livro iluminador que tudo o conta já no título: Terra. Consiste numa coletânea de fotógrafos e poetas galegas e portuguesas que partilham por pares suas particulares maneiras de ocupar a folha em branco. De partida, as fotografias foram propostas e a seguir os poemas, inéditos e não só, foram aconchegados para fornecer outros pontos de fuga.

Fotografia: António Pinto, Anxo Cabada, Catarina Almeida, Diogo Cardoso, Fernando Ribeiro, Iván Merayo, João Madureira, Maribel Valdivieso Varela, Santi Amil, Xosé Luís Alonso.

Poesia: Alfredo Ferreiro, Amadeu Baptista, António Fortuna, Berta Dávila, Carlos Da Aira, João Madureira, José Braga-Amaral, Ramiro Torres, Virgínia do Carmo, Yolanda Castaño.

Uma versão áudio-visual dos conteúdos pode achar-se no Canal Culturaqueune.

Disponível na Galiza na livraria Aira das Letras de Alhariz e em Portugal na Traga-Mundos de Vila Real.

Fotografia Frigindo os rojoes no pote por Joao Madureira

Frigindo os rojões no pote, por João Madureira

ARDER

Arder, aquecer no pote
o tempo e perceber o doce sabor
de aquilo que nasce
aquilo que morre
aquilo que mora no bordo da existência,
como um fungo que raramente aparece
e logo se oculta, fugitivo insensato
na derme sacra da terra
nas leves asas do vento
nas iriadas brânquias do mar,
que em nenhum lugar permanece
por ser apátrida sempre
onde outros erguem bandeira
e defecam pomposamente.
Caminhar sem tempo
alargadamente num único latejo
pela imagem da lua que dança
na marisma de um pensamento cordial,
maravilha do sacro no quotidiano.

Alfredo Ferreiro. Inédito

*

«A Galiza e o norte de Portugal, filhos de uma mesma cultura que ficou truncada, não tanto na época em que D. Afonso Henriques proclamou a independência do Condado Portucalense, mas sim quando foram implantados os tratados de limitação de fronteiras por estados liberais fortemente jacobinos e centralistas ao longo do século XIX.
Nas duas primeiras décadas do passado século XX, intelectuais e criadores galegos e portugueses falaram da necessidade do reencontro. Mas as violências do século XX, nomeadamente as ditaduras, a Guerra Civil Espanhola, a repressão, as dificuldades económicas que afectaram os povos ibéricos pareceram silenciar este diálogo que, na forma de encontros entre arqueólogos, escritores, filólogos, etc., continuaram à margem do discurso oficial.
Amarante é um referente para este reencontro e também encontro. A figura de Teixeira de Pascoaes, grande admirador de Rosalía de Castro (Pascoaes escrevia a Risco que haveria de se lhe fazer uma homenagem) foi um referente simbólico para uma intelectualidade galega. E não só Pascoaes. Também Leonardo Coimbra, Santos Júnior, Carlos de Passos, Hernâni Cidade, Rodrigues Lapa, Vicente Risco, Viqueira, Noriega Varela, Castelao, Filgueira, Jenaro Marinhas del Vallhe, Valentín Paz Andrade, Carvalho Calero, são um bom exemplo de intelectuais que, em algum momento da sua vida, trabalharam para o reencontro.
Mas se é necessário o reencontro também é igualmente necessária a redescoberta de um património cultural que teve origem no território da Gallaecia romana e que teve na língua galaico-portuguesa a sua fonte de criação. O património comum galaico-português faz parte do acervo da humanidade em criações tão singulares como as cantigas medievais da nossa lírica que transparecem uma rica tradição oral onde beberam os trovadores. A cultura popular comúm que manteve a sua vitalidade até ao presente, apesar da fronteira política, debe obter o seu maior reconhecimento mediante a inscrição na Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.
A aprovação a 11 de Março de 2014 pelo Parlamento Galego da Lei Valentín Paz-Andrade, fruto de uma Iniciativa Legislativa Popular, publicada no DOG de 8 de Abril de 2014, convida-nos, e até certo ponto obriga-nos, a aprofundar o esforço do reencontro.
Para contribuir para fazer da Lei realidade, damos impulso às seguintes actividades a desenvolver em Amarante e na Corunha nesta edição de 2015, que esperamos que não seja a última. A eleição destas duas cidades para a presente edição não é arbitrária. Se Amarante tem a força simbólica de Pascoaes, a cidade da Corunha é onde está a sede da Academia Galega, instituição civil constituída por aqueles que pensavam no ressurgimento da Galiza.
»

{Cultura que une}

Proximamente culturaqueune.com

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“Cultura que une” no Culturgal

Logo de Cultura que uneO projeto Cultura que une divulgou suas atividades transraianas na sequência da maior feira cultural da Galiza, o Culturgal, desenvolvido em Ponte Vedra de 4 a 6 de Dezembro. Este vídeo de Alfredo Ferreiro inclui uma entrevista a Luís Martínez-Risco, presidente da Fundación Vicente Risco e um dos principais promotores, assim como as intervenções de alguns de seus colaboradores principais.

Na sequência da aprovação a 11 de Março de 2014 pelo Parlamento Galego da Lei Valentim Paz-Andrade, o projeto nasceu, em primeiro lugar, a partir do diálogo entre a Fundación Vicente Risco e Norberto Cunha, responsável pelo Museu Bernardino Machado de Vila Nova de Famalicão.

O programa do «Cultura que une» integra diversas manifestações artísticas e culturais (exposições de pintura, fotografia e escultura; recitais de poesia e concertos), a serem realizadas em duas cidades, uma da Galiza e outra de Portugal, assim como ciclos de conferências relacionados ao tema das relações intelectuais entre Galiza e Norte de Portugal.

{Palavra Comum}

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No VIº Congresso da Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega

No Congresso AELG 2015, por Alfredo FerreiroVários fôrom os temas tratados no “VI Congreso de Escritores/as Galegos/as: Para que(n) escribimos o futuro?“, celebrado em Ponte Vedra em 26 de setembro de 2015, todos eles propostos polas interessadas e participantes no evento. Como três eram as mesas de trabalho a que uma pessoa podia acudir, falarei das três em que me coubo participar.

A mesa de trabalho de “Dereitos de Autoría e Profesionalización”, comandada por Francisco Castro, tinha começado por interessantes considerações suas e por uma pormenorizada síntese das nefastas experiências com editoriais de Xavier Queipo, que valorizou a situação que habitualmente o escritor sofre a respeito da sua falta de proteção no sistema literário e particularmente face aos interesses editoriais. Mas se estes fôrom os conteúdos de partida, logo no encontro propiciado polo Congresso outras questões fôrom trazidas à mesa.

Maria Xosé Queizán, perante a precária situação das escritoras perguntava onde era o muro das lamentações, ao que Francisco Castro replicava que se quadrar lamentar-se não servia. Elena Gallego solicitava referências atualizadas sobre honorários e contratos e arguia a necessidade de formar um critério próprio à hora da estratégia. Read More

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