«Há uma ferida que se aquieta»

(O meu agradecimento ao Maurício Vieira da revista Arvoressências pela publicação deste poema)

Há uma ferida que se aquieta
no fundo de uma branha,
há uma branha profunda
como uma ferida inquietante
que penetra a pele da terra
em sangue e auréolas
de lágrimas incessantes,
uma tristeza que se expande,
um sentimento líquido em que nascem
juncos como filhos
de uma tristeza grave
que já ninguém quer lembrar.
Há uma tristeza na branha
que nos molha e nos penetra
como uma pneumonia crónica
que de tão antiga já nem magoa,
porque está feita do mesmo barro
com que se fazem os olhos,
as vaginas
e as glândulas salivares.
Porque a branha é a nossa
cara humidade penetrante,
nossa sacra terra molhada,
nossa mãe no momento de parir-nos,
nossa placenta,
nossa própria alma
no dia em que vibramos
com a primeira palavra.

*Nota: Na Galiza “branha” significa “terreno pantanoso abundante em juncos e pastos” (Cf. https://estraviz.org/branha).

Do livro inédito de Alfredo Ferreiro Salgueiro Estrangeiros na noite

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