O grito submergido de Mário Herrero Valeiro

Da vida conclusa, livro de Mario Herrero ValeiroA nossa vida é superficial, e este fato revela-se no nosso corpo e na nossa pele a mostrarem as máculas próprias de seres esquecidos por deus. Um deus a pedido, criado desde e para o materialismo, mais uma “instituição” para sustentar as misérias individuais e sociais, um deus que não é caminho para a libertação mas fundamento do cativeiro.
No plano individual, a doença e a tortura são duas caras da mesma moeda, paixão do ser e ação do mundo material ou do injusto poder que nos governa. No social, a pátria, a família e em geral as instituições e outros modelos impostos polo Estado foram criados para manter a frustração permanente do cidadão. O “pai”, também desde que figura instituída, é um referente de frustração íntima que deve ser transmitida para o cidadão permanecer vinculado às rédeas do sistema; como função emotiva e pessoal, é referente castrado e agente castrador que transmite a derrota com uma sua atitude de vencido permanente, aquele que na realidade forneceu uma semente em que só a miséria podia florescer. Produz-se então a vinculação a um lastro emotivo que o sistema pretende fazer perene, e que o poeta, em sua necessidade visionária de construir um mundo possível e assim prover a hipótese certa da utopia, deseja reconduzir (“ser um digno filho”, “compreender por fim / o sentido do poema”). “Pátria” e “pai”, não por acaso da mesma raiz, são versões da mesma farsa. Read More

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Na herança templária

Castelo de Tomar

Entrada do castelo de Tomar

A passear por Tomar, por acaso entrei no jardim da Mata Nacional dos Sete Montes, a sul do castelo dos templários. Comecei a caminhar intuitivamente até que topei com um cartaz que anunciava a direção da “Fonte do sangue”. Então pensei: isto é providencial, vou caminho da Fonte do Sangue e eu vestido com a minha camisola de motivos históricos, um dragão e um leão como os que provavelmente teriam usado os descendentes da dinastia galaica que há muito ergueram este castelo na conquista das terras a sul do reino. Assim, sentia, tudo eram felizes indicadores para a minha primeira visita ao castelo templário. Uma visita esotérica sob o sol comum que aos visitantes vulgares aquece.Porém, o caminho perto do castelo nunca chegou a revelar-me a fonte do que quer que fosse aquilo, e o castelo mesmo não quis mostrar-me sua entrada, fazendo-me permanecer sempre por fora de seus muros. O tempo acabava-se enquanto eu andava perplexo o perímetro, e já devia baixar sem demora para comprar o pão na vila. Ao tempo, a minha camisola de profundos alicerces históricos se tornava um fato de simplicidade turística, e as minhas pretensões desejos de tele-novela.

No final da manhã entrei numa livraria de velho em que achei uma edição portuguesa do poeta galego Ernesto Guerra da Cal. O livro tinha uma dedicatória para alguém que o não conservou, ou a quem lhe foi roubado, ou espoliado. Poesia de um galego escrita em português, editada em Portugal e dedicada à Galiza, e o meu país nem sabe nem quer saber o quanto os seus filhos a amam, seus autênticos filhos e não aqueles que a herdam para a malbaratar nos becos que Madrid destina às anomalias e às não declaradas colónias, até por essa colonização tiver começado antes de a colonização ter sido iniciada. E para além desses becos em Madrid não há nada de bom, só deserto e excrementos. Mais além há de novo gente, com certeza boa gente de novo, na ausência da cidade.

diana

Diana, princesa de Poço Redondo

Penso por um instante em comprar o livro do Guerra, mas finalmente dá-me nos olhos uma antologia de poesia portuguesa 1940-1977. Então sim compro, decidido a beber nas fontes do Guerra e deixando este ficar na estante para algum dia voar para a mão de quem precisar descobrir o poeta de além-Minho que se converteu num dos mais reconhecidos especialistas na obra de Eça de Queirós, um galeguinho que fugiu das garras de Franco para lecionar longo tempo nos EUA. Conhecia a antologia, e gostava muito dela desde que o poeta Amadeu Baptista no-la tinha presenteado há muitos anos, e achava que não tinha sido reeditada. Apanhei-na, abri a capa e na portada vi escrito em letra manuscrita o nome de um dos autores da antologia, E. M. de Melo e Castro. Outro espólio, ou talvez o desinteresse dos descendentes de quem tanto amou a poesia.

Deduzi de tudo isto que devia ser uma obra que visa a fraternidade entre poetas, devido a toda a energia poética que contém e a tanta com que deveu ser elaborada. Em verdade, no exato momento em que a vi já sabia a quem a havia de entregar como presente. Assim foi, eu senti imediatamente que acabava de comprar um livro que não havia de permanecer muito comigo, um livro com trinta e cinco anos que ainda pretendia rumar para um outro destino e repousar ainda nas mãos de outro poeta. E não ia ser eu que lhe empecesse o caminho.

*

Para Linda, Gijsbrech e Carlos
regentes do parque de campismo
de Poço Redondo
À burra Diana
Aos cães Sexta-Feira e Sábado
Aos póneis Barby, Kent e Carlotta
Aos gatos
Aos insetos que se deixaram salvar na piscina

Resistência? Salvação?
Vontade? Patriotismo?
Devemos é queimar os montes
do nosso egoísmo.
Existe a nação
ou é só um xarope intelectual?
Ouço gritar um burro todas as manhãs
tão orgulhoso que semelha cantar.
Um burro pagado de si
gritando a pleno pulmão
é uma potência natural agradável,
a afirmação de uma espécie
em perigo de extinção
mas que ainda não esquece
seu lugar no mundo.
Brama o burro como um barco
que volta ou retorna ao mar-maior,
afirmando ele ser
o mais fundo peito da serra ou da ria.
Barcos galegos e burros portugueses
semelham dinossauros preservados
pelos erros do capitalismo.
E a mim, ainda, escritor galego e poeta
já pouco me falta para ser
um animal mitológico
que um dia alguém julgará
não ter existido nunca.
Aquele dia em que o barco descansará
para recreio dos peixes
e os burros continuarão a bradar
por séculos sem conta,
muito além do que possa ficar
da minha memória.

Camping Redondo (Poço Redondo, Junceira), 5-7/9/2015.

{Palavra comum}

 

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Próxima estação: galego-português

«Próxima estação: galego-português é uma proposta de viagem para o nosso idioma onde mais do que nunca trasladar-se implica transformar-se.

Uma viagem à procura do galego-português é comprovar que temos uma língua com a que podemos deslocar-nos miles de quilómetros por terra, mar e ar, por barco, bicicleta ou zepelim a Pernambuco, Rio de Janeiro, Porto, Luanda, Dili, Fonsagrada e Compostela, sempre que a nossa alfândega mental nos conceda uma passagem.

Em Próxima estação: galego-português precisamos pouca bagagem: apenas se nos permitirá um afinador de ouvido, um bom sentido musical para comunicar e uma imensa curiosidade como bússola.

À Próxima estação: galego-português chega-se também com a imaginação e as palavras. Só através delas atravessaremos os mundos criados por Fernando Pessoa, Sophia de Mello, Clarice Lispector, Pepetela, Rosalia de Castro e Mia Couto. Mundos que partilham todo um planeta – o NH- muito antes de que o vagão chegue o seu destino.

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PGL entrevista Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro recolhe, entre outros epítetos, o de poeta. Tem participado em vários projetos coletivos, caso de Amigos de Azertyuiop e o 7 poetas. Como respira a poesia na era digital?

Respira muito bem, embora a gente não perceba os ritmos do poético que transcendem uma visão convencional da vida. A perspectiva tradicional dos meios poéticos, como o livro de poemas em papel, é que sofre, mas à par de outros géneros literários. O romance também é cada vez menos lido, e ninguém parece reparar nisso.

Diriges, com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Como respiram os blogues na era das redes sociais?

Devo aproveitar a ocasião para informar de que a Asociación Cultural Blogaliza, presidida por Pedro Silva, alma mater da comunidade de blogues desde o seu nascimento, é que ficou responsável polo serviço desde há alguns meses. A Táti e mais eu albergamos o Blogaliza no nosso projeto empresarial durante vários anos, mas felizmente hoje tem um futuro certo nas mãos de quem melhor a conhece e o pode manter. Quanto à vitalidade dos blogues, é evidente que na comunicação do imediato perderam espaço se comparados com o Facebook ou o Twitter; mas como espaço pessoal de publicação e arquivo continuam a ser um recurso imprescindível.

Revista Palavra comum

Um dos teus últimos projetos é a revista on-line Palavra Comum. Na apresentação afirmas que a Galiza é terra de talentos e a revista um lugar de encontro. Que é preciso para a cultura galega ser um lugar de encontro para além de ortografias e estratégias culturais?

É isto um tema controverso sobre o que tenho uma opinião bicéfala que algumas pessoas, de uma beira e da avessa, nem logram compreender. Na experiência consciente da nossa língua acho duas verdades rijas demais para serem conciliadas numa fórmula única: 1) a ortografia histórica ou reintregrada (qualquer uma) é uma estrangeirice surpreendente para muita gente, o que provoca o reintegracionismo ativo medrar numa sorte de gueto; 2) a ortografia institucional atual (chamada de “oficial”), por sua parte, é uma espanholeirada devastadora que perpetua uma alienação cultural de séculos. Read More

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PGL entrevista Xurxo Souto

Xurxo Souto: «A música é emoçom, portanto a música cantada em português é música nossa, é parte das nossas emoçons». Sim, senhor, um facto tão evidente que me admira no que diz respeito da literatura portuguesa o pessoal não estimar o mesmo. As obras em português seriam imprescindíveis para todo o escritor galego. A realidade é que a ler em castelhano semelha ficar satisfeita a maioría. Ou não?

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