Orgulho de neofalante

orgulhoneofalanteSou novo falante de galego desde que decidi assumir como própria a língua que a minha mãe, que deseja sempre o melhor para mim, escolheu não me transmitir. Rejeitava ela a fala que tinha aprendido com a família, e que se vinha falando desde que a gente tem memória. Porém, não foi em rigor uma decisão apoiada na carência, mas todo o contrário, alicerçada na estrita provisão de recursos, algo profundamente humano e por isso nada estranho ao amor maternal.

Mas ela já tinha apreendido e mesmo experimentado que o futuro era possível só se a gente falava uma autêntica língua, e que aqueles falares que percebem as favas e as vacas não são ótimos para arranjar um trabalho como os que na modernidade a gente precisa. Por isso, ao tempo que me alimentava com o melhor que brotava do seu peito, também me negava, sem sabê-lo, um alimento que eu tive de apanhar entre o que a ela lhe sobrava, e que na aldeia ainda nascia com a naturalidade do que sempre brotou ali.

Amo a minha mãe, mas detesto a infinita ignorância que a Espanha (todos os seus agentes desgaleguizadores, aquém e além) têm sementado na Galiza, e que faz com que a gente, a partir do exemplo do idioma, não tenha apreço pelas autênticas tradições.

Nunca pensei que tinha adotado o galego face ao meu castelhano inicial por uma atitude antissistema. Acho melhor que foi uma coerência, provavelmente inoculada por via artístico-intelectual, que me levou a sentir como próprio aquilo que rebordava sem trégua sob o leve manto de espanholidade que respiraba à minha volta. É sem dúvida uma questão de sensibilidade, e não só para ser alvo de aquilo que nos marca senão mesmo para ser penetrado por uma realidade que de algum modo se pressente, e que, de um modo íntimo e prévio a todo raciocínio, precisamos absorver.

[Praza Pública, 1/10/2014]

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O desafio cultural do presente

1916-1950. Xeración Nós: o raio transparente

1916-1950. Xeración Nós: o raio transparente

A Geração Nós assumiu como própria a tarefa de demonstrar que a cultura galega existia no conjunto do património mundial, e para isso foi entre os próprios galegos que houvo de fazer seu principal lavor de divulgação, pois ao povo não só lhe fora ocultado o seu tesouro nacional senão que permanecia empecido para perceber sua maravilhosa singularidade a causa da ação colonizadora que Espanha desenvolve na sua construção nacional.

Mercê a este esforço nos âmbitos académico, editorial, historiográfico, artístico, arqueológico, industrial, etc, encetado mormente pola Geração Nós, é que foi possível na Transição Espanhola a criação de diversas instituições culturais e políticas que agem com certa normalidade desde hai dúzias de anos, e que dotam a nossa realidade sociocultural de um quadro referencial imprescindível: associações culturais e profissionais, ensino em galego, instituições culturais específicas, rádio e televisão em galego, etc.

Mas a situação hoje está a mudar. As políticas culturais oficiais tentam abertamente assolagar a renascença cultural da Transição democrática mediante a estratégia de eludir os apoios ao mundo cultural sob o pretexto da falência de orçamentos gerais básicos. Neste contexto, com um povo ainda pouco consciente da necessidade de alimentar um quadro referencial próprio e com uma capacidade adquisitiva constantemente à míngua, os produtos culturais galegos têm no mercado interno uma demanda decrescente.

É por isto que a projeção internacional (Espanha, América, Europa, África…) se torna no presente uma estratégia que pode fazer a cultura galega sobreviver. Read More

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Espanholidade

«O que me anima ainda a escrever [em ocasiões o galego] em normativa institucional, quer dizer com grafia espanhola, é o fato de existir um bom número de pessoas que a reconhecem não só como galega mas como intimamente sua, desde que ligada ao seu próprio jeito de galeguizarem o mundo. É essa passiva espanholidade, mais comum e profunda do que somos capazes de reconhecer, que me merece um grande respeito, até porque eu mesmo não me dou desembaraçado dela e talvez nunca consiga. O fato de vivermos referencialmente em Espanha antes do que na Galiza, como diariamente experimentamos os galegos, deve ter muito a ver com isto.»

{Praza Pública, 26/05/2014 }

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De Herberto Helder, demónio inocente, a Ramiro Torres, apaixonado vidente

Herberto Helder, que desde 2008 não publicava livro, publicou Servidões neste maio passado, composto por dez páginas de prosa autobiográfica e setenta e três poemas inéditos. Mas não tomem pressa, que a obra já ficou esgotada, como acostuma a acontecer.

O Herberto, sim, esgota seus livros em semanas, apesar de a poesia ser um gênero que não se vende bem. Apesar de o poeta não se interessar com as vendas, as entrevistas e a fina-flor do mundo intelectual. Porque o poeta, como ele amostra sem ter que dizê-lo por um altifalante, não é um literato. Embora se possa servir da literatura, como todo o mundo, se for preciso.

Nunca li, em livros do Helder, tantos versos sentindo tanto e ao mesmo tempo os compreendendo tão pouco. Se calhar essa é mesmo uma técnica para nos abrir os olhos ao que realmente importa, a aquilo que só na escuridão do pestanejo se sente. Porque o livro todo é o dó-de-peito de um guerreiro de oitenta e três anos com toda a poesia da vida carregada na mão, pronta para nos disparar como a peças adormecidas que não sabem fugir.

É, na realidade, uma obra que revela o compromisso profundo com a procura da verdade, aquela que se oculta na floresta do coração assim como aquela que vagueia pelos caminhos de uma nossa sociedade que, melhor que evoluir, simplesmente se arrasta. A verdade que não só ao poeta corresponde procurar, mas à alma que tenta cumprir o seu destino contra as forças demoníacas que a sepultam e a alimentam.

Uma nota final para aqueles que asseguram não saber bem o que a poesia é, ou ainda para aquelas pessoas que dizem ser chegados os tempos em que a metáfora deve ser posta em questão. Tomemos este verso: “Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência”. Reparemos no verbo que fala da nossa existência, depois no advérbio que nos inculca a nódoa da maldade e finalmente no substantivo que nos exime de toda culpa. Não é, porventura, esta uma definição mestra da nossa vida, uma existência tão talhada pelas circunstâncias quanto pelos erros a que nos conduz o egoísmo? Não somos injustos em um mundo injusto?

A poesia autêntica não é fácil. O poeta não escreve para nós. Mas através do poema, eis a magia, descobrimos todo o que nos une por uma linha impossível de ver.

Ramiro Torres por Gabriel Ferreiro (2013)Ramiro Torres, de quarenta anos, apresentou uns meses antes que o velhote o seu primeiro poemário, Esplendor arcano. Um livro editado pelo Grupo Surrealista Galego, de que ele mesmo faz parte, e uma publicação a que o autor se viu impelido pelo resto do grupo, farto de sofrer a falta de egocentrismo do Ramiro, uma atitude sem dúvida virtuosa mas que convertia a natural vaidade dos companheiros em uma experiência dilacerante.

No livro, são os arcanos da existência que são perscrutados pelo poeta. A poesia penetra na fase saturnal onde o corpo se revela em todo o seu esplendor, a mostrar um seu fresquio natural ao tempo que a “harmonia transversal que trespassa o caos”. Em consonância, o estilo oferece constantes contrastes térmicos, cromáticos, tácteis, substanciais… Da matéria excitada surge o mundo espiritual, como sublimação de aquela.

O discurso ilumina-se com descrições a modo de summa de epifanias sapienciais, de catálogo de eventos gnósticos, de compêndio de casos em que a sabedoria, como vulcão, cospe matéria iluminada, vestígios de Verdade. É Esplendor arcano, em definitivo uma meditação sobre a vida, e esta apenas um sonho acesso, flamejante quando percebemos a natureza sacra do nosso ateísmo. Porque somos um vestígio do nosso futuro, e do mesmo modo que há uma árvore dentro de uma semente também há um ser harmônico dentro de nós; desse futuro, quando inspirados pela escritura ou a leitura, ligamos para nós próprios mercê à poesia: “Somos espuma de / uma idade vindoura” (p. 23). O arcano é, afinal, a fórmula do imanente, uma verdade que havemos de abstrair, compilar e interpretar enquanto não deixamos de apanhar as sujas pedras do caminho, ruínas do que seremos se cumprirmos o destino.

Vejamos agora um verso do poeta para ilustrar de novo a potência da metáfora: “Vulva da ciência órfica”. De que se trata, de uma visão carnal, científica ou esotérica? Sem dúvida das três em uma sorte de harmonia forçada, como uma imagem que se dispersa em três direções e ao tempo se alimenta de três mundos: o orfismo traz para a mesa o mistério, a ciência propõe o método e a vulva implica a matriz universal. Mais uma vez o poeta se contradiz, e na contradição, como uma pinga de chuva pinta no céu gris um abano colorido.

Esplendor arcano é também uma obra esgotada, ainda que se podam sempre achar exemplares novamente impressos a pedido dos mais perspicazes. São vários centos de livros os vendidos apesar da muito escassa presença em livrarias. Poesia que vende, sem vontade comercial. Porque este poeta também não faz literatura, embora se poda servir dela, como todo o mundo, se for preciso.

Alfredo Ferreiro {Publicado en Praza Pública}

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Medios, comunicación e poder

Esta semana está a desenvolverse un seminario na Normal (UDC) pertinente como poucos: Medios, comunicación e poder. Despois de escoitar o luns as intervencións de Javier Toret (vía web), Tati Mancebo e Iván Sánchez sobre o uso das ferramentas hoxe imprescindíbeis para comunicármonos e traballarmos horizontalmente, na tarde de onte puiden acudir á fase final da segunda sesión de Análise de medios. Na Mesa de medios figuraban representantes de Cuac FM, Sermos Galiza, Praza Pública e Novas da Galiza, que contaron as liñas mestras dos seus proxectos e a viabilidade actual dos mesmos. As conclusións que tirei, apesar de faceren patente a dificultade dos tempos que vivimos, económica e politicamente, foron moi positivas.

Resaltouse na mesa o isolamento cidadán que se observa cando se descobren varias accións similares que se descoñecen mutuamente, o que constitúe unha intereseira segmentación social sen dúbida promovida polos poderes do sistema.

Defendeu alguén entre o público a necesidade de unir as enerxías dos varios medios alternativos para formaren un único con forza e recursos suficientes para enfrontarse aos medios convencionais, todos vencellados economicamente ao poder. A esta argumentación responderon que dubidaban moito desa estratexia, non tanto pola dificultade de atinxiren a altura económica necesaria mais porque hai que pór en causa o interese de termos a oferta informativa unificada, pois o monolitismo organizativo pode derivar en monolitismo ideolóxico e isto implica directamente a morte do xornalismo.

En xeral, a miña conclusión foi que todos eran coñecedores de cales eran os seus obxectivos e os seus recursos, e que en xeral están a traballar pola sustentabilidade dun xornalismo que, apesar de estar ferido de morte pola falta de independencia no ámbito da grande industria, ten un luminoso futuro por diante nestes proxectos que se basean nas auténticas necesidades informativas dos cidadáns.

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Medo do reintegracionismo?

O pobo abandona o galego, e isto semella por momentos unha realidade inexorábel. Despois da noite escura da ditadura, nos seguintes trinta anos foron criadas institucións, televisións, radios, ensino en galego e, para favorecer o desenvolvemento dunha modesta industria cultural, deixouse de lado a sempiterna discusión sobre a norma escrita. Deixouse caer, digamos, para o lado menos atrevido: tratábase de conservar a pouca normalidade que o galego podía ofrecer mostrándose como, non sen algunhas variacións, se tiña publicado na maioría da produción bibliográfica e académica dos anos anteriores. Porque mudar a lingua mediante a recuperación dunha grafía histórica na actualidade vinculada a un idioma estranxeiro era ousadía que só un grupo de arroutados mozos e un par de vellos tolos eran capaces de propor. Ao mesmo tempo, existían beneficios evidentes para un alto o fogo normativo: a industria cultural podería desenvolverse e a intelectualidade máis ousada podería traballar desfrutando dunha certa normalidade que a todos había beneficiar. E existindo esta normalidade, aos poucos o pobo había de ir perdendo os prexuízos lingüísticos e pasaría a valorizar unha lingua propia que así iría perdendo o estigma milenario que a condenaba ao abandono dos fillos que durante séculos amamentou. Para rubricar o conto, unha Lei de Normalización Lingüística saíu do mandil da dereita posfranquista, como un compromiso firme dos poderes fácticos co xogo limpo da democracia. Read More

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Erotismo e lectura

Lembro con ardente emoción as aulas de literatura española do instituto. Con quince anos e unha admiración pola beleza feminina que levaba tempo desatada, tocoume en sorte ter como profesora de literatura española unha adorábel poetisa sudamericana. Era loira, o que supuña un plus desde as máis temperás fantasías, posuía uns labios moi sensuais e o que o seu desenfado docente lle indicaba era sentar sobre a súa mesa colocando os pés na dos alumnos da fileira de diante. O panorama era do máis inspirador: unha loira subida nunha mesa a falarnos de estética literaria encanto nos mostraba unhas medias con motivos florais axustadas sobre unhas coxas redondas, maduras e experimentadas. É escusado contar que aquel ano logrei un sobresaliente en todas as avaliacións, e que nunca me vin máis incentivado para preparar exames con voluntarias lecturas extra. Entendo que naquel curso naceu en min unha duradoira afección pola literatura, que se mantén firme como poucas desde hai trinta anos.

Nunha ocasión explicounos a diferenza entre pornografía e erotismo. Na pornografía, argumentaba ela, o sexo é explícito e móstrase abertamente, encanto no erotismo a excitación sexual é provocada pola suxestión. E poñía como exemplo o final dunha novela en que os amantes, despois dunha triste separación, se reencontraban nas rúas de París; o galán, antes de pechar a porta e correr as cortinas do coche, daba a seguinte indicación ao cocheiro: “Por favor, non pare de conducir pola cidade até que o avise”. Agora vexo, teoricamente, a escena en toda a súa profundidade: a tracción animal fóra e a atracción animal, non menos poderosa, dentro da carruaxe.

Un xogo erótico con algunhas diferenzas é o que propón Clayton Cubitt nun traballo intitulado Hysterical literature: “O proxecto, que esperta opinións ben encontradas, consiste en gravar a mulleres lendo un fragmento dun libro mentres na entreperna teñen un vibrador, escena que non se mostra no plano. As protagonistas len ata que xa non poden aturar máis a tensión sexual. Segundo Cubitt, o que lle interesa é “a batalla do individuo entre mente e corpo. Ademais estou interesado en como as culturas trazan unha liña divisoria entre o aceptable e o prohibido(cfr. Letra en obras). A proposta consiste, ao meu ver, no contraste entre unha situación tan pública como a lectura e a experiencia dun orgasmo que acontece á vista de todos; nun segundo plano funciona, ademais, a dúbida de se a experiencia sexual é simulada ou se realmente existe un aparello oculto de probada eficacia. De calquera modo, teño para min que o autor é ben consciente de que non provoca indiferenza, e que esta desinhibición é se cadra proveitosa nesta nosa sociedade aínda lastrada por unha moralidade católica que estigmatiza o pracer sexual. Non menos interesante resultan, por outra parte, as parodias que están a xurdir. {Publicado en Praza Pública}

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